quinta-feira, 30 de junho de 2022

Biografia resumida de Edgard Alfenas (Sodiga)

 

Sodiga em foto dos anos 1950


                                                                     por  Lulu Alfenas

 

Bondade é amar as pessoas mais do que elas merecem. Joseph Joubert

Origem

Edgard Alfenas nasceu no Arraial de Nossa Senhora de Oliveira, distrito de Piranga, Minas Gerais, em 26 de junho de 1909, morreu em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, em 04 de fevereiro de 1990 e foi sepultamento em Senhora de Oliveira, em 5 de fevereiro de 1990.

Foi pecuarista, agricultor e político. Viveu em uma região de grandes mudanças políticas e socioeconômicas as quais podem ser percebidas até nas variações dos nomes da terra natal durante sua vida: Nossa Senhora de Oliveira (1909 a 1923); Piraguara (1923 a 1953) e Senhora de Oliveira (1953 a 1990).

 De família católica, foi batizado pelo Padre Jose Affonso Painhos, em 31 de julho de 1909, tendo como padrinho Sebastião Rodrigues Pereira e como madrinha Maria da Conceição Milagres Oliveira, esta filha de Alexandre Rodrigues Milagres e Francisca da Silva Araújo, esta filha de um casal pioneiro da região, Furriel José Ignácio da Silva Araújo e de Rita cândida do Sacramento.

Sodiga veio da genética Rodrigues Pereira, por parte da mãe, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira.  Por parte de Pai, sua origem mais remota no tempo, examinada apenas nos limites da região de Guarapiranga, aponta para o casal Alferes Francisco de Paula Alfena e Umbelina Roza de Jesus, que viveu na Graminha, às margens do Rio Xopotó, do lado de Brás Pires, na divisa entre os dois distritos. Segundo o censo de 1830, o Alferes tinha seis filhos. Eliziário Glória Alfena, o avô de Sodiga, nasceu nessa família depois do censo e, em 1848,  casou-se com Tereza Tranquilina do Amor Divino  com quem teve sete filhos, dentre eles Garcez Glória Alfenas, que se casou com Adelina Maria da Encarnação e com ela teve, de 1892 a 1912, nove filhos. Garcez casou-se pela segunda vez com Ana Marques Faria, com quem teve mais um filho, em 1939.

Vida privada

Em 25 de maio de 1929, Sodiga casou-se com Rita Henriques de Miranda (Sadita), filha de João Henriques de Miranda, o João da Vargem, e de Deolinda Maria da Encarnação. João da Vargem é trineto do Alferes Cláudio Joze de Miranda; e Deolinda, da linhagem de Antônio Vieira de Souza. Este é filho de Fidelis Vieira de Souza e de Maria Rita de Jesus, a velha do Fundão, cuja alcunha tem fundamento em sua longevidade, viveu 115 anos.

De 1930 a 1950, Sodiga e Sadita tiveram 11 filhos dos quais oito sobreviveram à primeira infância. Nos primeiros anos de casados, viveram em uma pequena cabana no Córrego da Graminha e, posteriormente, no  lugar denominado Vargem, onde moraram por alguns anos numa casinha da encosta leste de sua propriedade.  Neste local, ao pé de um morro, Sodiga construiu uma casa grande com quartos e dimensões suficientes para a família e, por volta de 1939, para ela se mudou. Em 1955, por força de demandas políticas/administrativas, que exigiam maior presença na cidade, mudou-se para sede do município e passou a morar numa casa na Praça São Sebastião. Ali morou por vários anos e, finalmente, mudou-se para a Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira, 64, onde viveu até sua morte, em 1990

Antes do casamento, Sodiga tinha sido tropeiro, em atividade casual, e peão, de amansar cavalos e burros. Viajou com companheiros como Zé do Alcibíades, seu primo e amigo; Deoclécio Rodrigues Pereira, outro primo; e com o irmão mais velho, Otorgamim Gloria Alfenas, este tropeiro de verdade.  Passado o período dos eflúvios da juventude e dos prazeres das viagens em lombo de burro, em que conduzia tropas de mulas carregadas com toucinho e fumo de rolo, que levava para Ouro Preto e de lá voltava trazendo cargas de sal, querosene e todo tipo de encomenda. 

E logo veio o casamento e com ele as responsabilidades, então se ateve na formação de uma família e passou a viver como pequeno agricultor plantando milho, cana de açúcar, feijão, arroz de brejo, para o comércio; e frutas de pomar e hortaliças, para o consumo da família. Na busca da sobrevivência e de alguma economia, produziu rapadura e cachaça, inicialmente em engenho puxado por cavalo, mais tarde por um tocado por roda d’água. Em paralelo a essas atividades, sua fazenda produzia também leite e creme entregues, diariamente, ao comércio do arraial.  Como a maioria dos habitantes da região, Sodiga tinha uma pequena criação de galinhas e de suínos em quantidades suficientes para sustentar a casa com carnes, gordura e ovos.  E, para contrabalançar o excesso de proteínas e da gordura suína em sua mesa, contava com horta e um pomar com goiabas, fruta de conde, jambo, laranjas e mexericas.  

