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terça-feira, 8 de novembro de 2016

Era uma vez no pé do morro.

      
Por Lulu

Dedico este texto ao meu irmão que não gosta de  falar batata. 

Era uma vez no pé do morro, havia um rancho: casinha simples e arejada, num lugar bonito como quê! Suas paredes, pintadas de branco encardido, eram de pau-a-pique.  Tinha dois andares na parte da frente e, seguindo a inclinação do terreno e a arquitetura da região, apenas um pavimento na parte de traz, onde ficavam a cozinha e a despensa. Os quartos de dormir ficavam na parte mais alta da construção. A latrina era fora da casa, nos fundos da horta, e resumia-se numa casinha com um buraco no piso de madeira sobre um filete de água corrente que levava os dejetos para o ribeirão; pouca água, mas suficiente para arrastar o que nela conseguisse flutuar, e não era pouca coisa. Do lado da cozinha, a oeste, estendia-se uma esplêndida vargem, onde se entrecortavam estradas e trilhos. Aí iniciaram-se os acontecimentos aqui narrados, cujos diálogos foram escritos no “dialeto” da região, que ali era falado pelo início do século XX, embora as personagens reais não o usassem, o caso aconteceu mais ou menos como relatado. Adotamos essa linguagem para não tirar a beleza e graça do modo como nossa gente fallava. Sendo nossa geração muito próxima daquele tempo e daquele dialeto, podemos ainda compreender o que dizem — caso você, leitor, não entenda alguma palavra, pode inserir seu comentário no rodapé da postagem que responderemos. Aliás, os comentários prestam-se a qualquer impressão ou discordância, somos democráticos e sabemos levar desaforos pra casa (desde que não sejam muitos e impessoais) e estamos sempre aprendendo com os etc. —.

 Assim nivelados, vamos ao causo: 

— Sai da jinela minino, cê vai constipá! Sai já daí!

Disse uma preocupada  mãe  ao seu caçula, que não ligou para a censura e continuou na janela  a olhar na direção da várgea. Mas ao contrário de outras roças, o silêncio ali durava pouco.

— Mãe, óia lá, parece que vem vino uma mué lá na varge, ela já passou pela porteira e entrou na nossa estradinha. Qué vê? — disse o caçulinha apontando o dedo sujo de carvão para a várzea em frente.  

A virtuosa mãe hesitou antes de abrir mão do calor do fogão e arredar-se da chaleira onde fervia água para o  café, mas finalmente cedeu ao apelo do menino.  Abandonou seu céu de picumã, atravessou a cozinha, chegou até o filho encostado na janela,  debruçou-se sobre  o peitoril de madeira e pode, finalmente,  ver que ao longe um borrão contaminava o verde daquele paraíso, então, disse: 

— Fio, num é que parece mêmo uma mué! A esta hora do dia, quem há de sê? É cedo para visita, mas tarde pra arguma neguinha vim pedí leite. Nove hora da manhã; nesta tardura, todo mundo sabe que nóis já tirou leite das vaca e éas já  tão no bem bão do capim gordura.

E completou:

— Quédi a Filó? Êta minina artiosa,  não  para, nem dentro, nem fora de casa.

Uma risadinha estridente, marca de inocência, bondade e da alegria de viver, vinha se avivando dos lados do terreiro da cozinha e, como sempre, anunciava a chegada da menina Filó.

A educadora dona da casa, que já havia colocado o coador no mancebo enquanto se preparava para passar o café,  repreendeu a menina: 

— Buraca! Sempre que preciso de ocê, ocê demora a aparêcê; onde cê tava?

— Uai! A Sinhora num sabe. Eu fisse o qui a Sinhora pidiu. Fui lá na casa do seu Ôrico —  respondeu a humildade em pessoa.

— Quê cê foi cheirá lá? Disse a gloriosa  senhora e esboçou um sorriso sinalizando que estava brincando, mas a menina levou a sério:

— Ué! Banzerando é que eu num tava, fui buscá os ovo que a sinhora emprestou pra mué dele, a Sinhaninha. Fisse como a sinhora mandou.

— Mandei í e vortá, não era pra arranchá lá!

Com essas palavras, que expressavam mais aflição do que  vontade de corrigir a pobre criada, a dona de casa deu por encerrada a   admoestação, pois  agora tinha tarefa importante para ela.

Precavida, como devem ser as criaturas que vivem em locais ermos sob a guarda de Deus, que nem sempre intervém, e onde o vizinho mais próximo fica a mais de légua, a jovem dona de casa mandou a menina investigar: 

—  Filó, ocê dá um pulinho lá na estrada. Vai num pé e vorta noutro. Num fica remanchando. Vê que arma deste fim de mundo vem lá. Não se achegue muito perto dela, nóis num deve de dá confiança nem trela pra vadios de estrada. 

A diligente e gloriosa ajudante, ligeira no passo e esperta no tino, atravessou a cozinha, desceu o terreiro lateral, passou entre o paiol de milho e o esteio de braúna do sobrado e saiu no curral de leite, na frente da casa — um atoleiro de bosta e urina de vaca —, e de lá ganhou a estradinha para a indagação do quem-vem-lá. Nesse entrementes, a mulher que lá vinha ganhara meio caminho, da porteira que fecha as terra da fazenda para a estrada larga até a entrada do curral de leite, e, em passos largos e decididos, chegaria depressa à casa, mas quando viu a menina indo ao seu encontro agarrou de dar umas paradinhas e como uma mula circense bem ensinada dava três pulinhos seguidos por um movimento de jogar alguma coisa para trás. Filó a reconheceu sem precisar se achegar muito; fez meia volta e logo estava, quase sem fôlego, ao lado da patroa. 

— É a Maria Doida, sem tirá nem pô — disse convencida e completou, — Ocês pode esperá que vem encrenca!

— Filó, ocê tem certeza que é ela? — perguntou a patroa. 

— Mais qui certo — respondeu a menina e completou — arguém mais, pressas bandas, anda torcida que nem taboa em tempo de enchente e com os braço tão balançantes? Ela sacode qui nem  um carro de boi com caruncho no cocão.

 Um dos meninos cochichou alguma  maledicência, cuspindo uma gosma preta no ouvido de outro, mas o apurado ouvido da gloriosa serviçal pode escutar, do miúdo ao graúdo, o que o moleque dizia: 

— Será a tar que mija em pé sem arriá a carcinha? 

Perguntara o maldoso Antônio Timódeo, mesmo antes de a menina informar tudo,  ele mesmo  respondeu sem esperar que ela o fizesse:  

— Não arria nem sunga porque não arriou; só pode sê ela. Acho que por debaixo da saia não tem pano argum. 

