quarta-feira, 27 de junho de 2012

Bichoca-de-cana-caiana.




Gentil e Neném, gêmeos idênticos.



Dedicado àqueles que têm certas 
incertezas quanto a estarem vivos.



Por Lulu


Esta é a história dos gêmeos idênticos, Gentil e Neném, que trabalhavam num engenho puxado a cavalo. Ali eles operavam os equipamentos de extração da garapa de cana-de-açúcar e cuidavam do cavalo durante a jornada diária. Pequenos, mas exímios em tarefas que exigissem força física, só tinham dificuldades para alcançar objetos altos.
Dois moleques que faziam uma dupla respeitada pelos adultos, pois viviam em perfeita harmonia, sem discussões e mamparras, o que favorecia o trabalho. Além de serem iguais na aparência, tinham os mesmos traços psicológicos: dóceis; bom caráter, embora em formação; alegres desde o berço de taquara, onde a mãe os embalara ao ritmo da mão de pilão — recurso de mãe pobre, uma mão para o carinho, outra para o pão.
Precoces em força e agilidade, cedo foram colocados sob o peso das ordens de um patrão que expressava seu motivo econômico, repetido diariamente, no início de cada jornada de trabalho, com palavras espalhafatosas que eles não entendiam: "A limpeza e a organização no ambiente da obrigação é o melhor meio para se produzir cada vez mais com cada vez menos". Talvez até sem o perceber, o patrão dava sempre um acento mais forte ao falar “cada vez mais com cada vez menos”.
Eram de uma família humilde que morava numa casinha de sapé, com piso de chão batido e paredes de pau a pique rebocadas com barro cru.  Nas noites frias, adultos e crianças embolavam-se ao redor de um fogo no centro da cozinha. Enquanto as chamas crepitavam, os marmanjos contavam casos de assombração que as crianças ouviam aterrorizadas, mas logo esqueciam essas histórias e, entre risos e deboches, brincavam com  aquele lema do engenho e cantarolavam-no como se fosse um refrão de carnaval: "Cada vez mais com cada vez menos... Cada vez mais com cada vez menos... Cada vez mais com cada vez menos...”. O eco do engenho invadia a vida privada com novos significados, mas ninguém via mal nisso. 
Os cavalos do engenho eram domados para charrete, portanto, aceitavam viseiras. O proprietário, JB, usava a  viseira como trampolim para criar uma linguagem de comunicação com os garotos, dizia-lhes: "animais e crianças, quando em serviço, não podem ficar olhando para os lados; meninos precisam se concentrar e cavalos não podem se assustar". E, para fechar com chave de ouro, completava solene: "Mantenham um olho no cavalo e outro nas moendas", instrução que as crianças entendiam num sentido muito literal e, por isso, não tinham como praticá-la, não sendo zarolhos não podiam olhar para lados opostos ao mesmo tempo.

Acostumados a essa lida e sem noção de outras possibilidades, nem os meninos, nem seus pais tinham motivos para reclamações, não conheciam livros nem notícias de um mundo melhor. Para os meninos, tudo que cabia em seus sonhos estava à mão: um bom engenho, um raro patrão que xingava pouco,   um alazão forte e preparado para a moagem de canas encorpadas, e equipamentos bem lubrificados.
Mas chegou o dia em que a natureza fez o bagaço liberar um cheiro, curiosamente agradável, de garapa em fermentação. Um mundo ideal despertara, havia um brilho especial no canavial. A cerração se dissipava. O sol esparramava sua luz sobre a beleza do lugar e fazia a vida mais alegre e, pelo contraste, a morte mais triste pelo que com ela se poderia perder. Deus estava presente no vento, nas últimas gotículas de neblina, na vegetação e na claridade alaranjada que tomava conta das grotas mais próximas; e o diabo espreitava pelo buraco da bichoca-da-cana-caiana.
Um pouco mais tarde, o lugar esquentou e a vida latejava forte. O engenho entrou no seu normal: o cavalo no caminhar em círculo; a moenda a engolir as canas; o bagaço caindo seco num balaio; a garapa escorrendo para a grande tacha de rapadura. O sol atingia o ponto mais alto do céu quando o menino que alimentava a moenda distraiu-se do trabalho porque chupava, com fome e gulodice, um pedaço de cana caiana que descascara com seu canivete de bolso . Lambuzava-se como se fosse a última doçura que a vida lhe daria. Com a mão direita, segurava o gomo que chupava e; com a esquerda, a cana que depositaria na moedora. Essa falha foi o primeiro elo da corrente de acontecimentos que levaria ao acidente; mas não, à causa única. O menino da moenda não estava, naquele momento, trabalhando corretamente, pois engenhos que se prezam gostam de duas canas de cada vez porque não se desperdiça a capacidade do equipamento e nem se nega o objetivo econômico "cada vez mais com cada vez menos".
Quando o irmão observou aquilo, gritou:

— Manoooo, não é hora de merenda, põe mais cana!


Sempre literal e obediente, mal ouvira a reclamação, jogou longe o gomo que chupava, abraçou um feixe de cana e o soltou de supetão na moenda. E, faceiro, gritou para o irmão:
— Simbora! Cada vez mais! Cada vez mais!
E o cavalo que roda o dia inteiro na trilha do próprio rabo e em cima do que debaixo dele pode cair — coitado, será sempre o primeiro a cheirar as próprias necessidades fisiológicas — agora sentiu o impacto da moenda travando. Empacou. E aí veio o "acaso" a atrapalhar aquele dia maravilhoso e  o ambiente de trabalho em que nada se perdia nem o bagaço. Essa era uma fazenda, como tantas, onde os ganhos eram sacralizados sem preocupação com os riscos.   E isso trouxe à luz uma tragédia  e deu à escuridão uma criança, triste inversão.

—Manoooo dê uma olhada para ver se algum trem está prendendo a manjarra no telhado ou na viga?
Disse o guia do cavalo ao que cuidava da moenda.
O da moenda, confiante em sua destreza, subiu sobre a anca do cavalo, enfiou a cabeça entre uma viga e a manjarra. A cabeça entrou, mas não podia ser virada para a outra direção, tal era o estreitamento daquela vão e, como dizem por aí, aonde entra a cabeça entra o resto, então, ele enfiou também o braço direito para apalpar onde não podia ver. Esperava achar ali alguma saliência, algum parafuso que pudesse ter se desatarraxado e prendido a manjarra na viga ou nas ripas do telhado. Nessa tentativa de entrar aonde não cabia, chegou a uma posição de impasse e de pouco equilíbrio ficando preso entre a viga, que sustenta o telhado do engenho, e a manjarra, que liga as engrenagens à força do cavalo.  Bastou um  impulso para mais uma apalpadela, e o "acaso" se revelou por inteiro: perdeu o apoio do pé esquerdo, que estava sobre o traseiro do animal, que entrou debaixo do rabicho e na culatra. O cavalo  assustou-se ao sentir a repentina invasão de sua região mais sensível, e, num impulso vigoroso, venceu as forças que faziam o travamento. A manjarra subiu um pouco e avançou rapidamente não dando tempo para o menino tirar a cabeça daquele vão. Tudo que ligava a cabeça ao tronco rompeu-se enquanto o cavalo desenfreado arremetia-se. Em segundos tudo estava consumado.

Um derradeiro grito abafado
; o barulho da arrancada do cavalo; o estalo da manjarra; toda essa algazarra fez surgir, como por um encanto, variega gente que não parecia estar tão perto. As marcas da tragédia não se faziam tanto pelo sangue, mas pelo cenário assustador que não merece descrição porque impróprio.
O patrão chegou assustado e, sem saber qual dos iguais havia morrido,  perguntou para o menino que segurava o cavalo.

- Gentil, pelo amor de Deus! Qual de vocês morreu?

Estaria o patrão rebatizando aquele menino?  Para uma pergunta desastrosa, a resposta tinha que ser imediata, irrefletida, ilógica e apatetada:

— Meu patrão, pela Virgem Nossa Senhora! Eu acho que não foi o Neném quem morreu.

E assim, aquele que o povo passou a tratar por Gentil, talvez fosse o irmão, pois ele mesmo nunca soube esclarecer. E a partir daquele dia, quando lhe perguntavam:

— Gentil, foi você ou seu irmão quem morreu?

A resposta era invariavelmente educada:

— Meu senhor, até hoje não sei bem, tem hora que acho que foi o Gentil.

Assim, negava-se Descartes, "Penso, logo existo", mas confirmava-se Shakespeare, "Ser ou não ser, eis a questão".

É quem quiser aprenda a lição: o diabo mora no detalhe, como diz o provérbio alemão, mas costuma esconder na bichoca-da-cana-caiana e fingir de "acaso,", como aconteceu no engenho JB.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os bailes de Senhora de Oliveira

Por Caieira
Se baile é uma reunião cujo fim principal seja a dança, então, os nossos não eram bailes, mas poderiam ser intitulados de patuscadas, embora esse não seja um nome corriqueiro por aqui, mas exprime a ideia. Em nossas reuniões para dançar, a dança era a desculpa mais esfarrapada. A bem da verdade, os meninos estavam atrás de rabo de saia e as meninas, não sei de quê. Aliás, elas que falem por elas e não me venham com subterfúgios, pois, destas coisas que ocorreram na juventude quanto mais idade temos mais nos lembramos dos detalhes e melhor os sabemos interpretar, mas acontece que muitas vezes queremos esquecer e riscar o passado como se fôssemos outros. A vida brota de safra única e é linear, quem quer esquecer uma parte dela, não a viveu na íntegra, deles sinto pena. O melhor é lembrar-se de tudo, cuspir no que não prestou e entronizar, na aba esquerda do peito, o bom. Não é preciso ser poeta nem escritor para enaltecer o que é bom.

