por Caieira
Moravam na Rua Nova no tempo em que ela era de fato uma rua nova e de terra vermelha. Viviam numa casa simples: porta de madeira maciça de tábuas estreitas com fechadura de ferro preto e chave grande; janelas pequenas de madeira de boa qualidade com tramelas bem torneadas; a escada da frente, de seis a sete degraus, entrava metro e meio dentro da rua, e não tinha corrimãos, e seu piso era de cimento vermelho diferente do passeio que era da cor areia.
Lina: voz forte tonitruante que a fazia destacar-se em qualquer ambiente em que tivesse que emitir opiniões, e como gostava! Não negava nem confirmava a assertiva do ditado "quem tem um bom argumento não precisa gritar". Sussurrando ou falando alto ela agradava e convencia o ouvinte. Fossem quais fossem os juízos de valor que emitisse soavam bem aos ouvidos e pareciam lógicos. Tinha a voz melodiosa em que os tons sobem e descem segundo as necessidades momentâneas dela própria, do assunto e, consequentemente, de seus ouvintes.
Agripino: voz comum; um sorriso permanente cravado num rosto comprido e magro; estatura média (tinha lá seus metro e setenta o que o tornava compatível em tamanho com a esposa e com quase todos os homens do lugar). Nenhuma característica física a destacá-lo. Era o homem mais comum da cidade: média das médias.
Desciam juntos, religiosa e diariamente, do alto da Rua Nova até a Igreja Matriz e sempre entravam, sem bater ou gritar 'ó de casa!', direto na cozinha de uma amiga que morava a poucos metros da Igreja na Praça Padre José Justiniano Teixeira. Gostavam de um café quente e simples, não aceitavam quitandas. Foi ali que os conheci; e os observei; e os admirei; e fiz deles motivo de um juízo sumário, positivo e redutor: eram únicos.
Eram únicos, não apenas singulares. Eram únicos porque eram quase uma só pessoa. Fundiam-se de tal forma e dedicavam-se um ao outro, tão intensamente, que não lhes fora possível, pois a natureza é sábia, colocar entre eles um terceiro, mesmo que fosse um só filho. Casal autossuficiente; casal "o senhor é meu pastor, nada me faltará". Lina e Agripino jamais discutiam, concordavam nas pequenas e nas grandes coisas. Professavam a fé da mesma maneira e tinham a mesma compreensão dos mandamentos e filosofias da Igreja: se um tinha alguma interpretação diferenciada da escritura sagrada; o outro também a tinha. Nunca jamais se viu ou se verá neste país um casal tão uníssono e colado. A felicidade exagerada costuma chatear os semelhantes, enquanto emoção escassa que suscita inveja dos que não a têm, mas não no caso deles, talvez porque exalassem perfume. Se não afetavam os seres humanos, agrediam a concordância verbal: Lina e Agripino não são; Lina e Agripino é.
Lina não chorou quando Agripino morreu. Nem ela soube explicar, apenas comentou: "Não consigo chorar nem se eu passar pimenta nos olhos." Agripino entendeu, concordou e não reclamou.

Parabéns pelo texto.
ResponderExcluirEu também os admirava, era a inocência que se exteriorizava por meio de um casal, Lina e Agripino.
Recordo como se fosse hoje quando saí de Senhora de Oliveira para estudar no Seminário de Campo Belo. Minha mãe me levou à casa deste casal, expressão do consenso permanente, para me despedir dele, razão pela qual justificava a minha visita a eles, sempre que voltava de férias. Agripino, homem dos cabedais, das correias e das fivelas, em sua singeleza que lhe era peculiar, quando me via ia logo perguntando: tá aprendendo bem lá fora? Eu, ainda novo, não compreendia bem sua pergunta, mas respondia logo que sim, achava engraçada a maneira como me abordava, porém hoje entendo perfeitamente que ele estava correto em sua inquirição, mas talvez eu não tenha aprendido até hoje...
Edgard, você aprendeu muito mais do que o Agripino esperava, tenho certeza.
ExcluirEmbora eu não os tenha conhecido, tenho conhecimento de algumas de suas histórias e é muito bom ler sobre eles.
ResponderExcluirParabéns pelo post.