terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu, Camponês

por Caieira
Eu, Camponês.


Meu primeiro momento ocorreu quando eu ainda não tinha consciência de mim mesmo e abri os olhos. Vi, sem emoção, que eu era um corpo cercado de espaço e contido por outros corpos que se engalfinhavam na disputa pelo mesmo alimento. Embora o mundo fosse um grande peito leiteiro, e houvesse tetas para todos, nós deslembrados de que éramos farinha do mesmo saco, às vezes queríamos a teta em que outro já se abotoara.


Meu segundo momento ocorreu quando minha mãe negou-me a teta e me agarrou pelo pescoço, como se eu fosse um saco de estopas, e levou-me para um lugar seguro. Choraminguei porque o peso de meu corpo fez minha pele esticar, e minhas pernas balançarem no espaço escuro, até que fui suavemente depositado num ninho macio e seguro contra as intempéries e as ameaças que rondam os recém-nascidos. Notei, então, que o mundo era perigoso para os de minha raça e que eu tinha uma mãe para proteger-me, sem ela não sobreviveria.



Meu terceiro momento foi de decepção, percebi que minha mãe era submissa, puxava o saco do dono da casa e da família toda, até do menino que ainda engatinhava e mal dizia "mamã". Foi aí que meus olhos se abriram pela segunda vez, vi que havia um mundo em que uns têm prevalência sobre os outros, um mundo em que nascemos diferentes e com papéis bem definidos. Minha mãe, a troco do alimento e carinho do patrão, tinha que mostrar serviço: agradar a todos e ainda assim só pegar migalhas.



Meu quarto momento foi quando comi de um angu que o patrão havia guardado na despensa. Não sei de que era feito esse angu, nem porque não podia ser comido, mas minha mãe avisara-me: " Filho querido, do angu da despensa não se pode comer. Você pode comer qualquer coisa, tudo que achar no mato, nas árvores, todo tipo de carne, mas não pode, nem que a vaca tussa, comer o angu da despensa, pois aquele é o teste da subserviência". Naquele tempo eu não conhecia o ditado "neste angu tem caroço", se conhecesse não me atreveria à primeira mordida, que é a mãe de todas as mordidas, mas o certo é que mordi aquela água fervida com um fubá grosso e que cheirava a gorgulho, o fato estava consumado. Mal acabara de engolir aquelas pelotas mal assadas, apareceu o patrão, não sei de onde, já com uma vassoura na mão, a gritar: "Cão do diabo!, daqui para frente, eu não o quero mais em minha casa e rogo-lhe uma praga: você terá que procurar sua comida nos matos, viver às custas de sua própria caça"



O patrão nem precisava ter dito tanto, um clarão vindo de não sei onde, veio ao meu encontro e, de repente, tive consciência de minha nudez e destino: eu era um cachorro fadado a andar por aí cheirando o chão poeirento das encruzilhadas; o fiofó dos colegas; os postes para ver se há marcas de xixi de outros cães para em seguida eu mesmo fazer a minha marca. E, triste sina, minhas noitadas de amor não seriam simples como a dos outros animais, um nó necessário me amarraria, por algum tempo, à amada amante, seria bom, mas doloroso, fazer o quê! Minha liberdade pós farra seria limitada e com risco de sermos, eu e ela, apedrejados pelos garotos endiabrados do arraial. Traçado estava meu destino de andar por esses brejos, caçar preá, frango-d 'água, e, se tivesse sorte, conseguiria caça maior, raras na região, mas quem sabe um dia eu podia esbarrar com uma nessas grotas ou nesses vales, talvez um veado, um tamanduá-bandeira, um porco-do-mato e, num dia de loteria, com uma capivara bem gorda. Só não queria topar com o lobo guará, porco-espinho e ouriço-cacheiro que por aqui são comuns; o primeiro, que gosta de inverter o papel de caça para caçador; os dois outros, que são indigestos já na boca.