A nossa turma era assim: ninguém sabia cantar, ninguém sabia tocar; dançar, quase nada, só queríamos ficar juntos a elas ou, no mínimo, com elas por perto. Reunir a turma, chamar as moçoilas, correr os riscos, enormes para a nossa idade: ser recusado; levar um fora é duro, mas, mesmo assim, valia a pena. E não podíamos dar o troco, por aqui não havia o baile da cebola, em que se invertem os papéis, os homens são tirados para dançar pelas mulheres, e podem então aplicar o famoso chá de cadeira nelas. Nossa realidade era diferente, nós, os homens é que, às vezes, tomávamos o famoso chá de cadeira. Mas, a vontade de atravessar a pinguela era mais forte que o medo da água fria, mesmo os mais feiinhos, os tímidos, os filhos de pai mancueba e os caolhos compareciam. Sempre aparecia algum garoto com uma radiola e alguns discos de vinil; na modernidade de nosso tempo, os discos de latão, já aposentados, haviam virado peças raras de museu.

O salão da prefeitura, onde os vereadores se reuniam semanalmente, para nossa alegria, nunca aos sábados e domingos, era, na ausência de colisão de agenda e de interesses, um bom local. O difícil era encontrar o "Escurinho", o funcionário mais popular da prefeitura e mais importante, pois guardava a chave do lugar. Alias, esse era o único problema capaz de adiar, mas nunca de impedir os nossos "bailes". Percalços ocorriam porque decidíamos tudo na última hora despreocupados com os roteiros, éramos improvisadores. O Prefeito jamais negava o espaço para a juventude bailar, talvez pensando que aqueles pés irrequietos, aqueles badalos incontidos e aquelas coxas macias um dia votariam.

Quanto mais se vive mais se tem a certeza de que ter vivido a infância e a juventude nas ruas de Senhora de Oliveira foi um privilégio. Numa frase a altura de Zé Candin, nós poderíamos dizer: das ruas e bulevares do mundo inteiro, nós preferimos a Praça São Sebastião. E quem era jovem, em nosso tempo, teve a sorte de experimentar, numa só existência, o sabor da evolução em progressão geométrica. Um dia estávamos na idade média --- latrina longe de casa, casa sem luz elétrica, ruas sem calçamento, cidade sem salões de baile, bicas sem água encanado --- e, no outro (maneira de falar encurtando a escala do tempo), já tínhamos televisão parabólica, internet, TV a cabo, estrada asfaltada, ruas calçadas. O bom disso é que a gente não se assusta com o engavetamento das mudanças; acostuma-se, adapta-se, participa, usufrui, mesmo falando mal delas. A igreja local que, naquela época, perseguia nossos "bailes" e botava caraminhola na cabeça das mães de nossas senhoritas, modificou-se, modernizou-se, aceitou o inevitável, dobrou-se frente ao nosso santo calvário de "bailes" e serenatas. Éramos simples, bastavam-nos uma vitrola e algumas pernas de gêneros diferentes.

Para os cosmopolitas excludentes, que acham que apenas as grandes cidades são maravilhosas, digo com certeza absoluta e contida brabeza, ser feliz tem tudo a ver com o estado de espírito e muito pouco com os meios. Ser feliz, principalmente em grupo, depende de um estado de euforia contagiante que não se explica na solidão. Por outro lado, ser feliz na solidão, mais ainda independe dos meios, é uma questão de bastar-se, deixar que multidões de sentimentos, de sensações e de lembranças venham povoar a mente. A solidão, assim, não é absoluta e nem estar só, é estar com multidões de outros sem a presença física de ninguém.

E os nossos insubstituíveis bailes, nisso a evolução fez pouco: a felicidade, a alegria, o prazer da conversa ao pé do ouvido, nada disso mudou com todas essas evoluções. Os bailes com orquestras a acompanhar Frank Sinatras não nos impressionavam. Resolvidos, adaptados, reais, pé no chão, tudo somado é o que sentimos quando pensamos aquele tempo.

O que mais um adolescente pode fazer nessa terra? Perguntávamos só por perguntar, pois a resposta não era importante. Lembro-me de que chegamos a nos reunir, quando o piso do segundo andar da prefeitura ameaçava ruir, até na oficina de carpintaria do Izaltino Trindade. Não sei quem conseguiu a autorização, mas aconteceu, na Rua Nova, a segunda ou terceira casa da direita da primeira esquina de quem sobe, sem contar o beco do Palmital.

E assim, encharcado de modernidade e gostando de tudo de bom que há hoje, não desprezo o meu passado, não nego as minhas memórias e não deixo sobejos. Quem me provocar, verá!

O dono da bola

por Caieira

Chega com ela debaixo do braço, alisando-a só por alisar, sem segundas intenções, ou teria? Oito anos bem vividos; peito estufado; cabeça e olhos grandes; quase dentuço com direito à falha do meio; "filho de peixe peixinho é", seu pai joga muito; sorriso de vencedor; é o dono da pelota e ainda por cima é bom de bola. Mas ninguém diz: "Oh!"

Ali perto, pedras esperam para serem quebradas no martelo e medidas em latas de banha ou querosene. A base da nova Igreja Matriz precisa de muitas latas de brita. Ganha-se um cruzeiro por lata cheia, não há criança da cidade que não queira quebrar pedras, a meninada vai ficar bem de bolso, o bar dos Lanas vai ficar cheio, vai sair menino pelo ladrão; a geladeira a querosene foi acesa, muitos picolés serão vendidos. Por enquanto nada de Igreja, parece que a comissão da construção foi desfeita, alguém cavaqueou, e o Padre pôs o pé no freio. A esplanada e o campo de Futebol, onde os meninos jogam bola, foram doados para a construção da Igreja, o benfeitor chama-se João Camilo Milagres. Todos na Cidade sabem disso, mas ninguém diz: "Oh!"

Mas agora é hora de a pelada começar, logo se estabelecem as regras do jogo, como normalmente ocorre, dois jogadores, tipo cabeça de grupo, irão escolher, em sucessivas intercalações, os jogares que irão compor os dois times. O dono da redonda se define como um dos melhores, e nisso não há injustiça alguma, mas ele não se contenta com sua metade do espetáculo, define também o cabeça de grupo do time rival, e nisso já não é tão justo; mas ninguém diz: "Oh!"

A praxe, um sorteio na porrinha ou no par ou ímpar define, entre os dois cabeças de grupo, qual escolhe primeiro; mas hoje não será assim, o dono da bola quer escolher primeiro e já disse: "meu time é o de camisa". E assim, esses cabeças de grupo vão formando os times. Quem é escolhido pelo adversário do dono da bola tira a camisa e a joga no monte de pedras mais perto. Os últimos a serem escolhidos são os pernas-de-pau, ninguém se sente humilhado, ser ruim de bola não é tão ruim assim. Algazarra e camisas jogadas nas pedras, lagartixas correm assustadas e procuram novos montes de pedras; mas ninguém diz: "Oh!"

Começa o jogo, foi ou não foi falta: há uma pequena discussão, o dono da bola se acha justo o suficiente e obedecido mais que suficiente para afirmar: “foi”; e para o lado de lá. Todos agora sabem que o dono da bola, além de ser jogador do time de camisa, é o juiz da partida. Vamos à peleja: uma bola espirrada escapa pela lateral, "bola nossa.", apressa-se em dizer o dono da bola; mas ninguém diz: "Oh!"
E assim, a partida segue normal, até que o dono da bola diz que sofreu uma falta, quem a teria cometido não concorda com o julgamento, não aceita. Um rápido bate-boca. Alguém diz: "Oh!" O dono da bola bota a bola debaixo do braço e diz, Uai! O que teria cometido a falta, ofendido e chorando, sete anos, sai do jogo e vai embora, tão pequeno e tão renitente; e nem bola tem. Mais ninguém diz: "Oh!"

O Dono da bola bate a falta. Duas pedras delimitam a meta, não há balizas, a bola passou alta, mas ninguém contesta, o juiz diz: "foi dentro". O Jogo continua, os adversários do dono da bola estão perdendo, mas querem jogar, agora eles estão em minoria, perderam o jogador renitente, nem tanta falta faz, será que é por isso que ninguém disse: "Oh!"?

Uma senhora bonita, alegre e jovial debruça-se no parapeito da pequena varanda a poucos metros dali. O dono da bola tem mãe? Tem e ela diz, "Uai!" Todos dizem: "Oh!".

O jogo acabou.

Ele sai com ela debaixo do braço alisando-a só por alisar, é o dono da bola.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu, Camponês

por Caieira
Eu, Camponês.


Meu primeiro momento ocorreu quando eu ainda não tinha consciência de mim mesmo e abri os olhos. Vi, sem emoção, que eu era um corpo cercado de espaço e contido por outros corpos que se engalfinhavam na disputa pelo mesmo alimento. Embora o mundo fosse um grande peito leiteiro, e houvesse tetas para todos, nós deslembrados de que éramos farinha do mesmo saco, às vezes queríamos a teta em que outro já se abotoara.


Meu segundo momento ocorreu quando minha mãe negou-me a teta e me agarrou pelo pescoço, como se eu fosse um saco de estopas, e levou-me para um lugar seguro. Choraminguei porque o peso de meu corpo fez minha pele esticar, e minhas pernas balançarem no espaço escuro, até que fui suavemente depositado num ninho macio e seguro contra as intempéries e as ameaças que rondam os recém-nascidos. Notei, então, que o mundo era perigoso para os de minha raça e que eu tinha uma mãe para proteger-me, sem ela não sobreviveria.



