domingo, 17 de dezembro de 2023

Um tal de Seu Salim

 

                             Por Lulu Alfenas

Edgard e Salim em Ouro
Preto, em 1928
A viagem e os laços de família são reais. Salim e os diálogos são frutos da imaginação fantasiosa.


                                        Falar besteiras e brigar. Amor de amigos amor de primo, diferenças inconclusas. É isso que eu chamo amor. Mirela Cristina Sanchez

Subiram e desceram montanhas ladeirentas de cujas encostas podiam avistar longas fraldas, onde se viam algumas casas habitadas por lavradores ou por já apoucados garimpeiros que insistiam em batear águas lavadas de ouro e esperanças.    Traziam cavalo reserva e uma mula com cangalha. O grosso da tropa ficara em Bacalhau aos cuidados do Senhor Silva. Desta vez a carga era simbólica, pois não podiam ir à ex-capital sem alguma muamba, se assim ocorresse, Salim, um simpático libanês, na certa resmungaria: “Ora seu Digas, mascom efeito, não trazeres a toucinho do bom, um cachaça da cabeça, nem uma pedaço da fumo do São Bento, não me falhes com outra!”. O senhor Salim tinha as suas dificuldades de expressão, embora já estivesse no Brasil antes do início do século. Salim adorava repetir a sua história, que em Ouro Preto já era quase de domínio público: o pai dele, com a mulher ainda jovem e crianças pequenas, vendeu o que tinha no Líbano, reuniu suas economias e deu na telha de ir com toda a família para a França, isso no início de 1889. Não tinha a intenção de voltar, mas não sabia bem qual seria o destino final desta aventura. Viajando em navios costeiros do mediterrâneo e em toscas carroças, chegaram a Paris saindo de Beirute. Queriam participar de uma feira que comemoraria o centenário da revolução francesa. E assim, um pouco sem querer, imiscuíram-se na moderna visão do mundo. Ali tudo era grande com sabor do impensável. Ficaram boquiabertos com a altura e a largura do portal de entrada da feira com sua estrutura de aço e nome de castelo: Torre Eiffel. Passearam em meio às inovações que a exposição mostrava e viverem dias felizes rodeados de gente importante e endinheirada. O espírito nutria-se de grandes emoções; o corpo, das melhores comidas do mundo. A feira fazia jus às pompas do nome, Exposição Universal de Paris que apontava o desenvolvimento tecnológico e cientifico que avançava sobre a maneira de usar as ferramentas e produzir com qualidade. Mais do que motivo de deslumbre, tanta novidade abriu uma janela para os sonhos do patriarca da família Nassif Salim que se encantou com a sinalização de que o novo milênio chegaria para revolucionar os meios de produção e os negócios. O patriarca dessa família, como tantos outros do Líbano daqueles tempos, sempre media o futuro com otimismo, enxergava o mundo como um lugar mais de oportunidades do que de ameaças, e tomava decisões corajosas, algumas vezes impulsivas.  Assim como se troca de camisa, o chefe da família, depois de apalpar bem as algibeiras, decidiu ir até onde seus trocados permitissem, e, pronto, pegou um navio a vapor, em Nantes e, um mês depois, estava com a família em Nova Iorque, onde o casal pensava em ficar o resto da vida para criar os filhos com boa educação e empregos bem remunerados.  Nisso não teve sucesso, ao contrário, uma decepção quase imediata. Apenas dois meses foram suficientes para que sentisse que seus sonhos enfrentariam poderosas forças contrárias. Tudo começou quando o chefe do clã se meteu em briga de cachorro grande: uma gangue de imigrantes Italianos que justificava seus crimes no interesse de suas famílias, a temida máfia siciliana, tentou coagir Seu Salim para que aderisse aos seus métodos criminosos. Assim, recusando-se a negar seus princípios morais e religiosos, a família fugiu dali e veio para o Brasil.

Ao contar essa história para Edgard, Salim a concluíra com uma apologia a si próprio e a sua família.

 

— Nós tem berço. É, Seu Diga, nós não aceita cangalha, nós não ser suas mulas de carga. Nós honesto e agarrado na Cristo desde pequeno. Nós do bem. Eu até comete muitas burrice, mas nós de boa coração. 

 

Naquela oportunidade, Edgard ouvira esse homem e suas histórias interessantes, e dele teve uma impressão positiva. Não se importava que o libanês cuspisse nas concordâncias, trocasse os gêneros, pluralizasse os acertos e singularizasse os erros, e achava até que isso era marca do caráter de quem assume as próprias falhas e releva as do próximo, uma forma de amor de gente de bom coração, pensava. Nunca opinara ou corrigira seu modo de falar e muito menos sua maneira de encarar a vida, tinha receio de que uma palavra mal interpretada, pelo pouco conhecimento que o amigo tinha da língua portuguesa, pudesse derrubar aquela amizade que se iniciava.

 

Mas agora, ali naquelas montanhas belas e verdes, antes de chegar a Ouro Preto, Edgard, ao se lembrar das conversas com Seu Salim, avisara a Deoclécio:

 

— Primo, com seu Salim é melhor falar pouco e não deixar entrelinhas. Faça cara de mula de cangalha, simpatia ou antipatia em demasia podem comprometer. A feição neutra afasta o risco de uma ofensa por engano de interpretação.  Nada pior do que desagradar querendo agradar. Esses estrangeiros são diferentes e sistemáticos. Deoclécio ria desses conselhos desnecessários, porque sabia como se comportar e não precisava ser orientado em nível tão primário e óbvio. Contudo, o coração sempre mais sutil do que a razão, costumava refletir sobre esses intrometimentos e, algumas vezes, interrogava-se sobre a intenção do companheiro: estaria aquele proferindo um simples chiste, ou uma ofensa mais séria? Nessas ocasiões, lembrava-se do que o amigo há tempos lhe dissera: “se amizade não serve para botar panos quentes sobre os defeitos do amigo e dos entreveros, servirá para quê”? E isso era o bálsamo que acalmava suas tripas e esfriava seus miolos.

 

Tantos pensamentos, conversas e brincadeiras atenuavam o trotar dos animais e tornavam a jornada menos tediosa. Nessas viagens, cada marcha começava sempre cedo e nesta, depois de dois dias de estradas e poeiras, a partir de Bacalhau, e de dormirem enrolados em capas de gabardine, com as cabeças sobre as celas, como se travesseiros fossem, finalmente se aproximaram do destino. Era ainda manhã quando Edgard avistou a casa de fazenda do Bandeira, onde o irmão Duca morava desde o seu casamento, em 1924[i]. A intenção era parar, conversar um pouco e almoçar, mas aconteceu de o irmão estar fora, no ofício de bombeiro hidráulico, a soldar e emparedar canos de chumbo, sua especialidade. Na ausência do irmão e na presença de Deoclécio que poderia causar constrangimentos devido a sua natureza extrovertida, Edgard mudou de ideia: sem ao menos apear, explicou para a dona da casa:

 

— Desculpe-nos cunhada, estamos com pressa, eu só passei para uma meia-palavra com o Duca. Não vou deixar nem recado, porque é coisa sem importância, nem íamos mesmo beber água.

 

— Por que tanta pressa sem motivo? — Cecília arguiu o cunhado.

 

— Estamos atrasados para uma entrega. E sendo hoje quinta-feira, sei que o senhor Salim gosta de rezar o terço mais cedo, e se a gente chegar muito tarde complica a vida dele — esquivou-se Edgard.

 

 Cecília pensou: “desculpa esfarrapada, onde já se viu aquele turco rezar terço com dia marcado”. Porém já resignada com a negativa, insistiu por educação:

 

— O José vai ficar chateado em saber que você passou por aqui sem almoçar. Nem ao menos um café simples, um biscoito de polvilho feito na hora[ii], uma água da bilha? Sair assim é uma judiação conosco!

 

Edgard ouviu o que esperava daquela dama tão educada, agradeceu à cunhada a gentileza da insistência e seguiu viagem. Mas foi obrigado a escutar as lamúrias espirituosas de Deoclécio:

 

—Ah! companheiro, a gente podia ter apeado e tomado um café fresco, que mal faz isso! Dá pena perder aqueles biscoitos de polvilho, aquela broa de fubá com queijo. Abrir mão disso é mesmo uma judiação com a sua cunhada!

 

Edgard discordou:

 

 — Sossega essa pança. Você não sabe nada da casa de meu irmão! Como saberia sobre biscoitos e a cozinha de lá? Tá pensando que lá é a casa de Inhaiana? Fica pra volta, hoje eu sou o chefe, na volta você manda, se quiser passar, a gente passa

 

Silenciaram-se enquanto os animais sofriam no enfrentamento daquelas escarpas.

 

Desde Piraguara até Ouro Preto, percebe-se claramente que se está subindo, a ex-capital é quase no topo de uma cadeia de montanhas, embora quem chegue ao centro urbano, vindo de qualquer outra cidade, tenha a ideia de que está a precipitar buraco abaixo e que a ex-capital foi enterrada num vale. Essa ilusão deve-se a que a Praça Tiradentes, cujo ícone ali é representado pela estátua do grande vulto da história brasileira, parece estar numa posição baixa, pois se chega à cidade pelos cumes, deles descendo pela montanha para alcançar o centro. Esta impressão fica mais nítida quando se vai à casa do senhor Salim, que ficava numa rua ao pé do morro.