O sorriso encalistrado da bondosa Filó confirmou a maneira de vestir daquela mulher e, consequentemente, a identificou. A dona da casa, então, preparou-se para o pior e, na dúvida, foi dar uma boa espiada na janela da sala, de onde se podia avistar com largueza e longe, e arredar todo engano na conhecença de quem vinha; e tomou fé: era mesmo a tal, a maluca vezeira em frequentar sua casa e em lhe trazer todo tipo de aborrecimento.  Só de ajuizar a amolação, amuou-se e foi novamente para a cozinha.  Sabia que aquela entraria por lá, nunca viera pela frente da casa. “ Seja tudo pelo amor de Deus!”, pensou.

A amolação entrou pela porta em que era esperada, a da cozinha, e já vinha ensaiando as lamentações de sempre que, contudo, agora pareciam motivadas por justas razões: 

— Acode eu cumadi! Pelo amor do Eterno!

A dona da casa não deixou o que ainda era sereno virar chuva grossa e, antes que começasse a precipitação de lamúrias,  perguntou: 

— Me adesculpe a má prigunta, por que a senhora vem dano umas paradinhas e uns pulinhos, uns aqui outros acolá?  A senhora tá cumprino promessa pra São Longuinho ou tá só jogano  argum trem para trás?

 Maria doida respondeu rapidamente:

 — Nunca aliguei pra São Longuinho, não tenho nada pra perdê e qui dirá pra achá; tava é jogano pra tráis de minha cacunda umas fôia de couve que peguei na horta do cumpadi Zé do Quiabo. A senhora sabe, jogá fôia de couve pra tráis faz caí as berruga, num sabe?

A dona da casa não quis comprometer-se:

 — Sei dessas coisa não senhora. A senhora devia sabê que praticá essas crendice e simpatia é contra a lei da Santa Madre Igreja. Isso é pecado, não passa de babosice.
 Mas a doida, que não o era apenas no apelido ou pra fazer tipo, ao invés de responder, deu mais sustança ao falatório das crianças que tagarelavam ao seu lado do que àquelas admoestações da dona da casa e disse:

— Vamo falano comadi enquanto ês tão latino!

Isso dizia enquanto apontava um dedo ameaçador para as crianças que cochichavam e riam e, logo em seguida, já esquecida da repentina cólera, voltou ao assunto das folhas jogadas ao vento: 

—  antonse, comadi, se as fôia faz caí as berruga, deve de fazê tumbém caí estas feridinha,  que me alastra pelo corpo todo, nas perna, nos meio delas, nas parte, na barriga, no mama e nos braço, cara e pescoço.

Enquanto falava ia mostrando o corpo.  As crianças riam daquela nudez morena enfeitada com pintas vermelhas, ela os recriminava: 

— Deixe ês mostrá as canjica e nóis vai mostrano nosso má, não aliga não cumadi!

A dona de casa, Sá Miritita, criada e forjada no sopro dos foles da idade média, na fé e na moral cristã, aborrecida com a falta de compostura da Maria Doida, deu dois passos para trás; recatada, temia que as crianças pecassem pela visão da nudez, e havia também o risco de que pegassem a doença das pintinhas. Aquilo podia ser mais do que uma simples sarna ou alergia,  e era, como constatou o dono da casa, um sabido das coisas de medicina, que afirmou tão logo deitou os olhos na seminua doida: 

— A senhora, Dona Doida, está com varicela, e isso pega mais que visgo de gameleira-branca. 

E logo se cogitou que ela deveria permanecer em cômodo separado, bem longe dos da casa, no catre que foi colocado às  pressas no sobrado debaixo da salinha de jantar. Quando a levava para seus aposentos, Filó perguntou-lhe: 

— A senhora trouxe arguma coisa limpa pra vestí? 

E ela respondeu comovida: 

— Truxe não, num aliga não, boa minina Filó, pru meu uso me abasta uma camisola branca e um trabisseiro de paina, eu posso drumi até no chão duro.

Filó fofou as palhas do colchão, estendeu os lençóis, pôs fronha num surrado travesseiro de paina. E deixou do lado, sobre um banquinho de madeira, um baixeiro e duas mantas de arreio para o caso de alguma eventualidade.  E nesse improviso, nada faltava para a higiene pessoal que negasse à paciente o sagrado direito de lavar as mãos, a cara e os pés. Nesse fim de mundo, mais do que isso era luxo só para médicos e padres.

E assim, já acomodada, a impaciente paciente logo quis tomar as rédeas do próprio trato e ampliou as lamúrias, que se tornariam rotina. Enquanto ali arranchava, dia e noite, a doida gritava: 

— Cumadi dona da casa! Sá Miritita!  Acode que tou nas garra da tinhosa, morro e não vorto! Boa Filó, acode que morro à mingua! 

Por mais que lhe servissem boa comida, roupas limpas, cobertores, água potável e um penico esmaltado — esvaziado, areado e enxaguado todo santo dia — a doida continuava a pedir cada vez mais: 

— Ah cumadi! Tou sentido farta de um pedaço de frango, uma moela, um asa magra, um osso pra roer ou um pescoço pra chupá. Ah cumadi! Pode sê o sobre... Que vontade de comê um sobre! 

E, no delongar daquela estada, o galinheiro caminhava para o esvaziamento, pois a dona da casa temia o remorso e o falatório do arraial caso a doida morresse à míngua — certo é que poucos ajudam, mas todos metem a colher da pau quando a piedade alheia falha —; e assim: dá-lhe caldo de galinha, que não faz mal a  ninguém; sopa de inhame, que é bom pra pele; cuscuz de fubá, que revigora os tutanos; e angu bem cozido para dar liga em tudo que é líquido e tem que ser comido com as mãos, como a doida fazia. 
Depois de alguns dias nesse lesco-lesco e sobe-e-desce no terreiro da cozinha, que era o caminho para o quarto improvisado, Filó gemeu mais que perguntou: 

— Êta carvário sem fim. Nossa despensa há de aguentá essa mué se entrouxando desse jeito? 

E, quando tudo parecia muito ruim, ainda coube um tiquinho de piora: enquanto as pintas secavam na doida, elas iam aparecendo nos três menores da casa.

Filó achou que era hora de atitude e sugeriu:

— Sá Miritita, não é mió a gente fazê um mingau prus meninos? É modi apazigua as lumbriga e deixá saí tudo quanto é pinta, pra não eternizá essa saideira. 

Emanuel, o caçulinha, logo  opinou:

—Eu mais Lordino queremu mingau de zé gome, serve também o de maisena; Antônio Timóteo não qué nada,  perdeu a fome depois que botaru uma camisola branca nele. 

E como Filó não obteve resposta da dona da casa, nem mesmo um muxoxo de discordância, e foi acolhida por duas das crianças, fez o mingau de legumes, pois entendera que o zé gome não passava de legumes,  e empanturrou os meninos.
A comida, se não fez bem, matar não matou. As camisolas, essas sim, não desceram bem em nenhum deles; é que os mais velhos da casa começaram a caçoar dos pequenos e chamá-los de mulherzinhas. A bem da verdade, diziam: 

— home de camisola, que vergonha danada, home sem carça é  mué de sordado.