Meu terceiro momento foi de decepção, percebi que minha mãe era submissa, puxava o saco do dono da casa e da família toda, até do menino que ainda engatinhava e mal dizia "mamã". Foi aí que meus olhos se abriram pela segunda vez, vi que havia um mundo em que uns têm prevalência sobre os outros, um mundo em que nascemos diferentes e com papéis bem definidos. Minha mãe, a troco do alimento e carinho do patrão, tinha que mostrar serviço: agradar a todos e ainda assim só pegar migalhas.



Meu quarto momento foi quando comi de um angu que o patrão havia guardado na despensa. Não sei de que era feito esse angu, nem porque não podia ser comido, mas minha mãe avisara-me: " Filho querido, do angu da despensa não se pode comer. Você pode comer qualquer coisa, tudo que achar no mato, nas árvores, todo tipo de carne, mas não pode, nem que a vaca tussa, comer o angu da despensa, pois aquele é o teste da subserviência". Naquele tempo eu não conhecia o ditado "neste angu tem caroço", se conhecesse não me atreveria à primeira mordida, que é a mãe de todas as mordidas, mas o certo é que mordi aquela água fervida com um fubá grosso e que cheirava a gorgulho, o fato estava consumado. Mal acabara de engolir aquelas pelotas mal assadas, apareceu o patrão, não sei de onde, já com uma vassoura na mão, a gritar: "Cão do diabo!, daqui para frente, eu não o quero mais em minha casa e rogo-lhe uma praga: você terá que procurar sua comida nos matos, viver às custas de sua própria caça"



O patrão nem precisava ter dito tanto, um clarão vindo de não sei onde, veio ao meu encontro e, de repente, tive consciência de minha nudez e destino: eu era um cachorro fadado a andar por aí cheirando o chão poeirento das encruzilhadas; o fiofó dos colegas; os postes para ver se há marcas de xixi de outros cães para em seguida eu mesmo fazer a minha marca. E, triste sina, minhas noitadas de amor não seriam simples como a dos outros animais, um nó necessário me amarraria, por algum tempo, à amada amante, seria bom, mas doloroso, fazer o quê! Minha liberdade pós farra seria limitada e com risco de sermos, eu e ela, apedrejados pelos garotos endiabrados do arraial. Traçado estava meu destino de andar por esses brejos, caçar preá, frango-d 'água, e, se tivesse sorte, conseguiria caça maior, raras na região, mas quem sabe um dia eu podia esbarrar com uma nessas grotas ou nesses vales, talvez um veado, um tamanduá-bandeira, um porco-do-mato e, num dia de loteria, com uma capivara bem gorda. Só não queria topar com o lobo guará, porco-espinho e ouriço-cacheiro que por aqui são comuns; o primeiro, que gosta de inverter o papel de caça para caçador; os dois outros, que são indigestos já na boca.



Tornei-me andarilho por uns tempos, mas minha vida de amaldiçoado começou a melhorar no dia em que esbarrei com um senhor de uns quarenta anos que montava um cavalo preto, ele gritou para meu lado: "Camponês, vem cá! Vem cá camponês!". A minha primeira reação foi: "Camponês! Quem?" A segunda, como não havia outras almas por ali, foi: "Camponês, eu? Bom, tudo bem". Naquele dia ganhei um nome e um salvador que iria ajudar-me a carregar minha cruz. Levou-me para sua casa e fê-la minha. Deu-me angu misturado com carne de boa qualidade, comi à vontade. Pulei pelo terreiro; deitei-me de costas para que me fizesse cafuné na barriga; babei nos panos de chão e pela casa. Esbaldei-me. Nunca entendi bem o nome dele nem de ninguém da família. Estranho, eu podia pensar, entender o meu nome, as conversas que se referiam a assuntos daquela casa, mas o nome das pessoas, nunca entendi bem, devia ser parte de meu castigo. Contentei-me com um ditado que grassa nos meios caninos: os homens reconhecem os outros pelo nome; os cães, pelo cheiro. Sei que aquele homem viajava muito, sempre num cavalo preto, vestindo uma capa de gabardine que quase se arrastava no chão. Em sua casa, criança era mato. Era uma sede de fazenda grande, sem luxo, mas de muitos quartos despensa com latas de gordura, cozinha espaçosa,  fogão grande com descanso de mais de metro.



Foi preciso um salvador para me redimir e, agora, eu tinha uma vida normal de cachorro.



Daquela casa guardo segredos, pois sou um cão de guarda no sentido lato e medo tenho de poucas coisas: de inconfidência, porque traição; de chuva, porque trovão; de festa, porque foguete; e de cachorras assanhadas porque carregam matilhas.



A minha estória podia acabar aqui, e já era muito para um cão tão infeliz na partida e tão feliz no meio, mas nem lhe conto o final, ou conto?



Conto:



O chefe daquela família meteu-se em política, disso sei porque não sou burro, apesar de ter a orelha grande, mas meu focinho é comprido e tenho um faro de primeiríssima, cheiro os acontecimentos. Tanto ele fez que foi eleito prefeito, em 1953, tomou posse no ano seguinte. Eu poderia esquecer aquelas datas, pois cachorro não se comove com eleições, mandatos e poderes humanos. Mas não as esqueço, porque houve muita festa, a cidade ficou nublada com tantos foguetes e de todos os tipos: o de rabo, que é o maior inferno para um cão, pois já na subida cria uma expectativa de estrondo que nos angustia por longos segundos até que haja o estampido, o ecoante ruído fenomenal, o terrível tãummmm..., durma-se com um barulho desses!; o tiro canhão, Deus me livre! Faz abalar os alicerces das melhores casas e quase perfura nossos tímpanos delicados por natureza e capazes de ouvir sons que os humanos não ouvem: um grilo distante, uma pulga sob o pelo do gato que nos tira o apetite, um mosquito voando baixo; somos diabólicas para ouvir sussurros. Como o centro da festa foi numa pensão de uma senhora que tinha uma casa na esquina da rua Nova, eu não tinha outro recurso, corria para o quarto alugado pelo patrão e escondia debaixo da cama. O tumulto foi tanto que escapei para um beco ali perto e acabei entrando numa briga de cachorro grande e, o pior, um dentre eles estava zangado, mordeu-me de leve, arranhou-me, foi o suficiente. Eu, camponês - dá pra acreditar? - não era vacinado e peguei a maldita raiva. O destino do ex-vira-lata estava traçado. O patrão, meu salvador, olhou-me com compaixão, mas dessa não me podia livrar. Poucos dias depois, o meu queixo endureceu e a saliva escorreu cascateando em cima de minha dor. Tinha sede, mas, só de pensar em água, sentia uma dor terrível em minhas mandíbulas. Sem beber água, com o corpo ardendo em febre, e doido por morder alguém e molhá-lo com minha perigosa babugem, era natural que eu fosse isolado, foi o que fizeram. Morri em prisão domiciliar, sou uma assombração de cachorro que acaba de lhe contar a sua estória, triste no início, boa no meio e ruim no fim, como são todas as vidas dos cachorros que conheci.

domingo, 4 de setembro de 2011

Lina e Agripino

por Caieira

Moravam na Rua Nova no tempo em que ela era de fato uma rua nova e de terra vermelha. Viviam numa casa simples: porta de madeira maciça de tábuas estreitas com fechadura de ferro preto e chave grande; janelas pequenas de madeira de boa qualidade com tramelas bem torneadas; a escada da frente, de seis a sete degraus, entrava metro e meio dentro da rua, e não tinha corrimãos, e seu piso era de cimento vermelho diferente do passeio que era da cor areia.

Lina: voz forte tonitruante que a fazia destacar-se em qualquer ambiente em que tivesse que emitir opiniões, e  como gostava! Não negava nem confirmava a assertiva do ditado "quem tem um bom argumento não precisa gritar". Sussurrando ou falando alto ela agradava e convencia o ouvinte. Fossem quais fossem os juízos de valor que emitisse soavam bem aos ouvidos e pareciam lógicos. Tinha a voz melodiosa em que os tons sobem e descem segundo as necessidades momentâneas dela própria, do assunto e, consequentemente, de seus ouvintes.

Agripino: voz comum; um sorriso permanente cravado num rosto comprido e magro; estatura média (tinha lá seus metro e setenta o que o tornava compatível em tamanho com a esposa e com quase todos os homens do lugar). Nenhuma característica física a destacá-lo. Era o homem mais comum da cidade: média das médias.

Desciam juntos, religiosa e diariamente, do alto da Rua Nova até a Igreja Matriz e sempre entravam, sem bater ou gritar 'ó de casa!', direto na cozinha de uma amiga que morava a poucos metros da Igreja na Praça Padre José Justiniano Teixeira. Gostavam de um café quente e simples, não aceitavam quitandas. Foi ali que os conheci;  e os observei; e os admirei; e fiz deles motivo de um juízo sumário, positivo e redutor: eram únicos.

Eram únicos, não apenas singulares. Eram únicos porque eram quase uma só pessoa. Fundiam-se de tal forma e dedicavam-se um ao outro, tão intensamente, que não lhes fora possível, pois a natureza é sábia, colocar entre eles um terceiro, mesmo que fosse um só filho. Casal autossuficiente; casal "o senhor é meu pastor, nada me faltará". Lina e Agripino jamais discutiam, concordavam nas pequenas e nas grandes coisas. Professavam a fé da mesma maneira e tinham a mesma compreensão dos mandamentos e filosofias da Igreja: se um tinha alguma interpretação diferenciada da escritura sagrada; o outro também a tinha. Nunca jamais se viu ou se verá neste país um casal tão uníssono e colado. A felicidade exagerada costuma chatear os semelhantes, enquanto emoção escassa que suscita inveja dos que não a têm, mas não no caso deles, talvez porque exalassem perfume. Se não afetavam os seres humanos, agrediam a concordância verbal: Lina e Agripino não são; Lina e Agripino é.