 

Quando desciam, vindos do lado de Mariana, Edgard disse a Deoclécio:

 

— Primo, preste atenção na vista! Se você conseguir sentir a beleza deste lugar, vai deixar de ser peão para sempre e vai se casar com uma moça bonita, prendada e muita educada.

 

— Uai, Edgard! Eu não sabia que você era supersticioso. Pra que tanto entusiasmo, quem disse que sou peão! Só porque peguei em cabresto e toquei umas mulinhas nesta viagem,  não me jogue no meio da tropa e me faça de peão! Tenho sonhos maiores, primo! Nem todo mundo que passa na frente de um boi é ‘candieiro’ e quem encosta-se a uma mula é tropeiro.

 

Deoclécio retrucou o rótulo, mas aceitou o destino

 

 — Mas tenho que concordar que vou me casar com uma moça bela e educada, e já a tenho em mira.   E tem mais, sei muito bem  apreciar essas vidraças e janelas em estilo colonial, são mesmo de encher os olhos. Gosto também dessas portas em tamanho gigante, um exagero para vocês Alfenas, de um metro e meio de altura, no máximo.

 

Edgard deu aquela risada, reservada para as melhores piadas, em que engolia o fôlego de tanta graça que achava, e disse:

 

— como se você fosse tão grande, olha a tanajura zombando da formiga!

 

— Se fosse do zangão, tudo bem, porque é macho, embora não seja lá também muito agradável trocar a vida só pela aventura de uma tarde de romance nas alturas— retrucou Deoclécio, também com uma risada que colidia com as primeiras casas da cidade e ecoava morro acima.

 

E assim, os dois cavaleiros, de gracejos em gracejos, no incômodo balanço de grandes subidas e nos efêmeros alívios de pequenas descidas, vão ao encontro do agradável movimento de cidade grande.  A ansiedade, tão comum nas chegadas em que os cavalos são os primeiros a sentir, para os cavaleiros era esmaecida pela contemplação da arquitetura exuberante da cidade. Lá em baixo, num ponto encoberto pelos casarões, está o comércio do libanês, que aqui é chamado de turco.

 

Finalmente os animais, cansados de tanto sobe-e-desce, alcançaram o fim da rua; e os cavaleiros, com o corpo doído e as pernas dormentes, despencaram-se de seus animais.  Mal puseram os pés no passeio, e lá veio o seu Salim projetando uma enorme barriga, que o antecedia e como se tivesse acabado de engolir uma grande abobora, que lhe deixara um enorme calombo.  Esbaforido, jogando palavras ao vento, como um personagem de teatro renascentista, vinha pelas portas dos fundos do armazém:

 

— Seu Diga! Deus mandar o senhor aqui. Salim está muito preocupada com a saúde da Eurides, Salim quer uma conselha.

 

Virou-se para seu menino de pasto, disse:

 

— Eliodoro, dê uma conforto para os pobres animais, estão suspirando fundo. Tire os arreios, jogue uma água fresca no lombo deles, leve para o cocho da fundo, ponha bastante milho, fubá e ração e depois solte na pasto do Laranjeira, lá o capim muita meloso. Trata bem esses animais.

 

Edgard procurou tomar pé da situação:

 

— Mas o que aconteceu com a Dona Eurides? Alguma coisa grave?

 

Salim realmente parecia preocupado:

 

— Grave demais, apareceu com uns frieira nos dedos do pé que não saram. O doutor já fez vários curativos, e o ferida fica cada vez pior.

 

— Quem é o médico dela?

 

— É o doutor Eusculápio. Ele mesmo tem feito as curativo.

 

Edgard, a convite do Senhor Salim, entrou na casa e foi direto ao quarto da senhora Eurides, o companheiro de jornada ficou ali meio esquecido, como um cachorro que não sabe debaixo de que cadeira pode deitar. Já lá dentro, Edgard pediu licença ao dono da casa e conversou reservadamente com a doente. Ao sair, calmamente, dirigiu-se ao senhor Salim:

 

— Caro amigo, acho que já sei o que a sua senhora tem. Pelo que ela me relatou, e peço que o senhor confirme: ela sente muita fome, muita sede, desânimo e está urinando muitas vezes ao dia?

 

O marido confirmou:

 

— É isso mesmo, por mais que coma, não engorda e por mais que beba, não mata o sede.

 

Edgard aconselhou:

 

— Fale com o médico dela, pode ser diabetes. Diz pra ele que se ele provar a urina dela e se for doce é diabetes na certa.

 

Salim desconsertou-se:

 

— O amigo está a brincar comigo numa situação dessas? Quem há de provar o urina de uma mulher, ainda mais, doente!

 

— Pelo amor de Deus, seu Salim, é a mais pura verdade! A única maneira de descobrir se é diabetes é provando da urina dela, se for doce é diabetes, quanto mais doce mais grave. Os médicos mais conceituados do mundo estão aplicando esta técnica hoje, mas aqui no Brasil a gente pode usar também a formiga doceira. Será que tem desta formiga por aí?  Se tiver, é só jogar a urina perto delas, se banquetearem ao seu redor, então o senhor não terá mais dúvidas.

 

— Então, pois, Salim não precisa da médico, se é assim, Salim procura uma formigueira destas, se não encontrar, Salim prova urina.

 

 Disse e entrou no quarto e, um minuto depois, voltava com um urinol cheio de urina ainda quente.

 

— Salim tomar decisão, não ficar procurando formiga, Salim prova e vê se o senhor entende mesmo desta mal.

 

Dito e feito, pegou uma colher de sopa, mergulhou no líquido avermelhado e levou à língua, deu um estalido com a língua e gritou espantado:

 

— Pela coroa da Senhora Bom Jesus de Bacalhau!  Salim sentir gosto de açúcar. É como se Salim provasse mel do abêia.

 

— Pois bem seu Salim — disse Edgard e logo foi dando a receita: — ela deve evitar comer muito, deve evitar açúcar a todo custo, e precisa dormir bem. Os remédios, o senhor pega com o médico, que entende disso. Mas lhe digo uma coisa, não adianta ela passar pelo sofrimento desses curativos, pois o problema dela não está nos dedos do pé, isso é sintoma, o grave está no sangue, é uma doença chamada diabetes. Ainda não tem cura, mas há remédios novos na Europa, o senhor tem recursos e pode encomendá-los. Por ora, é preciso que ela faça uma dieta balanceada. Faça com que coma muitas vezes ao dia, mas pouco de cada vez.

 

Salim estava estupefato. A prova da urina era indício de que Edgard falava sério. Urina normal é salgada, como todo mundo aprende logo na primeira infância quando a criança testa tudo que a rodeia com a própria boca. Como podia um rapaz tão jovem, vindo desses confins da mata mineira, sem estudo quase nenhum, um primário mal acabado, saber dessas coisas? Arriscou uma pergunta:

 

— Seu diga, de onde o senhor tirar tanto sabedoria? Como conhecer um doença que o doutor daqui, que é formado numa boa escola da Europa, não sabe descobrir os causas?

 

Edgard respondeu sem vaidade:

 

— Minha mãe trata os amigos e parentes com chás de horta, pois tem alguns conhecimentos de homeopatia. Mas ela é interessada nas doenças em geral e assina dois jornais, um de Belo Horizonte e outro do Rio, assim a gente acompanha as novidades na política e na medicina. Eu leio, presto atenção, converso com minha mãe sobre o que entendi e vou me preparando para poder pelo menos cuidar melhor de minha família, pois me caso sem demora.

 

Deoclécio ouvia tudo sem opinar, mas cada vez valorizava mais a amizade de Edgard e o respeito que ele lhe dedicava. Uma amizade sincera e mútua, cheia de brincadeiras e alicerçada em consideração. A amizade entre eles permitia esse tipo de confiança, que para estranhos poderia parecer abusos, e acreditava que quando um não diminui o outro, os dois crescem, mas sempre que podia, e neste episódio não ficou por menos, fazia troça da maneira respeitosa com que Edgard era tratado pelo senhor Salim:

 

Já entendi: — é seu diga pra lá! Seu diga pra cada! Por que não somar palavras e logo tratá-lo por Sodiga.

 

 E a partir dessa viagem passou a chamá-lo Sodiga quando estavam sozinhos. Vendo que o amigo reagia com cara de mamão macho, resolveu insistir na alcunha e passou a gostar também daquele som “Sodiga”, então, aos poucos, abriu a novidade ao público. O apelido pegou e esparramou-se, primeiro no Felipe Alves, depois nas redondezas e no povoado e, anos depois alcançou todos os recantos dos municípios de Piraguara, Piranga, Rio Espera, Brás Pires, Lamim e Cipotânia.

 

Mas agora, enquanto passeavam pela cidade, os pensamentos de Edgard pairavam além do verde dos altos cumes e, influenciadas pela síncope do apelido que o primo lhe cunhara, suas lembranças foram pousar suave num passado bem distante quando era ainda pequeno: lembrou-se da tirada do pai quando nascera a irmã Presciliana. As crianças tiveram dificuldades com a pronúncia do nome, chamavam-na de presquiliana, perciana e outros nomes engraçados. A menina já ensaiava os primeiros passos, e ninguém acertava o nome dela, então o pai sugeriu, em tom de gracejo, que as crianças simplificassem: “Por que não a chamam de Peixe, não é mais fácil?”. E o apelido pegou de tal forma que, daí a poucos anos, ninguém da região sabia o verdadeiro nome dela.