Lordino, o bom de briga, retrucou renitente e já armando pescoção: 

— Bobo é o que ocês é! Mué de sordado é aquele que chega derradeiro numa corrida de estrada ou de rua. Nóis tá de camisola é modi as pinta num agarrá nas camisa e carça. Mamãe qué nóis são depressa e sem pereba no corpo. 

E nesse contrassenso e desgarramento de tudo quanto é piedoso, os maiores abusavam do perrengue dos três pequenos:

— mué é mué, homi é homi e chulé é chule; quem tem pinta não tem pinto. Todas essas chacotas tiveram fim quando Antônio Timóteo, o quebra  ossos,  jogou praga nos marmanjos: 

— Deus tá veno ocês; com a fé de Deus, do Pai, do Filho e do Divino Isprito Santo, essas pintinhas vai secá ni nóis e  vai nascê nas bunda de ocês. 

Foi como se um balde de água esparramasse sua umidade fria sobre um fogo de palha, nem cinza restou. Se por medo da praga ou se porque o dono da casa podia castigá-los com umas boas palmadas pelas bundas brancas — quem há de saber! — os marmanjos enfiaram a viola no saco e foram cantar na freguesia do: — Ó mãe, óia o que os minino tão dizendo. A sinhora não disse pra gente não rogá praga. Manda papai passá umas boas combreadas nês, manda! 

E assim, acabadas as galinhas e no frigir dos ovos, a doida aprumou-se em poucos dias e já almoçava na cozinha junto aos de casa. 

— Não aliga não cumadi. Vamo puxá cumadi!  Enquanto ês tão latino nóis vamo cumeno. Não aliga não!

 E, nesse lenga-lenga de doida, a esbaforida maluca dos cabelos crespos pegava pelo braço a franzina dona da casa e a arrastava para a beirada fogão e enchia uma cuia com angu, feijão, arroz e carne de lata. Depois de servir-se sem os limites da boa educação, acocorava-se no canto mais escuro possível e refestelava-se comendo com as próprias mãos, usava os dedos em vez do garfo, e os dentes no lugar da faca.

Os meninos, agora já contaminados e ainda doentes, não tinham mais o que temer e, à moda da roça, empuleiravam-se no descanso do fogão enquanto apreciavam aquele palavreado bizarro e engraçado. Nem conversando estavam e a doida os denunciava com aquela repetição, agora sem ênfase: 

— enquanto ês tão latino, nóis vamo cumeno.

Sã que nem coco, depois de alguns dias daquela hospitalidade de luxo, mesmo assim, Maria doida, caso não fosse pressionada, não arredaria mais o pé daquele conforto. Mas a inteligente Filó deu seu jeitinho ao dizer-lhe:

— Pru que a sinhora não aproveita que melhorou e vai simbora daqui? Ou será que a sinhora num sabe que essa doença pode inté  matá, isso se pegá de novo em quem está saino da perenguice.

A doida logo pegou sua trouxa, engordada com as roupas presenteadas pela dona de casa, e ganhou chão. Mas, numa repetição que não conseguia controlar, propagava, agora, aos quatro ventos: 

— Ô povo ruim que qué me matá a mingua e ainda inventa doença que repega. Ô povo ruim, povo ruim, povo ruim! Povo ruim mesmo!...

E assim termina a história dessa pobre louca... Quem quiser que conte outra.


domingo, 16 de janeiro de 2011

Confidências de um retrato

Tudo começou quando ele me provocou:


— Psiu! Psiu!

Virei-me para ver quem me chamava tão aflito e logo o encontrei, era um dos retratos que eu havia pendurado na parede da casa da roça, no corredor que leva aos quartos de dormir e ao lavabo. Achado, ele prosseguiu:

— Sou apenas uma foto, nada mais! Avise o pessoal.

Aproximei-me um pouco mais, e ele repetiu quase gritando:

— Avise o pessoal! Avise!

Eu me dirigia ao lavabo antes de ser interpelado, entrei e lavei as mãos. Quando voltava, ele chamou-me novamente, usando as mesmas palavras, mas agora sem os psius e em tom menos agressivo. Não me preocupei com aquilo, tinha afazeres: aplicar vermífugo numa bezerra que nascera dois dias antes, filha de um nelore de sangue; bicheiras por aqui não têm vez, desde pequenos, os animais já são benzidos pelo Geraldo Ferro Véio e, na dúvida quanto às intervenções do além, tratados pelos métodos convencionais; quando preciso, conto com a EMATER, que está aí para ajudar e sabe o que faz. Nesse dia, fiz também a primeira adubação de cobertura do pomar, tarefa que gosto de realizar pessoalmente na estação de chuvas e em três etapas, a primeira em outubro. Mas ao anoitecer, quando as galinhas já haviam empoleirado, e o sapo martelo já estava a cravar seus pregos numa ripa imaginária, em um brejo real, e os vaga-lumes a pisca-piscar, eu voltei para casa e passei novamente pelo corredor e, dessa vez, não aguentei calado a uma nova chateação daquele abusado retrato:

— Psiu! Psiu! Sou apenas uma foto, nada mais! Nada mais!

Repetiu e realçou o final com ares de quem filosofava, fazendo-me lembrar de refrões emolduradas pelo prestígio universal: só sei que nada souconheça-te a ti mesmo; penso, logo existoser ou não ser, eis a questão!; tudo que é sólido se desmancha no ar; e nessa linha. Não sei se por causa do frio que neste ano acontece em época de calor ou se pela alta de tudo quanto compro e a baixa do pouco que produzo, perdi a calma e xinguei:

— Vá pro raio que o parta!

Concomitante com a praga que eu acabara de rogar, um raio desestabilizou o lugar: fez a noite virar dia; as galinhas de cima sujarem as de baixo; o martelo do sapo travar; e o vaga-lume desnortear-se de tanto clarão. O estrondo demorou a chegar aonde eu estava. Dizem, e eu aceito como verdadeiro, que a luz tem velocidade tão grande que nos parece instantânea, e o som de um raio se propaga mais lentamente, a menos de meio quilômetro por segundo. Mesmo sabendo que minha medição disso é imprecisa, pude estimar distâncias aproximadas e firmar a convicção de que, apesar de tanto clarão, esse raio caíra longe. Notei que o retrato continuava impassível, quebrei a calmaria pós-raio e fui a um suave ataque verbal:

— Você sabe que é muito mais que uma foto. Pelo menos para nós humanos, que somos animais simbólicos, nada é tão simples. A maioria de nós adora mistérios, milagres e dogmas; de ver significados atrás das aparências.  Estamos sempre “a procurar chifre em cabeça de cavalo” e, na maioria das vezes, nós o encontramos lá.