Lina não chorou quando Agripino morreu. Nem ela soube explicar, apenas comentou: "Não consigo chorar nem se eu passar pimenta nos olhos." Agripino entendeu, concordou e não reclamou.

Assim falou Deolinda II De como Fiquei rica

                                                                                                          Lulu
                                                  À minha mulher que ouviu e contou-me esta história.
Deolinda Maria da Conceição
(3/11/1886 a 20/3/1981)
Assim falou Deolinda: eu era ainda criança no tamanho e no juízo quando perdi minha mãe, em 1897. Meu pai que não dava trela à tristeza logo se casou, achando melhor que eu fosse morar com uma tia muito querida e bondosa. Nunca atinei com todas as razões que o levaram a tomar uma decisão tão penosa para mim, separar-me dele com a idade de onze anos, mas foi o que aconteceu sem traumas de minha parte. Mudei-me da enorme sede da Fazenda dos Pinheiros, onde eu havia nascido e morava, para uma pequena e humilde casinha no Pega Bem. Quando a gente é pequena, a vida corre depressa e criança não se apega a detalhes e, com o tempo, eles escapam da memória; só sei que a Tia, coitada, sofria de diversos males. Os curandeiros das redondezas e até um médico formado, que residia em São José do Xopotó, não conseguiram descobrir a causa de sua doença. Alguns da família diziam que ela era muito cismada, que não tinha doença alguma; contrariada, ela retrucava com um muxoxo  e um sorriso amargo seguidos por uma voz estranhamente grave: "Quando eu morrer escrevam na minha sepultura: cismada é a mãe!" O certo é que ela, aos poucos, definhou-se e de fato morreu. Na ripa da cruz que foi fincada em sua cova rasa escreveram apenas seu nome com as datas de nascimento e morte. E assim, jazida sem jazigo e sem epitáfio, termina a história de minha querida Tia e começa a minha. Fiquei órfã duas vezes em pouco tempo. Tive que voltar imediatamente para a casa de meu pai. Não gostei muito, preferia ficar lá, naquela altura já me acostumara com os primos que acabavam de ficar órfãos.  Não tínhamos problema de relacionamento, éramos felizes. Eles me tratavam muito bem, eram maravilhosos. A mocinha já se apegará a mim mesmo antes de eu vir morar com eles, pois ela e o pai, o Joãozinho, sempre nos visitavam quando minha mãe estava nas últimas. Brincávamos com bonecas e de esconde-esconde. A Fazenda dos Pinheiros era um paraíso para crianças: de frutas e atrativos variados; de pequenos poços, onde podíamos molhar a canela em filetes de águas rasas; onde se pescava cambeva com pauã. Ah... Você não conhece pauã, tem razão, não é coisa de dicionário, é coisa de beira de córrego, e vou explicar-lhe: é uma varinha com uma fieira de minhocas de maneira que os cambevas mordem as minhocas e ficam atarracados na corda em que elas, as minhocas, estão enfiadas, dando tempo para a gente, pescador, tirá-los do córrego e enfiá-los num balde de água; aí eles se desgrudam, entendeu? Mas a vida não era só pescar. Eu e Satita corríamos livres ao redor da grande casa, descíamos até a beira da estrada que ligava e liga até hoje a Posse à Santana e, de vez em quando, atravessávamo-la e subíamos a encosta em frente para ver a cumeeira do casarão e do paiol. Lá de cima a vista era bonita, e podíamos contar e recontar as janelas, mais de trinta. Víamos ora uma pomba ora um marreco estrebuchado no chão, morte por colisão. É que os pássaros confundem os espaços e luzes foscas da natureza com o branco das paredes que ficam com listas azuladas e encardidas pelas águas que escorrem dos beirais e que se juntam as que veem da chuva de vento. Isso embaralha suas vistas e causam essas trombadas, a morte é instantânea e, desconfio, indolor. Chorávamos pelos pássaros mais do que pelas pessoas do lugar que sofriam mortes piores e com mais consciência das perdas e medo da eternidade, é que os pássaros estavam perto e indefesos, e as pessoas longe; só não sei se, indefesas.

Apesar de lembranças tão remotas, não tenho muita certeza se, naquele tempo, eu ajudava a Tia com os serviços caseiros, só sei que eu rezava muito pela família, e a Satita trabalhava em afazeres mais leves: cuidava dos animais domésticos de pequeno porte, coisa de jogar milho e restos de comida para galinhas, perus e patos.

Meu pai tinha uma compreensão do mundo alicerçada em religião, em valores familiares e na tradição, por isso não deixou que eu continuasse a morar na casa da falecida Tia nem mais um dia. "Morreu hoje, sai amanhã", disse. Do velório da Tia tive que voltar para a velha casa dos Pinheiros. Ele tinha suas razões e mas explicou: "Deolinda, eu sei que você é uma boa menina e que o João é respeitador, mas não fica bem com sua idade, já na casa dos doze, morar com ele sem a presença de um parente de sangue. O povo é falador, é bom se precaver". O povo era falador; eu, uma boba que só entendia de bonecas e orações: sabia a ladainha de cor e salteado, contemplava, ajolhelhada em frente ao oratório, os mistérios gozosos,  durante o terço que rezávamos, diariamente, lá nos Pinheiros; e, semanalmente, no Pega Bem. Meu pai sabia justificar suas ordens; mas não, as escolhas que fazia. Não lhe faltavam palavras; mas, coragem. Era um homem consumido pelo respeito humano, nunca falaria de certas coisas com uma menina. "Menina inocente", pensava e com razão, "não vamos maculá-la com conversas de adultos", completava sem razão. É claro que, em minha ingenuidade, eu não havia nem pensado em sexo. Gostava mesmo é de conversar com minhas duas bonecas, as quais tinham nomes de pessoas, Jandira e Chica. Nem argumentei, defender-me de quê? Para mim, todos daquela casa não passavam de gente da família, e todos os meus problemas se resumiam em trocar e embalar as bonecas. Não entendi e nem me preocupei com o que meu pai havia dito, mas o Joãozinho, não sei por que cargas d'água, tomou conhecimento dessas conversas e, talvez, de outras cochichadas na cozinha da Fazenda dos Pinheiro e grassadas por estes córregos, sei lá por que línguas mal dobradas e orelhas envergadas. Ele sabia, pelo exemplo de uma prima que ficara falada, que não se brinca com a fofocas dos invejosos nem dos maledicentes. Aquela menina, a Maria Bernarda, viu-se numa enrascada quando o falatório sobre ela ganhou corpo e correu de boca em boca, alastrando-se como fogo em mato sem aceiro. Num piscar de olhos, não havia mais nenhuma pontinha de Córrego e casa de Rua do Arraial que não soubessem de seu desdito. Ela se viu mal-afamada só porque morava com um primo e, segundo o povo, com ele trocava carícias.

Saí da casa; mas não, da vida deles. Tomava fé de tudo que lá acontecia. Fiquei sabendo que houve um senão naquela casa logo depois da morte da Tia. O Joaquim começou a beber e caiu em depressão, dizia-se que pela  morte da mãe. Passou a usar a bebida além do costume social e viciou-se nela. A pinga, nessas situações, não é paliativo, é veneno. Depois dessa, eu passei a alertar os jovens decaídos: "Cuidado! Pinga, se fosse remédio para a tristeza, seria vendida em farmácia e em picadeiros de circo". Joaquim era cordato e quando entrou na adolescência, mesmo com o aumento da sua dependência ao vício do álcool, carregava uma penca de virtudes que sempre agradaram ao pai: obediente, não gostava de discussões e nem de palavrão. Mas quebrava todas as promessas e juras quando a cachaça tomava as rédeas de sua vida, o que acontecia cada vez com mais frequência: a vontade fraca deixava descer o primeiro gole que abafava as boas intenções com uma densa névoa de dúvidas, e a alma questionadora fazia brotar um dilema em sua consciência debilitada, então, uma voz indagava provocadora em gritos surdos que faziam tremer o seu interior: por que não o segundo? Frouxo! Joga mais um goela abaixo!

O Joãozinho, até então, via-me como de fato eu era, uma criança. Mas o fato de meu pai forçar nosso afastamento repentino, ao levar-me de volta para a Fazenda do Pinheiro, deve ter despertado nele algumas ideias e possibilidades antes nem sonhadas, como diz o ditado "só percebemos o valor da água depois que a fonte seca". O certo é que o jovem viúvo, depois que eu levei chá de sumiço,  passou a me ver com um olhar enviesado.