 

Naquela noite, tiveram que dispensar a pensão, pois o senhor Salim, agradecido pelos conselhos do jovem, não deixou que dormissem em outro lugar:

 

— Ora, ora, me conta outra! Hoje vocês vão dormir é aqui, pois o seu Diga me prestou um grande favor. E o Deoclécio também, pois só pode ser homem da bem, como diz as escrituras: diga-me com quem andas e direi quem és. O companheiro de quem ajuda sempre leva um pouco da fama.

 

Edgard pensou: “eu aprecio este homem, mas não concordo com tudo que diz, eu posso andar com muita gente melhor ou pior do que eu. As melhores vão ajudar-me a me aperfeiçoar, e as piores, espero que aprendam alguma coisa comigo e se tornem também melhores. Salim tem pensamento elitista, é do mesmo tipo: ajunte-se aos bons e serás um deles. Espero que o senhor Salim esteja apenas falando da boca pra fora. Se a gente escolhe e seleciona demais os amigos, acaba sem nenhum.


 

 

Afinal, repousaram ali. Para hóspedes tão simples, a casa do Senhor Salim era um requinte. Móveis Luiz XV, poltronas importadas, cômodos espaçosos e muito luxo nos banheiros em todos os quartos. Embora já conhecessem água encanada, ambos admiraram o fato de que todos os cômodos da casa, mesmo os dos empregados domésticos, terem no mínimo um bonito lavabo de louça. Tudo ali sinalizava bom gosto, riqueza e conforto.   Edgard e Deoclécio dormiram em quartos separados, uma atenção pouco usada para hospedar tropeiros e peões. Quem visse o senhor Salim em sua simplicidade atrás do balcão ou a entrar por uma porta de fundos que ligava sua casa ao comércio, certamente pensaria que sua casa fosse de categoria inferior, de proporções e arquiteturas modestas. Ledo engano, a casa pertencera a um proeminente do império que nela havia residido até o dia em que a capital migrara para Belo Horizonte. Salim comprara a casa de um herdeiro de quem era amigo desde que chegara, no raiar do milênio, para se estabelecer na cidade.

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[i] José Alfenas, o Duca, casou-se, em 24 de novembro de 1924, com Cecília da Silva que passou a assinar Cecília da Silva Alfenas. Foram testemunhas de casamento: o farmacêutico Wolney Carlos Marcenes da Silva, que em 1954 seria candidato a prefeito de Senhora de Oliveira, contra Edgard,  e Antônio Vidigal, cunhado de Duca. O juiz de Paz foi o Alexandre Nicomedes Dutra, mais conhecido como Xandin Dutra.

 

 

 

[ii] Biscoito de polvilho feito na hora é retórica, mas o costume da região era manter biscoitos bem conservados em  lata de  banha reutilizadas para esta e outras finalidades. .


sábado, 20 de agosto de 2022

Franklin Fidelis: uma viagem ao início do século XX

 

Por Lulu Alfenas

Franklin Francisco Vieira de Souza
(Franklin Fidelis)

Conto baseado em caso real inicialmente escrito para constar do livro do amigo Liberato de Souza Lana, que me autorizou também a publicá-lo neste Blog.





Hoje amanheci pensativo e puxo pela memória, quero me lembrar dos detalhes. Tudo está pendurado  no meu calejado neurônio que gosta de casos. Parece que foi ontem: acabamos de chegar à casa de Carmitinha (1), onde o Tio Franklin Fidelis (2) está morando agora. Nós viemos para conversar sobre os tempos antigos. Somos três xeretas: Tio Chico (3), Antônio Calazans (4) e eu (5). Estamos ansiosos para bisbilhotar o passado, mas antes temos que pagar o preço da curiosidade e jogar truco com o anfitrião, até que gostamos das cartas, mas hoje era para ver o passado através da memória do Sô Frank. Carmitinha, para não quebrar a generosa tradição da família, empanturra-nos com biscoitos de polvilho guardados em latas grandes com boas tampas. Um dia ensolarada de 1980. Meu neurônio não sabe em que dia nem em que mês estamos. A folhinha está lá, mas o tempo que branqueou os cabelos embaça as letras. Carmitinha não tem mais aquela criação de coelhos que dava vida ao terreiro da cozinha. Mas agora estamos ali jogando baralho, esquecidos do tempo, dos coelhos e da velha UDN. Truco! Vale seis! Vai mais um biscoito esmagado entre os dentes, barulho de crocância a quebrar o silêncio passageiro entre os gritos: vale seis, ladrão de milho!

Agora estamos na sala de visitas, insistimos um pouco, e o tio vai falar.



 “Quando eu voltei de BH, resolvi instalar uma vendinha na encruzilhada da Vargem. Isso foi em 1910, mais ou menos. Voltei da capital cheio de sonhos e alguma experiência de comércio porque lá trabalhei de caixa em bares e restaurantes. Na venda da Vargem o movimento era acanhado, mas naquele tempo tudo era assim, pequeno e calmo. Eu me levantava bem cedo, arreava o cavalo  e nem precisava galopar, em poucos minutos eu já estava abrindo a venda. E ficava ali debruçado no balcão vendo o tempo passar e, raramente, algum cliente. Algumas vezes, minha irmã Deolinda vinha para cumprimentar com uma boa tarde e trazia-me alguma comida: broa, milho verde e bolinho de fubá. Aquela presença amiga quebrava um pouco a monotonia da estrada, mas o mais frequente era o compadre Chico Henriques, sogro da Deolinda que se casara com  o João da Vargem, que iria morrer novo.  O Chico Henriques, este vinha quase todo dia só para jogar conversa fora e contar algumas novidades. Eu também, quando o dia ficava feio, e eu triste, dava minhas voltinhas. Ia até a ponte de madeira sobre o ribeirão da Vargem, onde uma água corre limpa e calma, e que se junta, alguns metros abaixo, com as águas que descem do Pega Bem e do Pires e seguem,  mais encorpadas, em direção ao arraial, uma benção a irrigar hortas e tocar moinhos de fubá por onde escorre. Nessas ocasiões, eu deixava a venda aos cuidados do Lionel, um menino que estava sempre por ali e que costumava me ajudar nas tarefas de varrer o chão e lavar o balcão, o que não faltavam ali poeira e folhas secas.


E num dia desses, em que as nuvens tapam toda a abóboda celeste, e o frio resseca a pele e  racha os lábios, apareceu ali um homem estranho, enrolado em capa grossa e com capuz de lona, barba mal feita e uma cicatriz profunda do lado esquerda da cara. Medonho, no mínimo! Parece que ele desconhecia o sentimento de repulsa que um estranho como ele pode causar, mas mesmo que fosse simpático e de boa presença não podia chegar fazendo tantas perguntas:

-- O senhor conhece, por aqui, um tal de Francisco Henriques de Miranda?

Eu não respondi, ao contrário, o inquiri no bate-pronto:


— Qual é a graça do senhor?


O estranho ficou um pouco perdido, parecia que não sabia o que significava graça. Então refiz a pergunta.

— Como é o seu nome?

Ele me olhou de um jeito que mais parecia de ameaça do que de surpresa pela minha ousadia em questioná-lo, mas acabou respondendo mais do que eu perguntara:

— Zé Gregório, venho dos lados de Capela Nova das Dores.

Nessa altura já começava a escurecer, eu desconfiado, fui lá atrás da venda, pedi ao Lionel para sair pelas fundos e que se escondesse na mata até chegar á casa do compadre Chico, não podia ser visto, e que avisasse ao Chico Henriques (6) que o homem que vinha para matá-lo já tinha chegado. Que ele fugisse rápido! Quando voltei para a venda, trazia um engradado de bebidas fingindo obrigações para que aquele matador de aluguel não desconfiasse de minhas intenções e manobras.

— Seu Zé, o senhor quer tomar alguma coisa?

Perguntei.

— Não, só quero mesmo fazer uma entrega para o senhor Francisco, onde mesmo ele mora?

Eu sabia que a entrega que ela faria era pesada e arderia em quem a recebesse, mas não estava com medo dele, apenas me precavi, pois senti, pelo cheiro que os maus exalam, que aquele era um assassino de aluguel da pior espécie. E havia também o fato de que o amigo já ter me prevenido quanto ao risco da presença de estranhos. Poucos dias antes, o Chico me dissera:

— Amigo Franklin, um homem de Barbacena, que perdeu uma demanda comigo na justiça, me jurou de morte, e dizem que ele é covarde e costuma resolver suas pendências por meio de capangas. Então, amigo, se aparecer algum suspeito por aqui mande me avisar.