O retrato respondeu com jogo de palavras:

— Você quer que eu me retrate? Mal comecei a falar!

Eu retruquei à altura:

— Estou vendo que você é mesmo delicado. Não gosta de provocações nem de trocadilhos ingênuos e sabe respeitar a hora e o lugar.

O retrato respondeu à minha ironia com um alongado discurso, parecia querer exibir sua eloquência ou vingar-se da reprimenda:

— Não se esqueça, sou um retrato de parede, vivo em plano vertical. Não posso olhar para você, só posso ouvi-lo, e não teria como perceber ironia, nem riso fingido, se não fossem palavras vãs, colocando entrelinhas com críticas à minha conduta. Percebo que você está com raiva. Um homem zangado é mesmo sem graça! Mas você é sempre meio esquisito, passa aqui na minha frente, várias vezes por dia, e nada sabe de minha vida.  Trata-me como se eu fosse um velho que já se consumiu por alguém ou por uma causa e que não merece mais a gentileza de uma atenção. Eu, de minha parte, posso dizer que nunca me doei a ninguém, mas tenho coisas para contar. E vou direto ao ponto: quis a sina que eu visse e retratasse apenas uma vez na minha existência. Não sou uma exceção, todos da minha espécie são assim. Não tenho porque reclamar. Inicialmente eu carregava, como todo filme virgem, uma carga de diferentes tonalidades, no meu caso variações do cinza, e podia representar aquilo que se postasse na minha frente. Um filósofo diria que eu era um ser em potencial, um ser por vir. Obviamente sou limitado pelo estágio de desenvolvimento tecnológico de minha época, sou do início do século passado, mas há compensações, o tempo fez-me ganhar densidade histórica. Fui criado para produzir o que vocês hoje chamam de foto em preto e branco. Nasceria a partir de uma câmara escura e malcheirosa. Minha hora começaria quando um profissional que chamam de lambe-lambe acionasse um botão que abriria uma fresta e deixaria passar a luz. Em toda máquina do meu tempo, esse buraco pequeno, que se abre por apenas alguns segundos em cada produção, é a única greta que deixa passar, de maneira controlada, ondas de luz suficientes para que eu possa fixar, no meu corpo umedecido por misturas químicas, tudo que eu conseguir abarcar num ínfimo lapso de tempo. Acho que você, se já não sabia, entendeu, essa carga só pode ser liberada uma única vez. Passada essa oportunidade, singular e rápida, nada mais poderei ver. Mas, felizmente, continuo com o devir da audição, do entendimento e da sensibilidade. Cada filme tem uma história, comigo aconteceu o seguinte: ao sair daquela câmara escura, ainda protegido por uma capa preta que cobria a mim e ao ambulante, fui lambido no sentido literal, platônico e nojento da palavra, e, após secar-me, passei à categoria de espectro, um guardador de imagens do passado. A luz nunca mais me sensibilizará e me transformará, tornei-me imutável na aparência. E se a inércia fosse uma lei que pudesse ser aplicada à conservação das células, eu poderia ser eterno na aparência, pois na essência já o sou, nenhuma lei bole no meu interior.

Dois jovens cheios de vida.
O retrato calou-se. A luz da sala, interrompida por um lustre velho, projetava uma sombra diagonal, num dos lados do corredor e dissimulava os cantos enrugados do papel grosso, onde uma imagem vetusta mostrava o perfil de dois jovens cheios de vida, em contraste com a paisagem do chão que parecia ainda impregnada do cheiro de ruas antigas, de urina e bosta de cavalos, de calçada coberta de musgos. 

De repente fomos inundados por um silêncio profundo, nem a ameaça de chuvas e o peso de nuvens carregadas de eletricidade, resvalando umas sobre as outras e fazendo o céu pororocar com chumaços escuros, nada disso parecia importar agora. O falante retrato ficou triste e compenetrado, e a arrogância da manhã e de momentos atrás evaporara. Eu ajustei-me ao clima, tornei-me mais constrito e aberto a esse tipo de conversa e disse:

— Não sei se entendi bem o que você quer de mim, ou você é um bobo alegre e fica repetindo o que ouviu por aí, ou de fato é muito profundo para um retrato. Diga-me, você precisa desabafar, é isso?

Enquanto ele pensava no que iria responder, dispus-me, pela primeira vez na vida, a observá-lo com um pouco mais de atenção: estava numa moldura simples, muito nova para um retrato tão antigo, provavelmente fora comprada numa loja de descontos. No lugar do vidro havia apenas um plástico grosso, material simples, mas de boa transparência, a imagem podia ser vista com nitidez. Quantas vezes eu examinara aquela foto com interesse voltado para o conteúdo, não reparara na espessura de papel, nas tonalidades, nem nas cores. Sempre gostei do tema que ela traz impresso, induz-me a pensamentos patéticos: vejo nela poesia; onde outros, apenas imagem. Mas agora podia notar que ela queria saltar da parede, virar assunto, falar de si, enquanto objeto e história, e, de coisas que eu sequer imaginara que uma foto pudesse conhecer. Ela parecia ler os meus pensamentos, mas se ateve ao que eu havia perguntado:

— Não se trata de desabafar, você já percebeu isso. Quando vocês humanos trocam ideias, vocês estão desabafando? Acho que não, vocês chamam isso de diálogo, pois bem, é disso que sinto falta, troca de opiniões e experiências. Por trás desta minha condição de retrato, eu tenho casos e causos pra contar. A verdade é que não vi mais nada desde aquele 7 de setembro de 1926 quando o lambe-lambe me colocou naquela caixa preta, e, então, nós, ele e eu, ficamos a esperar por algum freguês. Eu começo nossa conversa a partir daquele dia: vi o lambe-lambe cochichando com a sua mulher. Essa mulher escondia sua verdadeira identidade. Ele lhe disse, momentos antes de ela abordar os dois que você pode ver aqui na minha face, “Amada, estes dois que estão se aproximando parecem do interior, devem ser peões ou empregados de fazenda rica e, pelo jeito como olham para a câmera, estão interessados em se verem num papel desses. Vá lá querida!, desempenhe o seu papel, desperte neles os narcisos que trazem na alma”. A mulher funcionava como agá do próprio marido e, pelos seus predicados femininos, tinha grande competência para atrair clientes. E logo ela achegou-se aos dois e desenvolveu uma espécie de gingado, como se os chamasse para dançar num baile de ‘Maria Cebola’. A mulher tinha beleza e curvas apropriadas para o negócio em que se metera, recursos que sabia usar muito bem no ofício. O seu sotaque e jeito baiano, em que canta quando fala e encanta quando rebola, eram novidade para os dois rapazes. Ela, com anos de experiência na malandragem de enganar os incautos, sabia ler os mínimos detalhes na expressão de futuros clientes, logo percebeu que o exagero no baianismo lhe traria vantagens. Determinada, avançou sobre eles, como uma gaivota faminta mergulha sobre os peixes da superfície do mar: colocou atributos positivos nos rapazes, a maioria que não tinham; exagerou em elogios aos retratos que o lambe-lambe pendurará nos varais, um era dela própria: “Viram como eu fiquei bem nesta aqui! Eu estava dançando. Olha como o rapaz trabalha bem!”, disse, sem revelar a sua condição de parceira do negócio e, como todo agá que se preze, ela falava como um cliente comum que se empolga com a beleza e qualidade do trabalho de um profissional: “Meu senhor” disse dirigindo-se ao ambulante, “o senhor poderia fotografar-me dançando; é sim, eu mesma, novamente, quero outras posições mais interessantes”. O ambulante, dentro do jogo de sedução que se armara, respondeu: “Minha Senhora, claro que o farei, mas vamos dar preferência para estes dois rapazes que parecem estar cansados da longa jornada. A Senhora, que mora aqui tão perto, não poderia esperar?”. Enquanto ela dizia “claro, claro!”, o menor dos rapazes encavalava as falas e respondia: “De fato Senhor, viemos de Piraguara em lombo de cavalo. O senhor conhece lá? Estamos cansados, mas nem tanto, eu mais ele estamos acostumados a cavalgar e tocar tropas por essas montanhas e beira de rios. Não são poucas as vezes em que viajamos dias seguidos, faça sol, chuva ou neblina de invernada. Peão não costuma reclamar de trote ou galope, a gente reclama de calmaria”, disse, lançando um olhar para a baiana e completou.” Pois é, não tenho razão? Estava a esperar alguma resposta da baiana quando o lambe-lambe interveio: “Se conheço Piraguara! Conheço como a palma da minha mão, já andei por lá muitas vezes, lugar bom e de gente acolhedora”, disse com intenção de agradar, não parecia sincero, e completou: “Vou dar preferência para os senhores, vamos tirar o retrato.” O rapaz, de menor estatura, interrogou-o preocupado: “Não é muito caro senhor? Somos de poucas posses”. O maior em estatura, que nem tão grande era, que até então se mantivera afastado da conversa, gracejou: “De poucas posses, é verdade pura e crua, além disso, este é muito pão-duro”. O menor entendeu que o gracejo não lhe era ofensivo, ao contrário, era um ardil para buscar a redução do preço, esperto, socializou a pobreza para reforçar o apelo: “Pão-duro eu, talvez, mas de poucas posses com certeza os dois.”

O retrato de parede que começava a se mostrar um sem papas na língua parou um pouco para tomar fôlego, eu aproveitei e perguntei:

— Afinal, olhando melhor, percebo que esses rapazes, que você tem estampado na sua face, vestem roupas esquisitas, isso era moda?

O retrato não gostou muito de minha intervenção e respondeu como um velho rabugento que acha tudo e todos impertinentes:

— Você não me deixa arrematar! É claro que dois peões não andariam por aí de terno e gravata, os tempos não mudaram tanto assim, ou você acha que andariam? Então, tenha mais calma que eu vou contar a história toda... esses dois chegaram à cidade com roupas boas e traziam outras limpas nas malas das cangalhas, mas roupas de peão, e sabiam que elas não eram as melhores para uma imagem que poderia durar séculos. Mas antes de falar sobre isso, eu quero falar sobre minha própria história e as de meus colegas aí do lado. Veja este à minha direita, coitado, é um retrato que eu chamo de pé no chão: pragmático, carrancudo, uma triste figura. Esse não percebeu ainda que o mundo tem três dimensões. Ele está no estágio de desenvolvimento que eu estava logo que saí da caixa preta, há 80 anos. Mas ele é novo, deve ter seus 55, tem tempo para aprender. Pois bem, quando eu tinha poucos meses, só era revelado no sentido literal da fotografia, mas não sabia nada do mundo. Pensava que tudo pudesse ser explicado apenas pelo comprimento e largura. Eu vivia num plano cujo formato era-me suficiente para retratar aqueles dois, mas insuficiente para ir além.

— Como assim?

Perguntei num ímpeto, logo me arrependi, pois ele mal acabara de pedir-me que fosse mais paciente, e eu temia que ele se aborrecesse de vez e abandonasse a história. Ele, que tinha aquela estranha facilidade de apreender, viu que eu me recompunha, e por isso continuou como se nada tivesse acontecido:

— Você já ouviu falar na caverna de Platão?

— Não me lembro. De que se trata?

— E sobre a alegoria da caverna, já ouviu alguém mencionar?

— Também não.

O retrato, então, atreveu-se a me dizer:

— Santa ignorância! Pelo jeito, não é só o meu colega aí da parede que está por fora.

— Você está se achando, então explique! 

Isso eu disse, sem esconder a irritação. E ele alongou o discurso:

— Vou explicar: na alegoria da caverna, que pode ser chamada também de caverna de Platão, aquele famoso filósofo grego usa um diálogo para nos sugerir que pessoas acostumadas a verem o mundo apenas pelo sentido da visão teriam dificuldades para compreender a realidade. Na alegoria da caverna, algumas pessoas nasceram e vivem aprisionadas numa caverna e não podem movimentar-se para sequer verem quem está do seu lado. Uma luz entra por uma abertura localizada nas costas deles e projeta suas sombras nas paredes da caverna. A realidade, para eles, é aquelas sombras. Essas pessoas, se saírem desta caverna, terão grandes dificuldades para viverem no mundo como humanos normais. Terão dificuldades de lidar diretamente com a luz, mas depois que a perceberem não mais quererão voltar para caverna. A caverna passa a ser uma grande privação de conhecimento, um mundo de ilusão. Entendeu?

— É claro!

Respondi secamente, um pouco envergonhado pelas minhas limitações. O Retrato prosseguiu:

Este retrato aí do lado está  para mim, assim como
você  está para o Einstein..


— Pois bem, minha situação era semelhante, vivia num mundo de enganos. Como retrato, tive uma compreensão repentina e passageira de que havia algo mais que uma caixa escura quando o diafragma da máquina se abriu. Mas aquela claridade que invadiu o interior daquele compartimento e fez marcas em mim também me cegou e tornou-me prisioneiro de duas dimensões, o mundo para mim só tinha dois vetores: a minha largura e o meu comprimento. Minha limitação era tão grande que eu só conseguia representar e pensar aquilo que ouvia e sentia num universo de poucos centímetros quadrados. Tudo em mim ganhava proporção reduzida, não tinha a menor noção de outras possibilidades, não tinha campo para exercitar. Mas ouvindo e prestando atenção no que pensavam e falavam aqueles que passaram perto de mim, durante 90 anos, fui, de migalha em migalha, reunindo informações e cheguei à conclusão da existência de algo maior, a profundidade. Isso que para vocês é intuitivo, pois faz parte de suas experiências, para os retratos, não é. Pressentir outra dimensão é um verdadeiro salto do entendimento, algo transcendental, para um pobre e finito retrato. Suponha que um dia você depare com a certeza de que o mundo comporta outras extensões além das que você experimenta no dia a dia, não seria um choque? Eu me orgulho do que sei. Este retrato aí do lado está para mim, assim como você está para o Einstein.