Depois disso, o mundo continuou girando algum tempo sem acontecimentos de monta, mas, não sendo a ansiedade virtude, a gente não peca por esperar: fatos me aguardavam. O primeiro ato que iria mudar minha vida aconteceu num domingo dia 14 de Outubro de 1900,  o dia  estava ensolarada com promessa de chuva para a noite. Estávamos num ano especial,  falava-se da proximidade da virada do século, e alguns patetas, como sempre acontece nesses anos de muitos zeros à direita, apregoavam o fim do mundo. Nunca mais me esquecerei daquele dia. Voltávamos do arraial, havíamos assistido a missa das dez e a dança dos Congados em que eles sungaram a bandeira do divino e a penduraram num mastro alto fincado a poucos metros da entrada da Igreja velha. Mesmo morando, naqueles dias, na Fazenda dos Pinheiros, eu iria passar uma tarde com a família do Joãozinho, isso porque, depois de muita insistência de minha parte, meu pai me autorizara a ir com eles, prometendo que iria buscar-me ao anoitecer. Já estávamos perto da encruzilhada da Vargem, a qual sempre participou de minha vida de maneira positiva e que tinha e tem até hoje três derivações: uma que segue reta para Lamim, que é uma estrada larga e bem cuidada; outra mais sinuosa que leva à Santana; e a última, a mais estreita, a pior delas e que era praticamente um trilho naquela época, é a que teríamos que seguir até a casa do Pega Bem. Ao longo dessa estradinha, que terminava na cabeceira do Pega Bem, existiam, naquela época, diversas casas a pequenos intervalos à direita e à esquerda. Um lugar ocupado por parentes e onde morava o pai de Joãozinho, Francisco Henriques de Miranda. Este, à esquerda da estradinha, enquanto Joãozinho e os filhos moravam num lugar a que demos o nome de brejo da luz por um motivo que minha timidez e religiosidade não me deixam revelar. Eu e a Satita cavaqueávamos antes de entrar nesse caminho mais estreito. Havíamos acabado de atravessar a ponte sobre o ribeirão que corta a Vargem num talho diagonal que começa no Clemente e acaba no Macuco. Carregávamos nossos sapatos nos embornais a tiracolo, pois era costume tirá-los na estrada de terra para economizar o solado e dar conforto aos pés. Vínhamos numa conversa alegre e descontraída, ela a afirmar que meu irmão, o Joaquim Fidelis, cujo nome de batismo é Joaquim Caetano de Souza, estava arrastando as asas para o lado dela. Satita me sondava sobre as intenções dele. Eu a dizer que pouco ou nada sabia, e que meu irmão não falava comigo sobre namoros e muito menos em casamento, e que suas conversas comigo eram de um adulto para uma criança, como me via, e que me dissera um dia, quando me atrevi a altercar com ele, "pirralha, você só sabe de bonecas!" Eu dizia a ela que só podia afirmar que ele era muito bom e trabalhador, e que  já havia juntado algum dinheiro, e que tinha condições de estabelecer compromissos mais sérios; e que ele era isso, aquilo e aquilo outro. Ponderei, se assim posso dizer, sobre o fato de ele ser ainda muito novo para se casar. Acho que não disse com essas palavras, eu era muito pequena para me expressar assim, mas falei no sentido de que todo angu tem caroço. Ela entendeu, mas não queria saber de caroços. Pedia conselhos sem os querer. Aceitava só aquilo que os flertes já haviam escrito em seu coração: casamento. Ela tinha mais juízo que eu, já não brincava de bonecas, e não sei por que tinha que me ouvir em questão que eu pouco ou nada entendia. Íamos falando de assunto sério que tratávamos de maneira leviana, não por maldade, mas pela falta de vivência. Embora uma ou duas frases pudessem prestar nessa conversa, parecíamos duas mendigas no escambo do que tinham: patavinas. Joãozinho vinha a cavalo ladeado pelo filho que caminhava a pé e descalço. O ar estava parado, nenhum vento para favorecer a propagação do som. Não podíamos ouvi-los e nem eles a nós. Conversavam animadamente, como dois amigos esquecidos do respeito humano e do álcool que os vinham separando nos últimos tempos.
Na vida há coisas que não acontecem aos saltos, mas algumas há que são extremamente sensíveis a pequenas intervenções do destino: uma pedra que rola de um barranco, um raio que resvala pelas cercas de arame farpado; uma árvore que tomba corroída pelo cupim em suas raízes ou pelo encharcado das terras que a sustém ou até pela idade e erosão; coisas assim, casuais, que podem roubar vidas de vegetais, animais e homens. Mas ali, naquele momento sagrado de minha existência, nada quis interromper o curso natural que se avizinhava e, assim, aquele instante, que para muitos ou quase toda a humanidade nada significaria, foi tudo para mim e toda a minha descendência. Ali ocorreram fatos fortuitos revestidos de aparência simples para quem não sabe dos turbilhões que as pessoas trazem escondidos no peito, não para nós: Joãozinho, que não gostava de usar esporas, cutucou o cavalo com os calcanhares para que ele andasse mais depressa, o animal reagiu e, em poucos minutos, Joaquim ficava para trás enquanto o cavaleiro se achegava a nós duas, as tagarelas da frente. Ele, então, com o carinho que sempre dedicou à filha, pediu-lhe, com educação, que acelerasse o passo, queria ter um particular comigo. Mal ela avançara alguns passos, disse-me: "Deolinda, vou direto ao assunto, pois é importante e não precisa de muita conversa para ser dito. Sei que seu pai a procurou e mostrou preocupação com a nossa situação, estou plenamente de acordo com ele e, no lugar dele,  faria o mesmo ou seria mais exigente. Seu pai mostrou o que seria um erro, mas não falou da forma de evitá-lo, eu falo, é um caminho que só pode ser percorrido por duas pessoas, nós: devemos nos casar, isso se você quiser, pois eu, nem preciso dizer, pois se já estou pedindo sua mão. Mesmo sabendo que você é bem mais nova do que eu, acho que o casamento agora não nos iria prejudicar". Eu levei um susto danado com aquela conversa, assim de supetão, esperava tudo, menos aquilo; mesmo sem saber bem o que era casamento, no sobressalto, disse: "Claro" para logo completar com mais entusiasmo "Claro Joãozinho! Claro! Com muito gosto". Mas o chão pareceu fugir, eu dava um passo certo no meu destino, mas na estrada de chão batido, pela primeira vez na vida, entrei na encruzilhada errada, quase ia para Santana, na direção de minha casa paterna. Ainda bem que meu futuro marido, que não tinha caraminholas nem dentro nem fora da cabeça, não tenha achado que aquilo poderia significar alguma vontade secreta de eu não querer sair da casa de Papai Sô Tonho ou de fugir de sua proposta. Ele, que não teve tempo para minhocar, ao notar que eu estava meio atordoada, disse com carinho: "Muito bem minha querida, pode ir preparando suas coisas, vamos nos casar tão logo a igreja cumpra a rotina de proclames; amanhã mesmo vou ao Arraial e tomo as primeiras providências junto ao Padre Painhas.

Não sei o que o Joãozinho disse ao padre Painhas na solicitação de urgência nos proclames, mas fiquei sabendo, depois, que enquanto esses corriam, eram três, um em cada semana, alguns fatos inesperados que ainda não eram de nosso conhecimento naqueles dias estavam acontecendo, fatos que mudariam nossas vidas, os quais passo a narrar em detalhes a partir de agora.

À direita da encruzilhada da Vargem, perto da estrada estreita que leva ao Pega Bem, havia uma casinha simples em que morava o padrinho de Joãozinho que o pessoal da cidade chamava de Seu Tal, cujo nome de batismo era Midas. Este homem ficara viúvo há anos e tinha um filho de criação, já de idade, que era tratado por todos pelo apelido de Major da Vargem. Fraco das ideias, um criançola sem nexo, um galalau que, contudo, não oferecia perigo para seu pai e nem para a vizinhança. Ganhara esse apelido num encontro casual com um contingente do famoso Tenente Fonseca que se dirigiu a ele com uma continência, dessas reservadas para os superiores. O gesto foi levado a sério pelo garoto e, como era coxo, tornou-se cômico ao repeti-lo pelas estradas; primeiro apelidaram-no de Major da poeira, depois, de Major da Vargem.

Seu Tal já passava dos oitenta quando começou a se preocupar com o futuro do filho. Perguntava-se: "Como, na minha falta, poderia meu filho tocar a vida sozinho se ele não tem aptidões nem ações?". Matutara por muitos meses antes de tomar uma decisão, ao cabo, levou o assunto ao filho. Explicou que sua vontade era doar, de porteira fechada, tudo que tinha para um dos filhos de Antônio Vieira de Souza, meu pai. Na escolha do beneficiário dessa enorme doação, preferia Joaquim Fidelis a qualquer outro dos irmãos, pois sabia que este já estava a cortejar, com intenção de casamento, a filha de seu amigo e compadre Joãozinho. Major ouviu calado e, como sempre, não opinou.