E assim fiz, mas o homem estava ali persistindo, queria mais informações que facilitassem sua ida à casa do Chico. Ele era insistente e eu sabia engabelá-lo com desculpas esfarrapadas dizendo que o Francisco de que falava não era muito conhecido, talvez tivesse até se mudado da região. O tempo passava devagar e já escurecia,  mas não me ative a apenas esperar, queria também assustá-lo um pouco: acendi um lampião de querosene e fiz um movimento espalhafatoso ao abrir uma cortina que cobria uma prateleira, e de propósito deixei que ele visse minhas facas de picar mortadela, minha garrucha de dois canos e um revolver novo em folha (as armas eram plástico, só para assustar vagabundos). Mas parece que isso não o abalou. O tempo passava e de repente já era hora de eu fechar a venda quando o inesperado aconteceu: O homem estava entornando um gole de pinga e já se preparava para jogar o do santo no pé do balcão  quando um vulto saiu, de repente, da penumbra e agarrou a gola de sua capa com a mão direita e com a outra encostou  uma navalha em sua garganta e gritou para o Lionel:

— Lionel! Lionel tire as armas dele e vá até ao cavalo dele e olhe se no arreio tem alguma arma. Vasculhe os sacos e embornais. Busque tudo que fura e que cospe fogo! Ajunte tudo e leve para o meio da ponte e jogue tudo no córrego. Capriche para que tudo caia na correnteza e seja arrastado!

Depois de as armas recolhidas e entregues ao ribeirão que nunca regurgita, o facínora parecia até que ficara menor. Seus olhos demonstravam medo do que poderia vir em seguida. Quem tinha a aparência medonha agora era o Chico Henriques, ainda com a navalha na mão, olhos vermelhos de sangue, controlou o facínora e, em movimento de grande destreza, pegou o chicote que trazia preso ao cinto e, incontinente, sem dizer nada, deu-lhe uma sova de deixar saudades.


Depois de corrigir aquele covarde, Chico Henriques disse-lhe calmante:


— Hoje você viveu de novo porque eu estou num dia bom. Mas se você aparecer de novo por estas bandas, a história será outra. E avisa também para seu amigo lá de Barbacena que se cuide, não vou perdoá-lo se houver uma  nova empreitada. Cambaleante, o agora não tão facínora conseguiu montar seu pangaré e sair dali em trote lento porque aquele corpo não suportava mais solavancos.


Depois de ser palco dessa coça histórica, o lugar voltou à calmaria. Os dias corriam lentos como as águas do ribeirão da Vargem em seu leito de pouca descida. Nada acontecia que pudesse ser mote de uma lembrança digna de nota.  Minha vidinha era tão pacata ali e sobrava-me tempo para pensar nas coisas boas que me aconteceram em Belo Horizonte quando lá havia morado: um patrão que me tratava bem e me deixava ficar com 50%  das gorjetas recebidas; uma dona de pensão que a troco de alguns serviços de consertos de portas, janelas e encanamento velhos, quase não me cobrava mensalidade. Assim a minha vida na capital foi muito boa e uma maneira de ser grato a Deus por aquele tempo, é orar por aqueles que me ajudaram e desejar que estejam bem e que sejam felizes.

a vida continuava... E um ano depois da vinda do facínora, em dia de festa no arraial, eu me distraia ao ver uma tropa, que vinha dos lados de Lamim, desfilar com carga pesada em frente à minha venda.  A mula da frente, com guizo de metal, coberta com fitas e espelhos, lembravam  
os sinos da igreja Sagrado Coração de Jesus,  as alegorias , as festas sacras e a alegria do povo a caminhar atrás bandas de congados,  um ponto forte nas festas do arraial.

Muitos que passavam por ali me recriminavam por não me  verem pronto para a festa, esperavam que eu estivesse com roupas de ir a missa e chapéu de feltro. Mas eu me agarrei à intenção de ficar ali e conseguir ganhar algum dinheiro com pequenas vendas aos que iam e voltariam. Para quem não tem muita ganância, o pouco é muito.  Alguns réis viriam, certamente, para minha gavetinha de balcão. E de fato ganhei algum dinheiro naquele dia.

Mas exatamente naquele dia, quis a providência que acontecesse  o que era comum em vendas de beira de estrada, um cachaceiro me prendia ali. Quando eu pensava que ele finalmente iria embora, ele se lembrava que tinha que dar mais uma para o santo. O santo era insaciável e a noite já cobria as montanhas com seu manto escuro e, cá mais perto das baixadas,  uma neblina densa não deixava por menos.


Eu tonto de tanto sono, o freguês de cuca cheia e o santo já soluçava de tanto goles jogados ao chão. De repente meus ouvidos aguçados perceberam um leve ruído vindo da estrada, fui espiar mais de perto e levei um susto danado: era a mesma tropa que passara mais cedo, ainda com as cangalhas carregadas de mercadorias. A mula de guia não trazia mais o guizo, alguém queria silêncio. Tal o cuidado para não chamar a atenção que as patas dos animais estavam cobertas com  almofadas amarradas acima dos cascos. Quatro homens conduziam a tropa, também silenciosos. Todavia imprudentes, pois não me viram ao lado. Dado a que já estivessem a pouco mais de quatro quilômetros do arraial, relaxaram-se ao pensar que não seriam descobertos, pois eram protegidos pela cerração e já haviam vencido o trecho mais movimentado da estrada. Eu logo atinei com tudo e agi rapidamente: joguei o bêbado para fora da venda, fechei a venda, peguei meu cavalo que já estava arreado desde o anoitecer, na expectativa de o cachaceiro ir logo. Quando sai em direção ao arraial, olhei para trás para ver para onde a tropa seguia, a neblina mal deixava ver as sombras que se movimentavam à esquerda rumo a Santana.


Tal a minha pressa que meu cavalo parecia voar no meio daquela neblina fechada enquanto eu imaginava de como tudo aquilo poderia ter acontecido: certamente que os comerciantes e os tropeiros também participavam das festas e tinham deixado para descarregar tudo na manhã seguinte. Não era uma boa prática deixar animais cansados com as cargas no lombo. O que conjecturei de fato acontecera. Alguns disseram que iriam baixar as mercadorias naquela mesma noite, depois da procissão, outros só na manhã seguinte.


Quando eu cheguei  espalhafato, gritando e contando o que tinha acontecido, foi uma correria que jamais acontecera no arraial. Com poucos minutos uns 30 homens armados saiam da cidade. Eu voltei com eles e passei na venda para pegar minha cartucheira, que na pressa deixará em cima do balcão.



A correria era tanta que alguns cavalos chegaram a atropelar os da frente, pois a neblina aumentava a cada minuto. Não demorou muito, encontramos os bandidos na Casinha, num lugar de matas que costeiam a estrada. Houve um tiroteio de início, mas logo o compadre Xandi (7) gritou para que se entregassem, pois éramos muitos e os alertou que eles morreriam na certa se continuassem resistindo. Ninguém ficou ferido. Alguns ameaçaram enforcar os ladrões, ali mesmo, na beira da estrada. Seria fácil, havia muitas árvores e cipós suficientes.. Mas o compadre Xandi havia dado a garantia de que eles não seriam mortos casos se entregassem. E assim foi.


Quando chegamos ao arraial, parecia até que voltávamos de uma guerra: as mulheres abraçaram e beijaram os maridos, os amigos davam viva aos heróis da cidade. E nem precisa dizer onde os ladrões foram parar”. 



E assim termina a fala do Tio Frank, que nos trouxe esse caso que na época tornou-se o assunto mais badalado no arraial , tão lembrado  que eu mesmo já  ouvira, ambos,  contudo em versões menos esmiuçadas. 

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1) Franklin Francisco Vieira de /Souza

2) Carmita de Souza Veloso

3)Francisco Henriques de Miranda Souza

4)Antônio /Calazans de Miranda

5) Luiz Henriques Alfenas

6) Francisco Henriques de \Miranda, filho de Jacob Henriques de Miranda

7) Alexandre Cirilo de Souza



quinta-feira, 30 de junho de 2022

Biografia resumida de Edgard Alfenas (Sodiga)

 

Sodiga em foto dos anos 1950


                                                                     por  Lulu Alfenas

 

Bondade é amar as pessoas mais do que elas merecem. Joseph Joubert

Origem

Edgard Alfenas nasceu no Arraial de Nossa Senhora de Oliveira, distrito de Piranga, Minas Gerais, em 26 de junho de 1909, morreu em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, em 04 de fevereiro de 1990 e foi sepultamento em Senhora de Oliveira, em 5 de fevereiro de 1990.

Foi pecuarista, agricultor e político. Viveu em uma região de grandes mudanças políticas e socioeconômicas as quais podem ser percebidas até nas variações dos nomes da terra natal durante sua vida: Nossa Senhora de Oliveira (1909 a 1923); Piraguara (1923 a 1953) e Senhora de Oliveira (1953 a 1990).

 De família católica, foi batizado pelo Padre Jose Affonso Painhos, em 31 de julho de 1909, tendo como padrinho Sebastião Rodrigues Pereira e como madrinha Maria da Conceição Milagres Oliveira, esta filha de Alexandre Rodrigues Milagres e Francisca da Silva Araújo, esta filha de um casal pioneiro da região, Furriel José Ignácio da Silva Araújo e de Rita cândida do Sacramento.

Sodiga veio da genética Rodrigues Pereira, por parte da mãe, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira.  Por parte de Pai, sua origem mais remota no tempo, examinada apenas nos limites da região de Guarapiranga, aponta para o casal Alferes Francisco de Paula Alfena e Umbelina Roza de Jesus, que viveu na Graminha, às margens do Rio Xopotó, do lado de Brás Pires, na divisa entre os dois distritos. Segundo o censo de 1830, o Alferes tinha seis filhos. Eliziário Glória Alfena, o avô de Sodiga, nasceu nessa família depois do censo e, em 1848,  casou-se com Tereza Tranquilina do Amor Divino  com quem teve sete filhos, dentre eles Garcez Glória Alfenas, que se casou com Adelina Maria da Encarnação e com ela teve, de 1892 a 1912, nove filhos. Garcez casou-se pela segunda vez com Ana Marques Faria, com quem teve mais um filho, em 1939.