Tornei-me andarilho por uns tempos, mas minha vida de amaldiçoado começou a melhorar no dia em que esbarrei com um senhor de uns quarenta anos que montava um cavalo preto, ele gritou para meu lado: "Camponês, vem cá! Vem cá camponês!". A minha primeira reação foi: "Camponês! Quem?" A segunda, como não havia outras almas por ali, foi: "Camponês, eu? Bom, tudo bem". Naquele dia ganhei um nome e um salvador que iria ajudar-me a carregar minha cruz. Levou-me para sua casa e fê-la minha. Deu-me angu misturado com carne de boa qualidade, comi à vontade. Pulei pelo terreiro; deitei-me de costas para que me fizesse cafuné na barriga; babei nos panos de chão e pela casa. Esbaldei-me. Nunca entendi bem o nome dele nem de ninguém da família. Estranho, eu podia pensar, entender o meu nome, as conversas que se referiam a assuntos daquela casa, mas o nome das pessoas, nunca entendi bem, devia ser parte de meu castigo. Contentei-me com um ditado que grassa nos meios caninos: os homens reconhecem os outros pelo nome; os cães, pelo cheiro. Sei que aquele homem viajava muito, sempre num cavalo preto, vestindo uma capa de gabardine que quase se arrastava no chão. Em sua casa, criança era mato. Era uma sede de fazenda grande, sem luxo, mas de muitos quartos despensa com latas de gordura, cozinha espaçosa,  fogão grande com descanso de mais de metro.



Foi preciso um salvador para me redimir e, agora, eu tinha uma vida normal de cachorro.



Daquela casa guardo segredos, pois sou um cão de guarda no sentido lato e medo tenho de poucas coisas: de inconfidência, porque traição; de chuva, porque trovão; de festa, porque foguete; e de cachorras assanhadas porque carregam matilhas.



A minha estória podia acabar aqui, e já era muito para um cão tão infeliz na partida e tão feliz no meio, mas nem lhe conto o final, ou conto?



Conto:



O chefe daquela família meteu-se em política, disso sei porque não sou burro, apesar de ter a orelha grande, mas meu focinho é comprido e tenho um faro de primeiríssima, cheiro os acontecimentos. Tanto ele fez que foi eleito prefeito, em 1953, tomou posse no ano seguinte. Eu poderia esquecer aquelas datas, pois cachorro não se comove com eleições, mandatos e poderes humanos. Mas não as esqueço, porque houve muita festa, a cidade ficou nublada com tantos foguetes e de todos os tipos: o de rabo, que é o maior inferno para um cão, pois já na subida cria uma expectativa de estrondo que nos angustia por longos segundos até que haja o estampido, o ecoante ruído fenomenal, o terrível tãummmm..., durma-se com um barulho desses!; o tiro canhão, Deus me livre! Faz abalar os alicerces das melhores casas e quase perfura nossos tímpanos delicados por natureza e capazes de ouvir sons que os humanos não ouvem: um grilo distante, uma pulga sob o pelo do gato que nos tira o apetite, um mosquito voando baixo; somos diabólicas para ouvir sussurros. Como o centro da festa foi numa pensão de uma senhora que tinha uma casa na esquina da rua Nova, eu não tinha outro recurso, corria para o quarto alugado pelo patrão e escondia debaixo da cama. O tumulto foi tanto que escapei para um beco ali perto e acabei entrando numa briga de cachorro grande e, o pior, um dentre eles estava zangado, mordeu-me de leve, arranhou-me, foi o suficiente. Eu, camponês - dá pra acreditar? - não era vacinado e peguei a maldita raiva. O destino do ex-vira-lata estava traçado. O patrão, meu salvador, olhou-me com compaixão, mas dessa não me podia livrar. Poucos dias depois, o meu queixo endureceu e a saliva escorreu cascateando em cima de minha dor. Tinha sede, mas, só de pensar em água, sentia uma dor terrível em minhas mandíbulas. Sem beber água, com o corpo ardendo em febre, e doido por morder alguém e molhá-lo com minha perigosa babugem, era natural que eu fosse isolado, foi o que fizeram. Morri em prisão domiciliar, sou uma assombração de cachorro que acaba de lhe contar a sua estória, triste no início, boa no meio e ruim no fim, como são todas as vidas dos cachorros que conheci.

Nenhum comentário:

Postar um comentário