Apesar de possuir muitos bens, Seu Tal não ostentava riqueza e, aos olhos de muitos, se passava por pobre devido a sua aparência e modo de vida simples. Nada de supérfluos, ao contrário, tudo no limite para uma sobrevivência digna com o mínimo de gastos. Um homem apoucado em todos os aspectos, exceto no que se referia a terras, essas as tinha em quantidade e qualidade superiores a qualquer outro cidadão do arraial da Oliveira, quiça do município de Piranga. Essas propriedades, coisa de trezentos alqueires, estendiam-se pela campina da Vargem, a gema, desciam para os lados do Macuco e subiam para o córrego do Pires. Terras boas para plantio e pastagens e com pequenas reservas de Mata Atlântica nas encostas e cumes dos morros. A letargia do proprietário havia contaminado suas posses transformando-as em riqueza esterilizada, muita poeira e capoeira para nenhum conforto do dono ou de quem quer que seja. O pão-durismo é uma atitude que não incomoda ao que detém a posse de coisas, mas que mexe com a emoção dos vizinhos e faz brotar neles os piores sentimentos contra quem ajunta por ajuntar. O ser humano é esquisito e parece sentir prazer em ver a infelicidade distribuída a todos em partes iguais. Prefere o mesquinho que sofre ao que vive feliz e inconsciente da possibilidade de ter outra vida que não aquela que, se não escolheu, aceita com resignação. Talvez por isso os invejosos se esforçam para que os avaros saibam-se anômalos e se consumam por serem sovinas. O pão-durismo é, nessas bocas negras da vizinhança, propagado como se fosse uma doença contagiosa e terrível, bocas que, sem o suporte de cérebros um pouco acima delas, inventam coisas e fazem chacotas. O velho ancião sabia que pelas suas costas os habitantes do lugar e os falsos amigos diziam: "quem gosta de terra é minhoca e Seu Tal" ou "Aquele é tão pão-duro que tem até prisão de ventre, não solta um pum sequer". Algumas verdades apareciam no meio de tanta maledicência, uns diziam "só pode ser burrice ter tanta riqueza e viver como se fosse um mendigo". Seu Tal tinha personalidade bem formada e ouvia com interesse os conselhos para mudar de vida: alimentar-se melhor; mobiliar a casa; tirar as goteiras; e contratar uma empregada para tomar conta dele e do filho. Era educado, não teimava com ninguém,  para todas essas recomendações tinha algumas respostas prontas: "sim senhor", "O senhor está certo", "muito obrigado pelo conselho", mas nunca seguia tais cabeças, errava ou acertava sozinho. Nunca tomou satisfação com ninguém e nem fez cara feia para os que o desaprovavam. Com uns poucos amigos mais íntimos, comentava: "Mudar de vida pra quê? Estou bem como estou. Quem me ajudou a ganhar que venha ensinar-me como gastar".  Até achou graça quando um viajante, que viera ao seu rancho para pedir pousada, vendo-o maltrapilho pediu-lhe que chamasse o patrão, e ele, humilde, respondeu: "Aqui não existe patrão moço, somos todos filhos de Deus e por iguais nos tomamos". O certo é que essas conversas de invejosos, maldades de quem quer apequenar a virtude da austeridade no viver e aumentar os defeitos dos outros, com Seu Tal fizeram efeito contrário: aumentaram sua riqueza e fortaleceram seu espírito. E agora, tudo que havia amealhado, ano após ano, ia cair nas mãos de um felizardo, tudo dado de mão beijada. Guardou segredo de suas intenções, temendo uma fila de pedintes e parentes em sua porta. O Filho não conseguia entabular conversa séria e, por isso, tornara-se o confidente ideal. Seu Tal, falando alto para que o filho ouvisse, traçou seu plano, noites afora, na solidão do descanso de seu velho fogão, debaixo do toucinho defumado e da negra picumã de fumaça acumulada, em estranhos chumaços. Planos que envolviam contos e contos de reis sob um telhado sem foro de uma cozinha. Esperto, tinha a exata noção de que até os deuses cobram quando dão. Sabia que na vida tudo tem um preço, algumas vezes pequeno para quem paga e grande para quem recebe, a sua doação teria uma cláusula de barganha, essa seria lavrada no ínfimo diâmetro de um fio de bigode e na enorme extensão da palavra empenhada. Todos os bens seriam passados de porteira fechada, incluindo, também, os dois seres humanos, o proprietário e  seu herdeiro natural, o Major da Vargem, ambos, nessa estranha barganha, outorgantes e objetos da outorga. Estava tudo direcionado e certo, mas aquela pedrinha que, como eu disse e repito, costuma rolar numa encosta e mudar o curso das coisas, nesse caso rolou, e isso eu vou contar-lhe tim-tim por tim-tim.

O arteiro do Major gostava muito de brincar na capoeira rala que cingia a pequena casa onde morava. Ali, esquecido de que era coxo, corria desenfreado e descalço sem apreciar os riscos de as estrepes que vêm de baixo, e de os galhos secos que vêm de cima, esses que, ocasionalmente, se despregam das grimpas e aterrizam sem hora, local, velocidade e peso definidos. Estava, pois, sob o risco de tudo que acontece num sorteio da natureza ou cochilo das divindades que governam o topo das árvores, as coivaras e os estrepes venenosos. Quem tanto passa por um mesmo local de perigo, mesmo que o risco seja pequeno por vez que ali se arrisca, acaba transformando o improvável em provável, e se o ciclo se repete muitas e muitas vezes, o improvável torna-se em quase certo, foi o que aconteceu nesse caso: um galho de castanha-de-cutia veio de encontro à cabeça do menino, e digo, de encontro, na perspectiva do pai do rapazinho que se machucou e, ao encontro, na minha, pois esse galho faria meu destino e sorte sem causar um dano permanente ao pobre coitado. O certo é que o menino se esborrachou no chão e logo sobre um monte de excremento de gente, pois ali era local em que os proprietários e empregados costumavam amarrar o gato. Agora, pense você na situação de desconforto para quem o acudiu, algumas horas depois,  aquilo cheirava mal, um nojo de fazer vômito. Demorou a ser encontrado no meio daquela bosta nova e ficou em coma por mais algumas horas. Acordou aos poucos, estrebuchou e gemeu, mas, no frigir dos ovos, deu de si. Para o assombro dos presentes, despertou ao avesso, cheio de convicções, e, o naturalmente tão dissuasivo, transformado num homem convincente, cheio de argumentos bem acabados: "Pai, eu sei que o Senhor já decidiu dar as suas terras para o Joaquim Fidelis, mas acho melhor que Senhor não faça isso. Quem mais precisa é o pai da Satita, o padrinho João, ele também vai se casar por esses dias, o senhor não está sabendo? Pois, então, estou dizendo, vai! Eu posso muito bem morar com meu padrinho, e a Deolinda passa a ser minha madrinha. Ela a gente sabe que é tão boa menina quanto a Satita, e, tenho certeza, a Deolinda vai cuidar muito bem do senhor e de mim. Eu posso viver com eles, posso sim, sem contrariedade alguma. Então, pai, o Joaquim Fideles já tem alguns bens, já adquiriu terras, se é para ajudar o padrinho na pessoa da filha dele, é melhor ajudar ao próprio. Por que ajudar a um terceiro para agradar a um segundo se o senhor pode ajudar, diretamente, a esse segundo?" Seu Tal, branco de emoção, apenas gritou: "Estou ficando caipora! Como não havia pensado nisso!". E mergulhou-se em enome alegria ao pensar que o filho se recuperara definitivamente de sua patetice, mas, para sua decepção, após esse momento, da adolescência até a velhice, nunca mais aquela eterna criança bocejaria frases ou ideias inteligentes. Uma única e bendita vez fora iluminado pelo tronco que despencara de uma sábia grimpa, o suficiente para mudar a vida de muita gente e, a minha.

De todos esses episódios estávamos inocentes enquanto aconteciam. Muitos, até hoje, não acreditam nessa versão, algumas pessoas acham que a gente premeditara tudo e interferira no destino da herança. A verdade foi como contei. Nem preciso falar do susto e emoção que tomaram conta de nós quando Seu Tal trouxe-nos a notícia de sua decisão. Mesmo muito felizes, ficamos espantados quando, além das cláusulas de porteira fechada, o doador fez questão de pedir juras ao Joãozinho de que não deixaria as mulas de João Camilo, um respeitado morador do Vai e Volta, entrarem nas terras que nos doava. Nunca iremos entender o porquê dessa implicância com o vizinho e seus animais. Deixamos nossa curiosidade pendurada no varal do bom senso, seria muito arriscado indagar a respeito de tal capricho exatamente naquele dia.

E assim... Como a vida imita, algumas poucas vezes, a história de carochinha, assim aconteceu: Seu Tal ficou pobre, mas com pensão vitalícia para ele e o filho, e nós, eu e o Joãozinho, ficamos ricos de terra e pobres de tudo o mais, exceto de amor e de esperança.
 
Fazenda da Vargem em 2005
E tem mais, nós negamos a ideia de que  a vida anda a passos lentos "de déu em déu sem nunca chegar ao céu", eu brincava de boneca quando me vi de repente casada e fazendeira. Passamos a partilhar, de uma hora para outra, um monte de responsabilidade socialmente bem estabelecidas na região: muitos empregados; muitos pastos; cavalos e vacas e tapumes por fazer. Quando se herda terras de um homem que já não tinha forças nem ânimo para tomar conta delas, as cercas estão caindo por todos os lados, os trilhos invadidos pele carrapicho, os pastos tomados por assa peixes, os vales erodidos e aterrados, os aceiros invadidos pelo mato rasteiro, as árvores frutíferas com as folhas cortadas pelas formigas e os troncos carcomidos por cupins e brocas. Uma montanha de problemas e um montinho de dinheiro. "Ser Rico é isso?" Perguntávamos aos travesseiros, eu e o Joãozinho, cada qual com medo de revelar ao outro que éramos, também, sócios nas fraquezas e decepções.

Em dinheiro vivo nada recebemos, tínhamos que cavar a vida, como qualquer casal novo, com uma diferença, começávamos com uma enorme dívida, não em dinheiro, mas de coisas que não podiam ser adiadas. Um senhor muito inteligente me disse, anos depois, que nossa situação podia ser descrita como a de um empreendimento com passivo altamente coberto. Mas, indiferente a tais coberturas, a fazenda nos cobrava: arrame farpado; mão de obra; ferramentas, desde a enxada a um simples martelo; e casa por retocar, tudo isso exigindo reparos que não podiam ser adiados, era muita coisa a ser reconstruída. Joãozinho decidiu começar pela casa, entendeu logo que nela não cabiam retoques, tínhamos que fazer outra, com urgência.

Nosso casamento vingou porque o Joãozinho era um homem muito bom e, também, porque somos de um tempo em que casamento é para valer. No início era assim, ele trabalhava o dia todo e quando voltava para casa, já tarde, encontrava-me no terreiro brincando com as bonecas ou pulando corda, ele pegava minha mão, levava-me pra cozinha e me ensinava a cozinhar. Nunca levantou a voz para mim. Trabalhava o dia todo e tinha esse carinho que me reservava para as tardes e noites.