Vida privada

Em 25 de maio de 1929, Sodiga casou-se com Rita Henriques de Miranda (Sadita), filha de João Henriques de Miranda, o João da Vargem, e de Deolinda Maria da Encarnação. João da Vargem é trineto do Alferes Cláudio Joze de Miranda; e Deolinda, da linhagem de Antônio Vieira de Souza. Este é filho de Fidelis Vieira de Souza e de Maria Rita de Jesus, a velha do Fundão, cuja alcunha tem fundamento em sua longevidade, viveu 115 anos.

De 1930 a 1950, Sodiga e Sadita tiveram 11 filhos dos quais oito sobreviveram à primeira infância. Nos primeiros anos de casados, viveram em uma pequena cabana no Córrego da Graminha e, posteriormente, no  lugar denominado Vargem, onde moraram por alguns anos numa casinha da encosta leste de sua propriedade.  Neste local, ao pé de um morro, Sodiga construiu uma casa grande com quartos e dimensões suficientes para a família e, por volta de 1939, para ela se mudou. Em 1955, por força de demandas políticas/administrativas, que exigiam maior presença na cidade, mudou-se para sede do município e passou a morar numa casa na Praça São Sebastião. Ali morou por vários anos e, finalmente, mudou-se para a Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira, 64, onde viveu até sua morte, em 1990

Antes do casamento, Sodiga tinha sido tropeiro, em atividade casual, e peão, de amansar cavalos e burros. Viajou com companheiros como Zé do Alcibíades, seu primo e amigo; Deoclécio Rodrigues Pereira, outro primo; e com o irmão mais velho, Otorgamim Gloria Alfenas, este tropeiro de verdade.  Passado o período dos eflúvios da juventude e dos prazeres das viagens em lombo de burro, em que conduzia tropas de mulas carregadas com toucinho e fumo de rolo, que levava para Ouro Preto e de lá voltava trazendo cargas de sal, querosene e todo tipo de encomenda. 

E logo veio o casamento e com ele as responsabilidades, então se ateve na formação de uma família e passou a viver como pequeno agricultor plantando milho, cana de açúcar, feijão, arroz de brejo, para o comércio; e frutas de pomar e hortaliças, para o consumo da família. Na busca da sobrevivência e de alguma economia, produziu rapadura e cachaça, inicialmente em engenho puxado por cavalo, mais tarde por um tocado por roda d’água. Em paralelo a essas atividades, sua fazenda produzia também leite e creme entregues, diariamente, ao comércio do arraial.  Como a maioria dos habitantes da região, Sodiga tinha uma pequena criação de galinhas e de suínos em quantidades suficientes para sustentar a casa com carnes, gordura e ovos.  E, para contrabalançar o excesso de proteínas e da gordura suína em sua mesa, contava com horta e um pomar com goiabas, fruta de conde, jambo, laranjas e mexericas.  

Para os trabalhos na pequena fazenda de 64 alqueires e nas terras que possuía no lugar chamado buraco, na estrada de Brás Pires, contava com a ajuda de chefes de duas famílias agregadas, principalmente a do Atílio e a do Pedro Grosso. Nenhum contrato era escrito, era tudo no fio do bigode. Para completar a necessidade de força de trabalho na roça, havia sempre diaristas ou contratados por tarefas negociadas por eitos. Na maioria das vezes, o trabalho era a molhado, ou seja, o contratante tinha que fornecer almoço e café da tarde com algum complemento: broa de fubá, angu doce, cuscuz de fubá. Não havia boas alternativas: muitos afazeres para a dona da casa, pouca sustança na comida dos trabalhadores.

Vocação e vontade de poder

                        O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar outros felizes. Blaise Pascal

O fato de ser um homem de bom humor, de bem com a vida e amigo de brincadeiras, às vezes até um pouco brutas, o tornava popular e de fácil convivência. Gostava de estar perto das pessoas, talvez por isso o destino o tenha jogado para um lado extraordinário: a aventura perigosa de tratar e cuidar de doentes das redondezas. Com o passar dos anos, a cura, de quem precisava de ajuda e tinha poucos recursos, passou a ser, para ele, uma obrigação. Mantinha em casa um enorme estoque de amostra grátis que conseguia com representantes de laboratórios. Costumava indicar este ou aquele remédio para seus amigos, com comportamento no limiar da profissão médica.  Mas não se pode dizer que essa vida, fora do senso comum, tenha começado assim sem mais nem menos. De fato trata-se de uma extravagância que não surgiu de um passe de mágica, ocorreu aos poucos em doses homeopáticas. Parece que sua alma regozijava-se com a vocação, e a prática aprimorava o dom, algo que ocorreu em um processo lento, não em um episódio: isso tomou curso quando ele era chamado para aplicar uma injeção, realizar um parto, curar uma dor de barriga, espremer um berne e até desencravar uma unha.  Em paralelo às suas primeiras experiências no tratar doenças, houve um aprendizado com médicos formados, cujo processo se desenvolveu mais ou menos assim: a população confiava nele, porque ele já trazia algum conhecimento do berço embalado por sua mãe que sabia curar com chás e raízes. O fato é que Sodiga era chamado para qualquer episódio de doença, mas muitas vezes acontecia de o caso ser mais grave e superior às suas possibilidades, nestas ocasiões, ele mandava chamar o médico ou ia pessoalmente buscá-lo — chegar nele para pedir um favor não causava nenhum constrangimento —.  Criou-se o hábito de ele ser intermediário entre o doente e o doutor. Aos poucos, fez amizade com os médicos e os acompanhava, seja porque não conhecessem as estradas de Piraguara, seja porque tivessem medo das noites escuras e assombrações, em que ele próprio acreditava e as via. Os médicos tornaram-se companheiros de viagens e de noites varadas em estradas esburacadas e poeirentas e, na invernada, cobertas de lama.  Entre obstáculos e enfrentado a friagem das madrugadas, Sodiga observava a atuação dos médicos e adquiria conhecimento prático para o atendimento profilático (tratamento preventivo, sendo utilizado para designar algo capaz de prevenir ou atenuar determinada doença) sendo que assim agia sempre que não houvesse a possibilidade da presença de um médico. Dr. Liberato Miranda, de Rio Espera, foi sua grande amizade e inspiração. Já em 1945 se tornaria seu compadre ao fazê-lo padrinho de um dos filhos. Nesta época, em que a medicina era um bem escasso na região, o médico mais próxima vivia a mais de 20 quilômetros do arraial de Piraguara, e nem sempre estava em casa ou disponível.  A vida estava sempre por um fio, caso a doença chegasse com força. Era comum encontrar-se com essas duas figuras pelas estradas: Dr. Liberato montado em mula boa de sela, e Sodiga, em de burro, ou no seu alazão, no caso de viagens curtas. Percorriam léguas para socorrer os que não podiam ser levados ao médico. Mais tarde, com Sodiga já na política, Dr. Liberato mudou-se para Saúde–MG e depois para Divinópolis-MG, deixando um grande vazio no atendimento médico da região, mas a lacuna foi logo preenchida por Dr. Solom Ildefonso, um excepcional clínico morador de Piranga.   Com este, Sodiga compartilhava mais do que curar, a caridade silenciosa e a franqueza com os mais necessitados.  Quantas vezes não se ouviam Dr. Solom bronqueando com o paciente: — Você não tem nem como comprar comida, como quer me pagar! — Dr. Solom foi uma grande influência em sua vida, e ambos pendiam para a empatia com os mais pobres. A presença de Dr. Solom em Senhora de Oliveira aumentou depois que Sodiga assumiu a Prefeitura Municipal.

Vida política

Em 12 de dezembro de 1953, o arraial foi emancipado e, no ano seguinte, haveria eleições.  Em 1954 enquanto o município era governado por intendentes nomeados por JK (foram dois), Sodiga era jogado no meio do burburinho, desta vez o da política, em que entrou de corpo e alma. A decisão foi incentivada e depois apoiada por João Camilo Milagres, seu amigo e cunhado, casado com sua irmã Zelina Alfenas Milagres.  Para se tornar candidato, teve que sair de seu partido de origem, O PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas, e ingressar no PR – Partido Republicano. de Clóvis Salgado que apoiava JK em nível estadual.  Rompia-se assim, em nível nacional, com Getúlio Vargas (o que significava pouco, pois aquele, provavelmente, nem sabia se Sodiga e Senhora de Oliveira existiam quando deu um tiro no peito, em agosto de 1954) e, localmente, afastava-se de grandes amigos como Francisco Inácio Milagres de Araújo, o Chico Inácio; Temístocles Milagres da Silva, Dodô; e Franklin Francisco Vieira de Souza, Franklin Fidelis, (o que significava muito, por causa de amizades e laços de família). O que mais lhe doeu foi não ficar do lado político do grande amigo de infância, primo e compadre José Rodrigues Lana, popularmente conhecido como Zé do Alcebíades. Muitas foram as perdas neste sentido.  Sodiga aprendeu logo que marcar posição política exige estômago forte e vontade de poder, pois costuma atrapalhar as relações com pessoas amigas, mas teve que enfrentar este amargo afastamento de muitos da UDN – União Democrática Nacional, de tendência conservadora, e do PSD – Partido Social Democrata, da direita moderada, que numa coligação estranha, aqui se beijavam enquanto no resto do país digladiavam-se.  Contudo, nenhuma dessas perdas teve a dimensão da morte, em 13 de junho de 1954, de seu amigo, cunhado e companheiro de partido, Joaquim Inácio da Silva Araújo Sobrinho, o Quinzinho Inácio.