Eu o interrompi mais uma vez, não com o intuito de me agastar com a impertinência daquele pedaço de papel velho que criava paralelos para me diminuir, ademais, a comparação não era pejorativa, Einstein é referência grande para qualquer um, eu queria, apenas, chamá-lo ao tema:

— Olha aqui! Para quem reclamava de falta de diálogo, você está se saindo um grande e prolixo monologuista.

O retrato concordou:

— Estou mesmo, é que há conceitos difíceis de serem explicados, mas acho que você entendeu. Pois bem, agora vou contar a história da foto e depois dos fotografados.

Admirou-me a menção da foto como personagem e perguntei:

— Há duas histórias, então?

— Há, e estão interligadas, pois o meu destino esteve, por muitos anos, preso àquela mulher e a seu rebolado.

— Meu Deus! Retrato, você me deixa confuso e curioso. Então, vamos lá, vou escutar e prestar atenção.

O retrato foi paternal:

— Isso é bom, escutar não é para qualquer um, e escutar para valer é o mesmo que prestar atenção, parabéns!

Faltou só ele dizer ‘bom menino!’ para me rotular de criança, mas eu aceitei, com humildade, esse triste papel. Apesar do ato falho dele, não havia mais, em seu tom, aquela arrogância nem aquela pressa. Mas logo ela, a impaciência, a mãe de todas as submissões, fez-me capitular. Passei a palavra ao velho retrato que seguiu seu próprio roteiro:

— Enquanto o lambe-lambe me lambia, uma imagem ia surgindo em minha superfície, como se a língua daquele ambulante fosse um pincel mágico e, depois de alguns minutos, a figura destes dois rapazes estava estampada nesta minha superfície lisa e aí está até hoje. Não foi uma revelação instantânea, como as atuais, mas em alguns minutos eu já estava pronto e fui entregue a este que na imagem aparece do lado direito do observador, é o maior dos dois rapazes, poderíamos chamá-lo de Deoclécio. De posse de mim, Deoclécio não deixou que o Edgard, esse da esquerda, visse-me, como era esperado, por mais que ele insistisse. “Depois eu lhe entrego, depois!”, Dizia. E assim, nesse jogo de empurra, fui parar num bolso de paletó de couro, juntando-me a fumo de rolo, canivete e escova de dentes. Mas antes, falo do porquê de vestirem roupas tão esquisitas.

Foi aí que eu entrei novamente na conversa:

— Retrato, já estou cansado, você não poderia contar esta história sem tantos rodeios?

— Nãaaao!

Assim disse, na forma da mais dilatada convicção, e continuou:

— Não se esqueça, sou um retrato, tenho vocação para pormenores, gosto de sombras, nuanças e de seus entroncamentos. Como eu dizia, os rapazes estão com roupas que não combinam com as suas profissões. Naquele tempo, como hoje, peões vestiam roupas rústicas, camisas xadrezes, blusas de couro e calças de brim curinga. Acontece que o lambe-lambe, que não perdia paroquianos por falta de indumentária, mantinha um guarda-roupa de propósito para essas ocasiões e ao gosto do freguês, mas que era limitado quanto aos tamanhos dos manequins. Assim, o Edgard acabou na manta, pois nada se ajustava à sua altura, tinha um metro e sessenta. Depois de muito procurar e revirar aquele amontoado de fatiotas, o ambulante acabou impingindo ao menor um terno de adolescente. Ao Deoclécio, que tinha estatura, coube um terno de melhor aparência e tamanho mais ajustado. A exceção da cueca, meias e sapatos, tudo o mais que Edgard vestia, naquela hora, pertencia ao ambulante. As calças pega-frango só não deixavam as canelas de fora porque o rapaz usava uma meia de cano comprido. Pelo que sei e ouvi aqui e ali, o Edgard gostou tanto daquela boina que a manteve em seus intentos e comprou modelo idêntico logo que pode e a usou na velhice, até os últimos dias de sua vida, em 1990; aos 80 anos de idade, agarrava-se a ela como se fosse um emblema; quem sabe, trazia-lhe lembranças de uma juventude rica em alegrias e aventuras.

— Meu prezado interlocutor, como posso fugir a uma questão que cala fundo em minha alma e me empurra para um estado de sofreguidão. — Disse eu, de propósito, com essa linguagem pedante e arrematei: — E o caso do retrato e seus encantadores mistérios, como fica?

— Fica bem, fica muito bem!

Respondeu solene, como se inebriasse com o som da própria voz e com meu sofrimento, e continuou, ainda pomposo:

— Eu, um pobre retrato, percorri uma longa jornada até chegar a esta parede e ganhar uma posição vertical de destaque, porque a horizontalidade sem público é pior que uma morte desonrosa. A minha trajetória não faz uma história bonita, passei anos de solidão em lugares inóspitos. Quando saí daquele bolso, aquele rapaz, o Deoclécio, que gostava de uma pilhéria, escreveu alguma coisa em minhas costas, algo que se referia à baiana, aquela bonita amante do ambulante. Poucas palavras que falavam do requebrado com que ela os recebera e que exageravam o encantamento que por ela o Edgard tivera. Uma inocente bobagem, mas que ganhou conotação pejorativa, quando caiu em mãos de parentes do, segundo estes, ultrajado. Surrupiaram-me do bolso do Deoclécio, tomaram minha guarda e, dali, fui direto para uma gaveta escura e malcheirosa, condenado ao limbo por um pecado venial que outro cometerá. Ali vivi cercado de papéis inúteis e alfarrábios familiares. Frequentei caixas pobres e sem chaves. Não me deixaram aproximar dos sinais de riqueza daquela casa que residiam em armários nobres e com cadeados, onde eu sabia existirem muitos documentos de contas a receber e poucos de contas a pagar, neles se podiam encontrar escrituras de fazendas e de casas e lotes na cidade de Ouro Preto, e uma gema de valor incalculável, de cuja origem ouvi a dona da casa dizer: “foi uma prenda de Deus. Só pode ser isso! Um dia, sem mais nem menos, esta pedra rolou de uma encosta aqui dos fundos de casa e caiu aos pés do meu marido”. Como você vê, um dos parentes do fotografado, seu primo-avô, prosperava, e, pelo que escutei dos que por ali circularam, em tantos anos, a riqueza daquele outro baixinho vinha de muito trabalho e economia. Era seguro e metódico, um homem bom, bom mesmo! Você, meu caro roceiro, sabe o que é boca com gosto de guarda-chuva?