Mas, minha filha, num dia desses lhe conto o resto. Antes tenho que lhe dizer: o Major viveu muitos anos, nós cuidamos dele muito bem, que Deus o tenha. Por hoje chega.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Assim falou Deolinda I - Nosso retrato de 1911

Lulu
À Deolinda Maria da Conceição (03-11-1886 a 20/03/1981)



Assim falou Deolinda: tudo que vou narrar aqui é verdade, não precisa duvidar de mim e se duvidar, adeus corina, mando você passear. Este retrato é de 1911, uma raridade! Que tempos aqueles! A gente sob a influência do pensamento colonialista, tudo que vinha da Europa era bom, e a fotografia, então, era o máximo. Se Dom Pedro II, em toda sua realeza, babou pela imagem impressa, coube-nos imitá-lo, não somos de ficar a tiracolo, e a moda se alastrou. Joãozinho, meu primeiro marido, arrotou importância logo que soube que havia um fotógrafo ambulante no arraial da Oliveira, mandou chamá-lo com uma urgência que traduzia menos a pressa que a vontade de mostrar poder. Aquele marcou data e hora, era do tipo de agenda, fugia aos nossos costumes: nessas roças a gente chega sem aviso, sem precisão de rapapé; "Fresco assim, só pode ser algum almofadinha", pensei. E, como se fosse um Inglês, ele chegou em cima da hora. Quando ele entrou em nossa casa nova da Vargem, a gente já estava embonecada com roupa de missa e cabelos bem penteados. Aglomeramo-nos na cozinha, prontos, ansiosos e com cara de tacho. Não sabíamos bem em que aquilo ia dar, mas não queríamos perder a hora de o passarinho sair daquela caixa, é que comadre Heralda, uma analfabeta que se achava mais, havia dito, uns dias antes, para quem quisesse ouvir: "Cês precisa vê quando ele grita óia o passarinho!".


O ambulante era um sujeito despachado, metido a besta e dado à circunflexão, seu corpo anunciava com alguma antecedência o que a boca despacharia logo a seguir como uma ordem. Ele gostava de nos contrariar, e seu corpo sofria com este vaivém vertical, a figura arqueava-se quase até o chão, como se nos pedisse desculpas por nos causar tanta chateação. Mas, apesar dessa falsa modéstia, agia como se fosse o dono do lugar. Inspecionou a cozinha a procura de canto e piso apropriados, mandou a gente buscar folhas e galhos verdes no terreiro. De galho em galho, depois de muito arquejar, cobrimos uma parede. Ele arranjou a galhada num ritual bem ensaiado, construiu um cenário e transformou nossa cozinha numa rua com arcos verdes. Cobriu a parede com um pano enorme. Abriu as janelas para deixar entrar a luz do lado contrário de onde ficaríamos. Arqueou-se, mais uma vez, e gritou enquanto apontava para a janela do lado do fogão: "Quero a claridade nas minhas costas e nas suas caras, menina, abre esta janela mais!" Sobrou para Florisbela, bem feito para aquela ruiva curiosa que viera lá do Vai e Volta só para bisbilhotar, teve que sacudir a bunda gorda e a saia esgarçada e suja para escancarar a janela até que sua tábua ficasse rente à parede, então, atrelou-a num prego ali chumbado para essa finalidade. O dia entrou na cozinha com uma radiante intensidade, inundou nossa alma de alegria e tomou conta de todos; só não fizemos festa porque a gente se acostuma com a beleza e os milagres da vida. O ambulante esboçou um sorriso de 'até que enfim', botou sua máquina na nossa frente, morgou novamente, pediu que nos ajuntássemos, todos bem colados, como na brincadeira de passar anel. Nos organizou segundo um plano que não entendíamos e, pacientemente, foi lá debaixo daquele pano que cobria sua máquina, deu uma espiadela num buraco que apontava para nosso lado, arrumou pra lá, arrumou pra cá e voltou para nos ajeitar: ora um queixo devia ficar voltado para a objetiva, ora a cabeça tinha que se erguer mais, o pescoço mais ereto, e assim, depois de tanto levantar e baixar golas, abotoar punhos e pentear cabelos, ficamos lindos! Então ele nos disse: "olhem todos aqui!", Levantou a mão e repetiu: "aqui ó!". Esperou até que as crianças entendessem bem para onde olhar e, finalmente, gritou o famoso: "olha o passarinho!". Enquanto disparava uma luz, uma espécie de fogo branco, de muita pólvora concentrada, mas sem estampido, só um traque, menos que estas bombinhas que os meninos soltam nas festas juninas. Por coisa de segundos, aquilo clareou toda a cozinha. Aquela luz colou nossas imagens num papel transparente que havia dentro da caixa preta. Mas ele não se deu por satisfeito: mexeu de novo debaixo daquela coberta, retirou e lambeu o papel transparente, o substituiu por outro novinho e disse, "vamos repetir tudo... Não saiam da posição!... Crianças fiquem aí! Esperem!" e repetiu tudo, três vezes ou mais.

Quem afirma que o único lugar em que a família fica bem é na foto pode entender de fotos; mas não, de família. É verdade que podemos ficar bem na foto, e é o que acontece na maioria das vezes porque nos preparamos para ela, já na família a gente vive cada dia sem muito planejar. Na construção da família quase tudo vem ao acaso, o que dá sentido e fim a esse processo é o amor. O apego dos pais às crianças, as crises da adolescência, as pequenas brigas entre irmãos, tudo não passa de um ensaio geral para a vida, mas o que destaca a convivência familiar é o acolhimento ao que se desgarrou, a ajuda ao que fraquejou, a compreensão e o perdão quando todos os negam. A família é a integração e ganha peso nos momentos em que o ser humano mais precisa: quando todas as luzes se apagam e as nuvens negras escondem a estrela guia, e a bússola não mais aponta o norte, nem o vento sobra, ou o timoneiro não sabe para que porto ir, ou quando o frio invade a alma, lá está ela, a dita cuja, a família, a botar luz e calor no lugar da desesperança e da aflição. A família é uma tábua enxuta que flutua num oceano bravio para servir de boia para um ou mais de seus membros que correm riscos ou passam por dificuldades. Posso dizer, com a experiência de meus noventa anos de vida, que independente de cor e credo, e olha que sou branca e católica, a família é quase tudo e está presente na alegria e na tristeza, como o noivo e a noiva se prometem, olho no olho, durante a cerimônia do casamento. O meu caso é um exemplo disso, se não fosse a família, onde eu estaria agora? Se minha filha e meu genro não me acolhessem, e nem se diga dos outros filhos e filhas, tão carinhosos, e que sempre passam por aqui para me trazerem um presentinho, uma palavra de estímulo, ou em busca de uma bênção. Há de ter dinheiro que pague esse bem-estar derradeiro? E se eu não tivesse netos a quem contar histórias, bisnetos para comigo posarem em fotos coloridas, e tataranetos para me deixarem prosa de minha idade e meus valores? O que seria de mim sem esse baldrame? O que seriam de todos nós? Deus tem sido muito bom comigo e acho que essa ninhada de filhos, netos, bisnetos e tataranetos é a corda que o faz descer até nós. Para mim o solteirismo é como uma pinguela estreita que deixa passar um de cada vez, numa fila indiana, deve ter as suas vantagens. Há gente que vive feliz sozinha; eu, não. Algumas mulheres ficam solteiras porque escolhem demais, sonham com príncipes que só existem na fantasia, outras porque não aceitam cabrestos nem amarras. Duas coisas couberam em minha criação: a religião católica e o casamento. Fui criada para o terço, a missa em latim aos domingos (pena que aportuguesou-se), a procissão da lua cheia na sexta-feira da paixão, e para a aliança. É necessário repetir o ciclo de meus avós e pais, estamos aqui para povoar o mundo com nossos bacuris. Sou cabeça formada desde a infância para me ver nos meus filhos, para construir uma ponte larga e segura que deixa passar montoeiras ao mesmo tempo e abraçados, lado a lado, se quiserem.

Repare bem, não é o melhor começo para uma boa história, apresentar-nos numa foto assim, poderia parecer que nós, os adultos, não dávamos o merecido valor às crianças. Os estranhos à realidade de nossa época poderiam dizer que isto é um contrassenso, que não respeitamos as crianças, que os adultos estão empertigados enquanto as crianças, descalças. Mas reparem bem, é verdade que nossas crianças estão de pé no chão, mas bem vestidas. Essa valorização do sapato só tinha sentido, para nós da roça, no tempo da escravidão, pois servia para distinguir o escravo do liberto. Naquela época, antes de 1988, até branco descalço tornava-se suspeito de ser cativo, mas alguns anos depois, quando meus filhos eram crianças, calçado só servia para fazer calo. Meus meninos detestavam qualquer tipo de botina, bota e até chinelo. O meu filho mais velho era tão avesso à moda da botina que só usou uma em seu próprio casamento e, mesmo agora, já sendo bisavô, anda por ai de pé no chão e tem uma saúde de ferro. Sambanga! Você já o viu de sapatos? Estou falando do Herlindo!

Ah se vocês pudessem ver o que não aparece nesta imagem! À direita do fotógrafo, na hora em que posávamos para a foto, havia um fogão de lenha a crepitar e sobre ele, a fartura de nossa mesa: carne de porco, frango, ovos batidos, couve, ora-pro-nóbis, e o trivial que nunca faltava: arroz, feijão e angu. Ah! Você quer que eu fale da foto, está bem, volto-me para ela. Estes meninos da foto estão todos vivos, exceto um, o mais inteligente de todos, que Deus levaria já adulto e com família criada, destas mortes que não dependem do bom trato na infância, doença moldado ao longo da vida, não se sabe de onde nem por que vem. Independente desse tropicão, que é a morte de um filho, nossa raça se multiplica por este mundo. Gerei muitos, e todos vivem por muitos anos. O mundo é grande, e a gente vai ocupando os espaços com nossa prole.