Mas a jornada política tinha que continuar, e abraçado a João Camilo Milagres, que, naqueles dias de campanha, saboreava a recente vitória de seu filho, José Milagres Araújo, que se elegera no ano anterior prefeito de Piranga para mandato (1954 a 1958); a Tomé da Silva Araújo, José Rocha da Silva, o Duca Rocha; a José Pedro da Silva Araújo; a Sotero de Souza; e entre tantos outros. Externamente o PR tinha boa estrutura com Ciro Maciel, deputado estadual, natural de Piranga, e João Nogueira de Resende, deputado federa. Assim com bons alicerces, Sodiga estreou bem e foi eleito prefeito de Senhora de Oliveira tendo como vice Francisco Condé. Resultado: a chapa venceu o excelente candidato da coligação adversária, o farmacêutico Wolney Carlos Marcenes, por minguados 64 votos de vantagem, contudo, suficientes para levá-lo ao mandado tampão de três anos, de 1955 a 1958.

Sua posse, em 1955, teve festa para a qual contratou os serviços da pensão da competente Maria Gomes, que preparou tudo para impressionar as autoridades e o povo: comida típica das festas da região: leitoa assada com direito a maçã na boca; tutu de feijão preto; carne de frango, macarronada coberta com queijo ralado e ovos cozidos; e para beber, muita cerveja e alguma cachaça. As pompas da comemoração carregavam muitos significados e emoções: o orgulho da autonomia alcançada, agora cristalizada com a autoridade local consagrada pelo voto popular; o efeito afrodisíaco da vitória que derrubava as forças, que segundo a visão dos vencedores, eram muito conservadoras e que haviam dominado a região durante anos.   O Certo é que além do sabor da vitória para o mandato de 1955 a 1958, havia a alegria de escrever, no rodapé da história do município, os feitos do PR na primeira eleição para prefeito municipal.     

A experiência dessa primeira vitória, somada às qualidades das lideranças do partido, responsáveis pela manutenção do espírito de grupo até a próxima eleição, que se realizaria em 1957, foram os principais ingredientes que elegeram Tomé da Silva Araujo para o mandato de 1958 a 1962. Tomé, por sua vez, fez um excelente governo e tornou ainda mais fácil a volta de Sodiga para um segundo mandato, de 1962 a 1966. A partir de 1964, já instalada a ditadura militar no Brasil, Sodiga foi para a ARENA, mas o espírito de união do antigo PR sobreviveu a essas mudanças e contribuiu para a eleição de José Luís de Senna Pereira (1966 a 1970) e, no curso da história local, Sodiga teve papel fundamental na eleição de seu filho, José Geraldo Alfenas, o Zé de Sodiga, para o mandato tampão de 1971 a 1972.

A hegemonia política de Sodiga, como puxador de votos de prestígio popular, tornara-se visível naquelas primeiras décadas após a emancipação do município. Mas o diferencial político evaporou-se quando surgiu, como adversário, José Maria da Silva, um candidato que reunia muitas qualidades e que tinha o mesmo estilo e ferramentas: o atendimento à saúde e a farmácia. Zé Maria tinha sido um companheiro político dos tempos do PR e abriu seu próprio caminho na busca de realizações e liderança. Sodiga, com 64 anos, já não exibia a mesma energia e destreza política que o projetara. Ao sair do grupo que formara o PR, ele próprio determinou seu declínio político. Daí para frente foi eleito vice de Vavá uma vez, mas já não havia o romantismo e a alegria da trajetória iniciada nos anos 50 e encerrada nos anos 70, passou a ser coadjuvante, e outros agora teriam o protagonismo.

Legado

            Morrer rico é muita falta de imaginação. (José Carvalho, da  FERBASA)

Sodiga teve seu patrimônio tangível reduzido por causa da política. Suas perdas financeiras mais significativas aconteceram porque ele decidiu avalizar pessoas “amigas”, numa época em que alguns deles se aventuravam em negócios sustentados por empréstimos com juros altos. Em política isso costuma virar uma bola de neve incontrolável. O resultado dessas estripulias financeiras apareceu em 1970 quando teve que vender a fazenda da Vargem para saldar valores de sua hipoteca, sobraram-lhe alguns minguados valores a receber em suaves prestações pagas pelos compradores da fazenda da Vargem.  Nessa altura de sua vida pública, a fazenda já lhe rendia pouco e as dívidas tinham que ser saldadas. Essa perda não o abalou muito, o importante é que a família já estava criada, e ele tinha condições para viver com simplicidade e dignidade.  A riqueza, que nunca teve, ao que parece, não fazia parte de seu critério de sucesso. Sua felicidade nunca esteve ligada a contar dinheiro; talvez, sim, em contar curas e; depois que se apaixonou pela política, amigos e votos.


Legado ao município.


Fique satisfeito em fazer o bem e deixe que os outros digam o que quiserem

Pitágoras 

Um prefeito deixa sua marca segundo suas prioridades e limitações financeiras dos cofres da prefeitura que reduzem muito o foco das escolhas Em 1955 o cenário não era dos mais favoráveis: ruas precisavam ser calçadas, água potável devia chegar às casas das praças e ruas abertas na lateral da cidade (a cidade alargava-se para os lados do Ribeirão da Oliveira) e às ruas mais altas do povoado. Sem transportes adequados, as regiões mais distantes necessitavam de escolas mais perto das crianças. Não se pode dizer que a antiga sede, Piranga, tenha abandonado os seus distritos, mas arraial é sempre arraial, e seu peso político é sempre menor do que o da sede; destarte, tudo estava por fazer. Em suma: pouco dinheiro para muita obra é o que o prefeito da cidade recém-emancipada tinha que enfrentar.  Então restava muito cuidado nas escolhas de prioridades, e elas ocorreram no governo de Sodiga em escopo reduzido: Saúde, Saneamento básico e educação.

Sua eleição consagrou a saúde como o bem maior a ser buscado pelo poder publico do município. Todos o conheciam por levar os doentes mais graves para serem tratados nos hospitais de BH, o que acontecia muito antes de 1953, e logo que assumiu “poder”, colocou a prefeitura dentro dessa filosofia. Naquela época, a prefeitura não tinha sede própria nem carro, só uma carroça e o um burro, e pouquíssimos empregados. Mas como o prefeito colocava a vida em primeiro plano, alugava um jipe e levava os doentes mais graves para BH, e, muitas das vezes, eles tinham que ficar em pensões do Bairro Santa Efigênia, ou na casa de sua irmã Presciliana Alfenas, Peixe, e depois da morte desta, foi substituída pela sua filha, Celi Magalhães Fidelis que juntamente com a irmã Glória tinham a mesma paciência e bondade da mãe.  Além disto, essa casa em Santa Tereza foi, durante décadas, o porto seguro para muitos parentes que chegavam a BH de mudança.  Se todos que por ali passaram como estudantes, visitantes ou hóspedes temporários, somassem suas gratidões num espaço físico, se poderia lotar o Mineirão de beijos e abraços. Peixe e suas filhas são partes fundamentais da vida de Edgard Alfenas, assim como de muitos outros parentes e amigos delas.

Com tantas vindas a BH para implorar internações, com pouco tempo Sodiga passou a ser reconhecido e favorecido por enfermeiras, médicos e diretores de hospitais da região hospitalar de BH, que perceberam seu desapego e ajudavam-no.

Em seu segundo mandato, conseguiu que Dr. Moacir Salim se mudasse para Senhora de Oliveira, e a população finalmente pode contar com um médico mais próximo de casa.

As intervenções urbanas contemplaram só o essencial: no primeiro mandato, a prefeitura trocou a tubulação , ampliou a rede de distribuição da água captada nos montes ao sudeste da cidade para uma pequeno depósito  próximo ao  Morro Cavado; comprou um imóvel onde instalou a sede da prefeitura. Construiu duas pontes, uma de concreto para a saída de Piranga, outra de madeira para a saída de Brás Pires. 

No segundo mandato, construiu uma nova caixa d’água na limeira. Quase todas as ruas do centro receberam novas tubulações e estabeleceu-se um limite de gasto e forma de cobrança baseado no critério de através da chamada pena d’água.  Em Santana de Piraguara foi construído um grupo  escolar.