Estranhei aquela mudança repentina. Pelo jeito, o Retrato queria sair do trilho em que se pusera com seu caso, trocando-o por um caminho enviesado e que pouco me interessava. Que importância podia haver no gosto que aquele papel sentia? Contudo, guardei para mim essa opinião e disse:

— Não, não sei! Não sou como o seu criador que lambe tudo que vê — respondi gracejando para esconder a zanga. O retrato corrigiu-me com rispidez:

— Ele não é meu criador! Deu apenas uma ajuda no meu nascimento, assim como a parteira não é sua criadora, ou é?

Era tão óbvio que eu estava brincado, será que ele não tinha senso de humor. Surpreendeu-me reação tão defensiva, eu não pensara no retrato como criatura comparável ao ser humano. Ávido pela história, eu não tinha interesse em prolongar qualquer contenda verbal, muito menos por uma ninharia. Lembrei-me do que meu pai um dia me dissera ao ver-me metido numa disputa menor: “meu filho, não brigue por tuta-e-meia, brigue por princípios”. Eu não tinha motivos para refutar aquele papel estampado em preto e branco e achei melhor deixá-lo prosseguir:

— Todos aqueles anos, eu sentia esse indefinido, mas horrível, gosto de guarda-chuva na boca. Naquela gaveta, que compunha um criado-mudo de quarto de meninas, vivi por mais de trinta anos. Ali, aprendi, inicialmente, sobre tudo que meninas costumam conversar. Passado algum tempo, elas se tornaram adolescentes, e eu evoluí sensorialmente com elas e podia também sentir o que sentiam, aprendi o que adolescentes pensam e falam. No final da adolescência delas, o movimento do quarto aumentou muito, era um entra-e-sai de meninas da escola, primeiro do ginasial, depois do colegial e, finalmente, quando elas já saíam da adolescência, de gente mais letrada, rapazes sofisticados, janotas com cursos de engenharia de minas, advogados, e gente da alta-roda, alguns mal-intencionados; elas, bem-educadas, protegiam-se e impunham-se. Pois bem, embora eu literalmente retrate dois rapazes na imagem, faço parte de um processo inicial de aprendizado baseado em experiências femininas e, acho que por isso, tenho alma sensível. Minhas esperanças de sair daquela rotina renovavam-se sempre que, sem o rigor de uma agenda, a dona da casa fazia uma faxina geral no quarto, tarefa que nunca delegava a empregadas, e sempre que esbarrava comigo, dizia: “nós precisamos dar um jeito neste retrato, temos que encaminhá-lo para um dos filhos do Edgard”. E com o passar dos anos, vieram as trocas de móveis e de quartos, e fui levado pela correnteza do destino, como um boi que não escolhe pasto, nem porteiras, nem vacas.  Frequentei mãos curiosas e muitos cômodos e ambientes, viajei pela casa ao Deus dará. Como um vira-lata que aprende no cheirar as entradas e saídas das igrejas, e lá eram tantas, eu aprendia com o ouvido e com o sentir, e meu repertório crescia, pois não era um ser de experiência única, vivia sob uma multiplicidade casual. Tornei-me uma espécie de memória da família, embora, naquele tempo, não tenha entrado em contato de terceira dimensão, como ocorre agora. Isso é, de fato, surpreendente, pois apesar de toda esta conversa com você, esta é a minha primeira vez, nunca falei com ninguém antes, juro! Talvez eu esteja perto de atingir o auge de minha evolução, pois o diálogo aguça a lógica, desperta os mecanismos de defesa e da investida verbal que, se devidamente policiados contra os arroubos, se transformam em instrumentos a favor do conhecimento.

Após essa breve alusão a sua condição de viver, sentir e pensar, o retrato deu um tempo, e eu aproveitei para quebrar o fio do monólogo:

— Já que você está falando das vantagens do diálogo, permita-me um aparte. Sendo você tão sábio, pois a sabedoria se revela na capacidade de ouvir, ponderar e conversar pouco, como lhe acontece há mais de meio século, não haveria o risco de que você, ao falar agora, possa revelar coisas que não deve, soltar os podres das famílias, pois seja numa gaveta ou numa parede, um retrato ouve mais do que o necessário e pode falar mais do que o suficiente. Como você encara a responsabilidade e necessidade de ser discreto?

O retrato ponderou:

— Ir por partes, eis meu desafio! Em primeiro lugar, não me considero obrigado a um pacto sob a égide da ética humana, não sou compadecido. Mas tenho que reconhecer que, fora alguma estrutura mental (de foto) que eu possa ter a priori, todas as minhas experiências em vivência plana se acumularam a partir de mentes e falas humanas, tenho cabeça e emoções que absorvi de gente. Nisso, acho que tenho uma responsabilidade, principalmente por não ter sido autorizado, já que entrei nas vidas sem bater nas portas e sem pedir licença.

— Falando assim, você parece se considerar um ser quase onipotente, um ser à imagem de Deus?

O retrato irritou-se:

— Não diga absurdos nem blasfêmias! Sou muito limitado, pois se tenho esta vantagem de estar nos ambientes como espião, por outro lado, tenho uma limitação muito grande, não posso ver. Posso descrever uma mulher ou qualquer outra coisa, assim como um cego descreveria uma noite enluarada, ele sem a experiência da visão; eu, do tato, do olfato e do paladar. Eu posso muito bem descrever as mulheres em geral e uma em particular, mas jamais saberei, na prática, o que é uma pele aveludada, que maciez é essa que os poetas tanto cantam, como são as suas curvas, aquelas saliências que tanto empolgam os homens e que os levam a loucuras. Tudo que sei, mesmo que refinado pelo dom da inteligência e da habilidade discursiva, é destituído de objetividade. Você vem da linhagem simbólica; eu, da abstrata. Sou capaz de lidar com a abstração levada ao extremo e, por isso, fico à margem da realidade concreta, do amor e do prazer intenso. Neste aspecto, sou como um homem erudito que empolga suas plateias com discursos fabulosos, que fala do amor e da caridade, mas que nada faz a respeito disso e que, na prática, vive às turras com os vizinhos, despreza os que o amam e ama as coisas materiais e sem valor. Uma vida assim é desperdiçada em acumular vazios com aparência de fartura, distante da verdadeira sabedoria e da felicidade.

— Olha aqui retrato! Você agora me impressionou de fato. Com essa conversa de gente grande, chega a me comover. Peço-lhe mil desculpas, como sou uma pessoa comum, estou mais interessado em saber o que o Deoclécio escreveu nas suas costas. Afinal, o que foi?