Você já reparou que estamos todos sisudos nesta foto, explico o porquê: a gente estava pela primeira vez na frente de uma câmera, algo mágico, capaz de guardar as nossas imagens para sempre, ficamos tão encalistrados quanto encantados. E lhe digo que naquela época não se usava mostrar as canjicas à toa. A gente era parte de um povo tímido, esta irreverência e falta de compostura são assanhamentos modernos, estripulias de gente boba que de tanto se exteriorizar acaba fazendo papel feio. Éramos mais reservados e nós, as mulheres, tínhamos um silêncio muito expressivo, uma dádiva dos céus.

Sou muito feliz. Desculpe-me, na minha idade às vezes confundo um pouco a minha história e a misturo com a de minha mãe. Disso sei porque os antigos como eu e de cabeça melhor me falam, mas estou viva e ainda esperta e afirmo que tenho coração fraco já faz muito tempo, se continua batendo, devo isso ao Dr. Liberato Miranda que morava em Rio Espera e agora mora em Divinópolis. Aquele sim era médico dos bons. Agora, quando olho para o rasto que minha vida deixou até aqui e vejo-me no espelho do passado, não mais hesito em afirmar: fui abençoada. Essa ninhada de filhos, todos de mim com o Joãozinho; ah... O nome completo dele era João Henriques de Miranda, o que na foto está de bigode e que passou boa parte de sua curta vida nas terras que lhe deram a alcunha de João da Vargem. Viveu pouco, mas o suficiente para se casar duas vezes e deixar uma marca permanente no mundo. Comigo viveu uma bela história de amor, eu o chamava de Joãozinho, não porque fosse pequenino, eu jamais iria diminuir o meu marido, era a minha forma carinhosa de distingui-lo de tantos Joões e de torná-lo único. Era um homem e tanto, trabalhador, inteligente, esperto mas honesto. Honestidade hoje é qualidade rara, ele viveu num tempo em que a esperteza já estava se tornando sinônimo de desonestidade. Fico triste com essa inversão de valores, é difícil acreditar que um homem como o compadre Hermes, que eu tinha em alta conta, tenha dito de cara lavada: "se era honesto era incompetente"; "Vai pastar seu Hermes!" é o que eu devia ter jogado na cara dele. Diacho, minha educação não deixa, não sou malcriada com ninguém, tem hora que me faz mal ao estômago e vou aguentando calada muita bobice e até desaforos. Dr Liberato disse que isso se chama somatização, acho que ele estava certo, pois a gente vai somando desaforo em cima de desaforo, tudo nas tripas, o que acaba dando no que dá, dores pelo corpo todo e palpitações.

Joãozinho tinha muitas amizades e ainda novo era chamado para resolver contendas entre vizinhos, a maioria por causa de águas. Tinha bom senso, era um louvado e tanto, fazia um montão de amigos e ninharia de inimigos. Entedia do ofício. Não me esqueço do que ele me disse a respeito dessas contendas em torno de águas, pinguelas e brejos: "Deolinda, ninguém se mata por causa dessas ninharias, alguns se acham desrespeitados e desonrados, quando outros os fazem aceitar o que não querem. Essas brigas começam com pequenas discordâncias e vão crescendo até atingirem o lado pessoal, não é mais o metro de terra nem o filete de água que está em jogo, é a honra. Não é uma pequena birra que leva à morte, é o ódio alimentado pela convicção de que o outro quer levar vantagem com suas espertezas. Não gosto de arbitrar essas disputas sem entender o que de fato está em jogo. Na maioria das vezes, quando avocam um louvado, as discórdias já atingiram um nível em que o objeto do litígio transcende o bem material. Prefiro as contendas sobre grandes valores em terras e imóveis a que intervir em pequenas causas alimentadas por anos de ódios e antipatias acumuladas em que cada litigante vê na atitude do outro um desaforo danado.Quase em todos esses casos, tenho que apaziguar as almas, antes de definir locais para cercas e tapumes. Cercar o ódio antes de cercar terras, é o meu lema. Ganho amigos e um pouco mais de dinheiro na divisão de grandes fazendas; e, inimigos nos palmos dos brejos. Os tostões têm o cheiro da morte e os contos de réis, o da ambição; dos dois males, prefiro o segundo. Neste trabalho, quando há discordância das partes, não temos escolhas boas". É preciso falar mais alguma coisa sobre meu primeiro marido, um homem que falava assim era ou não era sábio? Tive sorte no casamento...
 


A foto é de 1911, já disse isso? Desculpe-me, é que essa data é importante para a compreensão de tudo que tenho a dizer, tenho que destacá-la. Mas voltemos à vaca fria, ou seja, à foto velha, nela estão todos os nossos filhos nascidos até aquela data e, ainda, os do primeiro casamento de Joãozinho. Os do primeiro matrimônio se puseram no fundo. A menina quase moça, já noiva quando posou nesta foto, é Satita; não faça confusão com o que falo, estou falando de Satita e, não de Sadita! Pois é, Satita, seu nome de batismo é Maria Joaquina de Jesus. Naquele dia, da foto, ela partiu o cabelo e usou um vestido branco comprido adornado por um cinto preto que combinava bem com a cor de seus cabelos. Linda, de olhar altivo, tudo a denotar o que sabemos dela pela sua história: é mulher de personalidade cujos traços de determinação já estavam, naquela época, gravados em sua fisionomia tranquila.
Agora eu sei, o seu destino estava traçado na delicadeza e suavidade de suas feições: seria esposa e mãe exemplar, viveria para criar muitos filhos e cuidar de netos. Olha do lado direito da foto, ali se encontra o irmão dela, esse rapazinho chamava-se Joaquim Henriques de Miranda. Sua mão direita pousa suavemente sobre o ombro do pai, gesto tão fino e pouco corriqueiro, na época e agora também, um sinal de grande afeição. Esses dois eram amigos de verdade, coisa difícil de acontecer entre pai e filho, pois muitos não conseguem administrar bem a necessidade de educarem com a de amarem os filhos, e aqueles que optam por apenas um desses extremos se tornam pais ditadores ou super protetores. Quando me sento no conforto de minha cama, eu que dormi tantos anos em catres, agarro-me em acontecidos do passado e medito sobre meu povo e, nessa quietude, o pensamento voa e a alma quase se evaporada e desloca do corpo, então, fico a vacilar se aquela mão no ombro pudesse significar algo mais que uma simples posição casual. E pergunto-me, teria o Joaquim pressentido a proximidade da morte dele e do pai. O certo é que isso, a morte de ambos, aconteceria pouco tempo depois. Encabula-me esse gesto, mas pode ser apenas uma bobagem minha, um devaneio da idade ou de quem imagina muito e costuma inventar patetice.Algumas vezes risco fósforo para fogo já formado ou tento apagar o carvão já frio. Por que acender o que já está crepitando ou esfriar a alma com lembranças tão tristes?



Nem parece que essa mulher de preto seja eu. Franzina assim, Parir todos esses meninos antes de completar 25 anos. Criei todos os que estão na frente, e essa no meu colo, e mais três que nasceriam depois. E para testar e dar crédito à minha boa memória, pois preciso contar as coisas como de fato foram e quero que você acredite em mim, vou citar o nome de todos na ordem em que estão na foto: o menino mais da direita é o Herlindo Henriques de Miranda; depois vem o Rosalino Henriques de Miranda, o Loló; O Alípio Henriques de Miranda; O Amantino Henriques de Miranda; e o Francisco Henriques Miranda de Souza, o Chico da Vargem; a do colo, essa menina com menos de um ano, é a Sadita. É isso mesmo! É a minha filha que hoje toma conta de mim e me olha tão bem, o nome dela é Rita Henriques de Miranda.

Quero também fazer um elogio a esta foto que é caprichada, como tantas daqueles tempos, esmerada na centralização da imagem, equilíbrio no arranjo do fundo e na escolha do local: a nossa cozinha calçada com tijolos bem queimados. Meu irmão Franklin, um homem que sempre gostou de retratos e de capricho, e que aprendera muito de balcão e de fotos quando morou em Belo Horizonte, ali pelos idos de 1932, no dia em que a viu, pegou-a com satisfação e exclamou ao seu modo: "Este retrato é superior! Superior! Superior! Não há falhas, o foco é perfeito, tudo que podia obter-se de um retrato foi alcançado nele".

J
oãozinho morreu alguns anos depois desta tomada. Tinha problemas de coração, mas antes enterrou o seu filho Joaquim. Deus que nos havia dado uma sombra muito escura, logo em seguida, a eclipsou com um sol brilhante e quente: nós tivemos a alegria de ver, ainda juntos, nascer a caçula, Maria Henriques de Miranda.

Fiquei viúva nova. Seria difícil preencher o vazio deixado pelo Joãozinho, mas eu sempre fui prática e decidida, mesmo sentindo pontadas no coração pela perda do companheiro, tinha que seguir em frente e logo me casei com Francisco Firmino de Oliveira, o Chiquinho, que me ajudou a criar minhas crianças do primeiro casamento e mais duas meninas que tive com ele, a Enedina e a Amélia. Muitos anos depois, já com a família toda criada e encaminhada,, cada um com o quinhão da partilha depois da morte de Joãozinho, fiquei viúva novamente. O destino assim o quis e não tive como não aceitar, quem tem?

Agora que já lhe falei do retrato, como se fosse uma introdução de minha história, vou narrar alguns fatos de minha vida que pouca gente conhece: de como fiquei rica.