As causas do rompimento com o grupo PR

Surgiu um problema político durante o mandato de José Luiz de Senna. Nem tudo que ocorreu naquela época chegou a ser revelado e, com a morte dos protagonistas, pouco se sabe a respeito. Os bastidores da política, por menor que seja o município, jamais chegam com clareza aos eleitores, e aqui cabe o ditado popular, “lugar pequeno inferno grande”.  Alguns acontecimentos, daquela época, nem os cabos eleitorais entenderam com clareza. O certo é que José Luiz de Senna e Sodiga se desentenderam. Não se sabe se a morte de João Camilo Milagres, em 1968, o grude que unia o partido, teria sido o que faltou para que não houvesse essa distensão. O que parece mais visível, é que a polêmica em torno da luz elétrica teria dado origem à pendenga.  A cidade vinha de um apagão. Ruas e casas escuras. Mas havia uma decisão a ser tomada. Sodiga defendia a manutenção da Usina (que fora de Piranga), mas o novo prefeito, e o grupo que o acompanhava queriam abandonar a ideia de manter a usina velha, só a CEMIG resolveria. Ao usar um argumento verdadeiro, de que o preço da eletricidade iria subir e a tornaria inacessível para a população mais pobre, Sodiga encontrou uma forte oposição interna em “seu” grupo que, com sobra de razões, achava que o progresso da cidade não ocorreria sem eletricidade mais potente. Não houve interesse em conciliar as duas correntes, e Sodiga rompeu com o grupo, ou vice-versa.  A posição de José de Senna, com bastante apoio popular, foi vitoriosa e a Luz de CEMIG foi inaugurada durante seu governo, com pompas e fogos. Na cerimônia não havia a presença de Sodiga.  Destarte José de Senna teve que marchar sozinho na eleição seguinte ao seu mandato, e então apoiou Sebastião Veloso Primo, um homem de bem e bastante popular, mas que não tinha estrutura partidária para a campanha, o que deu a vitória a um filho de Sodiga, José Geraldo Alfenas que teve  como vice Tonico Bernardes, num mandato tampão de dois anos, os quais nem cumpriu na totalidade, devido a um acidente automobilístico que o afastou do trabalho por quatro meses. O esfacelamento do grupo que havia sustentado a política e elegera prefeitos por quinze anos consecutivos, de 1954 a 1972 levou a vitória de José Maria da Silva, um homem também dedicado à saúde,  que fez prevalecer o sucesso daqueles que atrelaram, até então, saúde com votos. E assim, as mesmas condições que haviam elegido Sodiga tiraram-lhe o poder na política. 

Morte

                       A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes da morte. Osho                                 

A partir da metade dos anos 1980, Sodiga viu-se às voltas com problemas de saúde: a pressão sanguínea alta e as dificuldades de controlá-la.  Entre derrames e isquemias, sua vida se esvaia aos poucos, e a doença o tirou das ruas e do convívio social. Já em 1988, tinha dificuldades para andar. Permaneceu na cama por meses até que, em fevereiro de 1990, foi hospitalizado em Conselheiro Lafaiete, onde faleceu com septicemia devido a complicações urológicas.

— Sodiga praticou uma humildade incrível, com uma entrega total no servir o próximo — foi o que disse Monsenhor José Justiniano Teixeira, em 5 de fevereiro de 1990,  na homilia durante a missa de corpo presente. O então prefeito municipal, Osvaldo Heleno, subiu ao altar para anunciar que havia decretado  três dias de luto municipal.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Batismo

                                          Trecho do livro Os Berdamerdas, por Lulu

Adelina Maria da Encarnação 






Se um dia lembrar que tudo na vida passa. Lembre-se que eu passei com uma enorme vontade de ficar. (Autor desconhecido)

                       


Depois de adiado por duas vezes, o batizado aconteceu no domingo, dia 31 de julho de 1909, conforme o desejo da mãe e a disponibilidade do pároco.  Após o “dominus vobiscum” e terminada a missa em latim, o padre dirigiu-se à sacristia vestido com uma alva branca e uma estola da mesma cor com símbolos católicos dourados.  Ali ele era aguardado pelo pequeno Edgard, os padrinhos, seus pais e todos da ninhada de Garcez Glória Alfenas [i]e Adelina Maria da Encarnação[ii], e não eram poucos, quatro irmãs e três irmãos que, com o tradicional bilu-bilu, entretinham-se com o bebê da vez. Um frio úmido penetrava pelas frestas da porta de madeira, que ligava a sacristia ao tablado do altar, propagava-se por todo o cômodo e saía pelas janelas laterais em corrente gelada que aumentava a sensação de desconforto. O pequeno Edgard chorava. Adelina tirou o próprio mantô e o enrolou na criança, “tenho medo da febre amarela”, pensou. Não havia motivos para tal, a febre amarela não se propaga pela friagem e, ademais, essa peste não chegara à Oliveira, onde não havia o vetor, um mosquito que estava atacando Sorocaba, em São Paulo, e também as regiões do norte do país, principalmente as cobertas pela floresta amazônica.  O padre percebeu o incômodo que a brisa causava e reagiu:

— Desculpem-me, vou mandar arrumar estas janelas, as gretas tornam o ambiente quase insuportável nos dias de frio. Esta capela já está muita velha, cupins atacam a estrutura de madeira, o sol bate pouco aqui dentro e os cômodos são escuros e úmidos. Nós já estamos preocupados com isso, precisamos angariar fundos para a construção de uma igreja mais ampla, mais condizente com o tamanho de nosso povoado que, graças a Deus, tem crescido muito nos últimos anos.

Vendido o seu peixe, o padre fechou a porta da sacristia o que interrompeu a corrente de ar.  O Lugar ficou mais agradável.

Enquanto o padre falava, os padrinhos e alguns poucos convidados admiravam a beleza das crianças e de como se vestiam bem: Edgard vestia branco, como recomenda a tradição; e as demais criança, trajes feitos pela própria mãe,  com chitas e brins comprados no comércio de Piranga.    Zelina[iii], Já mocinha com seus 17 anos, destacava-se pela beleza. Fácil lhe fora atrair um bom partido, diziam, moço bom e de berço, filho do Major João Camillo da Silva Araújo[iv], este um homem de destaque na Oliveira, pelo título e pela riqueza, com muitas terras no córrego do Pires.  Maria[v], com 15 anos, já caprichava na faceirice e tinha o sorriso mais lindo da região; Presciliana[vi], com 10 anos, que nessa altura já havia assimilado o apelido, Peixe, estava naquela idade da difícil escolho: com quem ando? A menina passava pela idade em que não sabe se se comporta como criança, ou adolescente. Sendo precoce em sentimentos profundos, já demonstrava um carinho especial pelas irmãs e irmãos; Isabel[vii], com 5 anos, brincava  com os irmãos, e era muito paparicada por todos eles. Dos homens, Othorgamim[viii] era o mais velho, 13 anos, e o seguiam o pequeno José[ix], Duca, com 8, e o Antônio[x] que aos 3 anos perdera o favoritismo de caçula, vantagem que não chega a ser grande coisa em famílias de tantos filhos. Neste dia especial para eles, Edgard rodava de colo em colo e já arriscava um leve sorriso quando o carinho das irmãs lhe chegava por um leve toque no rosto.

De repente todos se voltaram para pia batismal. O sacerdote dava início aos rituais, sempre fundamentais para o crescimento da fé dogmática e manutenção da igreja. Antes de ministrar o sacramento, o sacerdote fez uma breve homilia:

— Meus filhos e filhas, o batismo nos traz à presença de Deus que nos protege. Assim como uma mãe zelosa dispõe de suas vestes para proteger o filho contra os males que a brisa fria da manhã pode lhe trazer, assim também, Deus, através de seu filho Jesus Cristo, nos traz, pelo sacramento, a proteção contra o mal que já nela se instala na alma desde o nascimento, o pecado original — “é esperto o padre”, pensava Garcez, “aproveitou-se da brisa e da proposital cacofonia para vender seu peixe e nos lembrar de pagar as janelas e portas”, o padre continuava — O Batismo, meus caros pais e meus amigos padrinhos, é o abraço de Deus que vai além de resguardar, purifica a alma da criança que nasce marcada com esta sombra do mal que é o pecado herdado de Adão e Eva por haverem comido do fruto proibido. Com o batismo, esta pequena criança fica pronta para os feitos da humanidade e já é completa em sua potência, e que Deus lhe dê um bom destino e que, nesta terra, possa ser útil aos seus iguais.

Adelina respondeu com um ressonante — amém! — a demonstrar fé absoluta nas palavras do padre e no destino do filho.  Na pujança de seus trinta e dois anos, a respeitável dama já tinha personalidade amadurecida para apresentar os traços que revelavam sua força interior. Essa a combinar com a parte física: braços fortes, rosto largo, faces marcadas por sucos bem definidos e profundos. Sua pele clara, mesmo lesada pela exposição continuada ao sol e a chuva, tinha uma proteção natural, talvez pela ingestão de frutas e legumes em abundância. Possuía todos os sinais de mulher forte e despojada: cabelos lisos, penteados rente ao coro cabeludo, quase grudados, davam-lhe uma aparência robusta e fora dos padrões femininos da época e lugar: o queixo carnudo, a boca encurralada por traços que lhe fechavam o semblante e a tornavam com feições mais sérias do que a sua natureza de fato o era. Tinha o ar de severidade exagerada, o semblante quase carrancudo. A dureza, impressa em sua figura enquanto permanecia séria e quieta por razões das preocupações, esmaecia-se completamente quando ela falava, sorria ou brincava. Tinha a voz aveludada e seus argumentos eram sempre bem elaborados. Suas palavras carregavam significados de esperança e compreensão para com o próximo e os mais necessitados, de meiguice contagiante. Sua bondade ecoava além do Felipe Alves, onde criava seus sete filhos e agora um bebê e pretendia ter mais[xi]. Tinha origem católica pela fé e pela genética: era filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e de Izabel, esta, segundo o conhecimento oral, era filha do padre Manoel, um antigo vigário de Capela Nova das Dores, pelos idos de 1880, e de Ana Carolina, filha de gente simples do lugar.