— Posso afirmar, uma bobagem! As pessoas que pesaram aquelas frases eram muito rigorosas, usaram medidas sem o calibre conveniente: viam redemoinhos, onde havia uma brisa suave; tornados, onde um vento soprava um pouco mais forte; imaginaram reações improváveis porque tinham uma balança moral viciada pelo medo da fofoca e da maledicência de vizinhos intrometidos, coisas que eu pensava ocorressem só em pequenos arraiais de gente sem assunto e de vidas secas. Naquele texto, Deoclécio brincava, ou melhor, fazia uma caricatura do ocorrido entre o seu colega de viagens e a falsa baiana. Mas essas pessoas de Ouro Preto ponderaram que, sendo o rapaz comprometido, aquelas palavras, caso chegassem aos ouvidos da noiva, poderiam levar a rompimentos. Precavidas e bem-intencionadas, tamparam a escrita com uma folha de caderno em branco que foi colada em meu costado com excesso de grude caseiro, cuja consistência o fazia endurecer depois de imiscuir-se de tal forma que se arrancada levaria parte da escrita junto com as lascas do papel de que eu sou feito. Se eu fosse de carne e osso, como você, perderia peles e costelas, como não sou, perco aparas e fatias de celulose velha. Para ser direto, preferiram a proteção do segredo que a minha integridade física e o meu legado.

— E aí, só isso? Você não tem nada importante a me revelar?

O retrato tinha, e muito:

— O que posso lhe dizer a mais... Logo depois que esses dois foram fotografados, passou por ali uma cigana e, sem ser convidada, intrometeu-se, vaticinou a política e os maiores feitos nas suas vidas, e uma trajetória em que caberiam sucessos e desavenças. Ela falou de um futuro muito definido para uma cigana predizer, sem cerimônia e pompas, no meio de uma Praça de Ouro Preto. A meu ver, coisas sérias assim, que podem determinar o futuro de muitas gerações, só podiam ser ditas em palanques de luxo, à vista de jurados competentes e capazes de fazer calar o profeta, caso suas profecias fossem inconsequentes e degradantes. Lembro-me bem dela e de suas palavras: “O moço de pequena estatura vai ser um líder em sua terra natal, terá domínio político partidário, será amado e odiado, como todos que se metem na vida pública. A amizade entre esses dois nunca terá fim e estará presente na beira da vala de hades quando o maior for chamado para um encontro inadiável. Haverá o tempo de o senhor menor proteger a geração do maior, mas haverá também o tempo em que o líder dessa geração rebelar-se-á, por motivos fúteis, como são consideradas, em longo prazo, todas as pequenas razões que fazem velhos amigos seguirem caminhos opostos. Tempos de distensão, em que homens, antes tão cordatos, impelidos pelos próprios interesses ou pela pressão de seus companheiros, despejam, sem freios, os argumentos que negam os valores e realçam as debilidades do adversário. Homens públicos, discretos na compaixão e na consideração, indiscretos na crueldade e na ingratidão”. Dito isso, a cigana calou-se por algum tempo. Recobrava forças para novas predições ou abandonaria o tema para seguir em frente, subir aquelas ladeiras históricas e buscar novas vítimas. O inesperado, então, aconteceu: numa posição em que ela fazia lembrar um soldado romano empunhando uma baioneta, pronta para fazer rolar cabeças: ela avançou em direção ao de menor estatura e com o dedo indicador em riste enquanto caminhava tesa dizia: “Tu!... Caberás a ti, e a ninguém mais, dar um rumo para tua terra! Caberás a ti cuidar de teu povo, não os decepciones. Se não o fizeres terás do poder o mínimo!”, e, concomitantemente, apontou o indicador em direção ao Edgard para não deixar dúvidas com quem e de quem falava. O apontado pelo dedo xereta, irreverente, brincou com a flexão verbal pouco usada na região e, sem ao menos olhar para aquela pobre mulher, disse no mesmo tom em que ela falara: “Tu! Caberás a ti arredar para lá! Pois muito bem sabes que ‘praga de urubu não mata-cavalo gordo’. Deoclécio levou a mulher mais a sério, queria esclarecimentos, temia pelo futuro e perguntou: ‘Cigana, se assim for, seremos amigos até o dia em que ele morrer?” Ela resmungou o que parecia um enigma: ‘Se um morre amigo de quem fica vivo, o outro guardará eternamente este sentimento, pois as desavenças entre descendentes não retroagem e nem pesam sobre o túmulo”. Com essa resposta, deixou no ar aquilo que mais o senhor Deoclécio queria saber: se ele seria o primeiro a morrer. E a errante mulher, ao concluir com esse triste presságio que falava da morte dos amigos e das desavenças entre seus descendentes, tomou seu rumo. Caminhou devagar sobre as pedras rústicas e escorregadias que cobriam aquelas ladeiras íngremes. Vestia saias longas e coloridas e carregava, a tiracolo, um penico de seu uso, velhos tachos de cobre e outras bugigangas. Ofegava quando parou ao lado do requintado Chafariz dos Contos.
— Retrato, se você não enxerga, como podia saber as cores da saia dela? — Perguntei, mais por curiosidade de que para ofender ou duvidar, aliás, a esta altura do campeonato, já não havia rusgas entre nós.

Ele foi detalhista e convincente nos esclarecimentos:

— Como você já deve ter entendido bem, Deus me deu o talento da percepção para compensar a falta da visão. Contudo, considero sua pergunta conveniente, pois, se vamos nos tornar amigos, temos que manter um relacionamento que nos faça desenvolver uma confiança mútua e alicerçada na verdade. No caso do vestido, eu só fiquei sabendo dos detalhes porque aqueles rapazes revelaram-nos através de seus pensamentos, o maior ao pensar “essa deve ser cigana de fato, pois usa esses vestidos longos, como todas elas”, o menor ao se interessar pelas cores berrantes daquela mesma saia. Quanto ao chafariz, foi a própria cigana que me mostrou, quando nele chegou arquejante. Esclarecido, ou quer mais detalhes?

Eu não tinha como ter dúvidas e concordei:

— Não precisa falar mais nada, já percebi, é desse mesmo jeito, alguém servindo de rádio transmissor, que você ficou sabendo que o chafariz era requintado.

— Pois é.

O retrato afirmou e continuou como se falasse para si mesmo

— Eu mesmo, no princípio, tinha minhas dúvidas quanto a essa capacidade de perceber o que acontecia ao meu redor, mas com o tempo, com o acumular de acertos comprovados pelos cotejos sucessivos entre o previsto e o ocorrido, minhas dúvidas dissiparam-se. Hoje tenho certeza, eu seria mais completo e feliz se tivesse a visão, mas o universo ou Deus, como queira, não me negou o alcance da sabedoria humana. Esses fatos ocorridos no início de minha vida só tomaram forma completa anos depois. Naquela oportunidade, apenas ficaram registrados numa consciência destituída de estruturas linguística, mas depois, com meu aprendizado, pude interpretar tudo que ali aconteceu.



Eu já estava cansado e disse-lhe:

— Prezado amigo, Retrato, amanhã a gente se fala, vou dormir agora. Fui!

E ele:

— Fiquei!