Garcez não prestara atenção às últimas palavras do pároco, fixara-se no que ele dissera sobre a construção da igreja, isso despertara seu espírito irrequieto, cético e crítico que divagava a respeito: “esta matriz não está tão velha assim, eu mesmo contribuí para sua construção que terminou em 1894. Na verdade, ela levou nove anos para ficar pronta. Tanto tempo se deveu à falta de dinheiro e também a que uma parte do que se arrecadara para este fim tenha sido aplicada na construção de outros bens da igreja, alguns não tanto terrenos”. Eu me lembro de que havia pleitos dos bispos e padres no sentido de dar prioridade a outras construções. A população discordava, queria mesmo era ver a igreja pronta. Os mais atrevidos reclamavam e xingavam o padre de plantão, alguns deles residiam em Piranga e pouco vinham à Oliveira. Mas tudo acabou bem, o medo da excomunhão pesou mais do que as convicções desses ou daqueles beatos. A Sacristia podia estar ruim”, Garcez continuava a pensar “mas não é caso para se abandonar uma igreja dessas, tão bonita. Este padre deve estar meio lelé da cuca. Esta igreja não tem nem vinte anos. Nós, que temos dinheiro curto, fazemos nossas casas para durarem cem anos ou mais, e o padre, que pode contar com muitas espórtulas, leilões de gado e até com verbas do vaticano, fica inventando de melhorar o que já está muito bom”. A bem da verdade, a construção da igreja, onde agora pisavam, havia passado pelas mãos de três vigários, e a demora dependia não só de recursos financeiros, mas de encontrar artistas para as pinturas de paredes e tetos, estes sempre davam preferência as obras maiores e de lugares mais ricos, como Mariana e Ouro Preto. Enquanto Garcez distraía-se com suas elucubrações, o padre avançava na cerimônia e logo o convocou os padrinhos e os pais para se achegarem mais perto, uns para segurar velas, outros a criança. 

Qual o nome do padrinho?

— Sebastião Rodrigues Pereira

— e da Madrinha?, Perguntou o padre,

— Maria da Conceição Milagres Oliveira[xii]

E o padre exerceu sua autoridade:

— Seu Garcez, pega a vela, pega a bendita vela! Acenda-a, seu Garcez! Aproxime-se mais, isso, mais perto do menino. 

A madrinha pegou o pequeno Edgard no colo e o levou até a pia batismal e o padre derramou, com uma jarra, a água sagrada em sua cabeça, dizendo as preces do batismo:

—Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Tal gesto representa vida nova e confirma que a criança está batizada e fora do grande risco de ir para o limboxiii . E assim, num ritual com pouco óleo, muita água e rezas, consumou-se o sacramento.

Terminada o rito, os pais e os padrinhos assinarem o livro de batismo e juntamente com as crianças saíram da sacristia para o altar de onde ganhariam a rua.  O padre tirou a alva e a estola e, como um soldado que se despe de uma pesada farda, sentiu-se desobrigado da atitude circunspecta e do poder que a  igreja lhe investe, e sem aquele ar de superioridade eclesiástica, disse:  

 

— Seu Garcez, mata a curiosidade deste pobre ignorante. Esse seu sobrenome, Alfenas, vem de quê? Afinal, de onde vocês são?

 

Garcez começou por explicar o “S” de seu sobrenome:

 

— Alfena, esse é que deveria ser o nosso sobrenome, mas meu avô, o Alferes Francisco de Paula Alfena foi quem pluralizou o sobrenome a partir de meu pai Eliziário, que o registrou como Alfenas. Agora eu e meus irmãos estamos batizando nossos filhos e filhas com grafia nova.

 

O padre queria saber das origens:

 

— Bem, Seu Garcez, mas então, e o Alfena no singular, de onde vem e o que significa?

 

Garcez respondeu sem pestanejar:

 

— Vem do lugar de onde nosso antepassado veio. Quando ele migrou para o Brasil, já trouxe o nome Alfena pronto em homenagem à freguesia de Alfena, que fazia e faz até hoje parte da cidade de Valongo, na região do Porto, em Portugal. Não há dúvidas quanto a isso, mas o nome daquela freguesia teve origem, na idade média, de uma palavra árabe que se refere a uma árvore que serve para fabricar tinta. O arbusto tem o nome de alfeneiro e a flor é chamada de Alfena. Mas nós, os Alfenas, daqui da Oliveira, estamos mais para berdamerda do que para flor que se cheire. — concluiu com uma boa risada.

 

O padre parecia se divertir e disse:

 

— Olha! Olha! Vivendo e aprendendo! E eu que pensava que esse nome viesse da cidade chamada Alfenas, aqui do sul de Minas. 

 

Garcez interveio:

 

— Mas, Padre, nisso o senhor não sabe da missa a metade, é exatamente o contrário, o nome daquele lugar é que veio da família Martins Alfena. Olha, daqui de nossa terra são originário também de Portugal, como aqueles, mas só que somos de origem dos Moreira Alfena, muita confusão se fez porque lá no sul de Minas havia um Francisco e aqui também outro, mas nem parentes eram. [xiv],

 

O padre deu uma gargalhada inesperada e, totalmente fora do contexto, disse espalhafatoso:

 

— Pois que não é! Pois, pois, pois!

 

E, de maneira brusca, encerrou a conversa e se foi. Garcez, que já estava a gostar da conversa, ficou um pouco aborrecido, pois o padre não lhe dera a oportunidade de informar que os antepassados dos Moreira Alfena[xv], que vieram para o Brasil, entraram  para a região de Guarapiranga, hoje Piranga e de lá alguns foram para o Estado do Rio de Janeiro, uma cidade hoje chamada Conceição do Macabu.  Em Minas Gerais, concentraram-se em três pontos: no então arraial de Nossa Senhora de Oliveira, em Dores do Turvo, em Brás Pires, todos  pertencia à vila de Guarapiranga, e, mais tarde, alguns foram para Teixeira MG. 

 

 

 



[i] Garcez Glória Alfenas, filho de Eliziário Glória Alfena e Tereza Tranquilina do Amor Divino

[ii] Adelina Maria da Encarnação, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e Izabel Maria Januária

[iii] Zelina Glória Alfenas (1892/1974) casou-se com João Camilo Milagres e passou a assinar Zelina Alfenas Milagres. O casal inicialmente morou na fazenda do Pires, na Oliveira, posteriormente passou a residir numa fazenda dentro da zona urbana da então Piraguara e alguns anos depois da emacipação do município de Senhora de Oliveira, viveu em casa nova na agora praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. 

[iv] Filho do Furriel José Ignácio da Silva Aráujo e de Rita Cândida do Sacramento

[v] Maria Alfenas (1893/1949) casou-se com Péricles Electo e passou a assinar Maria Electo Alfenas. O casal morou em Piranga-MG

[vi] Presciliana Glória Alfenas (1899/1957), mais conhecida como Peixe,  casou-se com Aristides. Magalhães e foi inicialmente morar em Santana, na região de Oliveira, e depois em Belo Horizonte. Presciliana posteriormente casou-se com Major Nilo Abranches e passou a assinar Presciliana Alfenas Abranches. .

[vii] Isabel Alfenas Vidigal (1904/1976) casou-se com Antônio Vidigal e mudaram-se para Porto Firme, então distrito de Piranga. Posteriormente  viveram em Barbacena.

[viii] Othorgamim Glória Alfenas (1896/1973) casou-se com Amélia Rodrigues Pereira e inicialmente moraram na fazenda do Felipe Alves. Mudaram-se para Senhora de Oliveira, onde moraram na hoje Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. Depois da morte de Othorgamim, Amélia mudou-se com a família para Belo Horizonte.

[ix] José Alfenas (1901/1991) mais conhecido como Duca, casou-se com Cecília Araújo Silva . O casal residiu na fazendo do Bandeira, em Ouro Preto e depois mudou-se para a zona urbana da mesma cidade. . 

 [x] Antônio Alfenas (1906/1985) casou-se com Geny Couto Alfenas e residiam na zona rural de  Alto Rio Doce- MG.

[xi]  Ao avançar no tempo, descobrimos que sua pretensão se realizou, ela teve mais duas filhas: Francisca e Aguimar, esta última pouco conhecida, pois morreu com 3 anos.

[xii] Também referida em alguns documentos  como Maria da Conceição da Silva Araújo, sendo bisneta do Furriel José Ignácio da Silva Araújo e Rita Cândida do Nascimento, da linhagem portuguesa do casal Capitão João da Silva Araújo e Quitéria Maria do Espírito Santo.

[xiii]Os católicos acreditam que se a criança  morrer sem este sacramento  ficará vagando eternamente sem a presença de Deus, tudo por um pecado que seus antepassados remotíssimos cometeram (Adão e Eva). Mas somente o limbo dos patriarcas é dogma e nesse os antigos, que viveram antes de Cristo e acreditavam na vinda do Messias, vão para um Limbo provisório

[xiv] Refere-se ao Alferes Francisco Paula Alfenas que no censo de 1830 aparece como morador de Brás Pires. Este teve vários filhos. 

 [xv] O nome original de família  Moreira Alfena  com o também passou a ser escrito com o S, ou seja, Alfenas.