Para os trabalhos na pequena fazenda de 64 alqueires e nas terras que possuía no lugar chamado buraco, na estrada de Brás Pires, contava com a ajuda de chefes de duas famílias agregadas, principalmente a do Atílio e a do Pedro Grosso. Nenhum contrato era escrito, era tudo no fio do bigode. Para completar a necessidade de força de trabalho na roça, havia sempre diaristas ou contratados por tarefas negociadas por eitos. Na maioria das vezes, o trabalho era a molhado, ou seja, o contratante tinha que fornecer almoço e café da tarde com algum complemento: broa de fubá, angu doce, cuscuz de fubá. Não havia boas alternativas: muitos afazeres para a dona da casa, pouca sustança na comida dos trabalhadores.

Vocação e vontade de poder

                        O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar outros felizes. Blaise Pascal

O fato de ser um homem de bom humor, de bem com a vida e amigo de brincadeiras, às vezes até um pouco brutas, o tornava popular e de fácil convivência. Gostava de estar perto das pessoas, talvez por isso o destino o tenha jogado para um lado extraordinário: a aventura perigosa de tratar e cuidar de doentes das redondezas. Com o passar dos anos, a cura, de quem precisava de ajuda e tinha poucos recursos, passou a ser, para ele, uma obrigação. Mantinha em casa um enorme estoque de amostra grátis que conseguia com representantes de laboratórios. Costumava indicar este ou aquele remédio para seus amigos, com comportamento no limiar da profissão médica.  Mas não se pode dizer que essa vida, fora do senso comum, tenha começado assim sem mais nem menos. De fato trata-se de uma extravagância que não surgiu de um passe de mágica, ocorreu aos poucos em doses homeopáticas. Parece que sua alma regozijava-se com a vocação, e a prática aprimorava o dom, algo que ocorreu em um processo lento, não em um episódio: isso tomou curso quando ele era chamado para aplicar uma injeção, realizar um parto, curar uma dor de barriga, espremer um berne e até desencravar uma unha.  Em paralelo às suas primeiras experiências no tratar doenças, houve um aprendizado com médicos formados, cujo processo se desenvolveu mais ou menos assim: a população confiava nele, porque ele já trazia algum conhecimento do berço embalado por sua mãe que sabia curar com chás e raízes. O fato é que Sodiga era chamado para qualquer episódio de doença, mas muitas vezes acontecia de o caso ser mais grave e superior às suas possibilidades, nestas ocasiões, ele mandava chamar o médico ou ia pessoalmente buscá-lo — chegar nele para pedir um favor não causava nenhum constrangimento —.  Criou-se o hábito de ele ser intermediário entre o doente e o doutor. Aos poucos, fez amizade com os médicos e os acompanhava, seja porque não conhecessem as estradas de Piraguara, seja porque tivessem medo das noites escuras e assombrações, em que ele próprio acreditava e as via. Os médicos tornaram-se companheiros de viagens e de noites varadas em estradas esburacadas e poeirentas e, na invernada, cobertas de lama.  Entre obstáculos e enfrentado a friagem das madrugadas, Sodiga observava a atuação dos médicos e adquiria conhecimento prático para o atendimento profilático (tratamento preventivo, sendo utilizado para designar algo capaz de prevenir ou atenuar determinada doença) sendo que assim agia sempre que não houvesse a possibilidade da presença de um médico. Dr. Liberato Miranda, de Rio Espera, foi sua grande amizade e inspiração. Já em 1945 se tornaria seu compadre ao fazê-lo padrinho de um dos filhos. Nesta época, em que a medicina era um bem escasso na região, o médico mais próxima vivia a mais de 20 quilômetros do arraial de Piraguara, e nem sempre estava em casa ou disponível.  A vida estava sempre por um fio, caso a doença chegasse com força. Era comum encontrar-se com essas duas figuras pelas estradas: Dr. Liberato montado em mula boa de sela, e Sodiga, em de burro, ou no seu alazão, no caso de viagens curtas. Percorriam léguas para socorrer os que não podiam ser levados ao médico. Mais tarde, com Sodiga já na política, Dr. Liberato mudou-se para Saúde–MG e depois para Divinópolis-MG, deixando um grande vazio no atendimento médico da região, mas a lacuna foi logo preenchida por Dr. Solom Ildefonso, um excepcional clínico morador de Piranga.   Com este, Sodiga compartilhava mais do que curar, a caridade silenciosa e a franqueza com os mais necessitados.  Quantas vezes não se ouviam Dr. Solom bronqueando com o paciente: — Você não tem nem como comprar comida, como quer me pagar! — Dr. Solom foi uma grande influência em sua vida, e ambos pendiam para a empatia com os mais pobres. A presença de Dr. Solom em Senhora de Oliveira aumentou depois que Sodiga assumiu a Prefeitura Municipal.

Vida política

Em 12 de dezembro de 1953, o arraial foi emancipado e, no ano seguinte, haveria eleições.  Em 1954 enquanto o município era governado por intendentes nomeados por JK (foram dois), Sodiga era jogado no meio do burburinho, desta vez o da política, em que entrou de corpo e alma. A decisão foi incentivada e depois apoiada por João Camilo Milagres, seu amigo e cunhado, casado com sua irmã Zelina Alfenas Milagres.  Para se tornar candidato, teve que sair de seu partido de origem, O PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas, e ingressar no PR – Partido Republicano. de Clóvis Salgado que apoiava JK em nível estadual.  Rompia-se assim, em nível nacional, com Getúlio Vargas (o que significava pouco, pois aquele, provavelmente, nem sabia se Sodiga e Senhora de Oliveira existiam quando deu um tiro no peito, em agosto de 1954) e, localmente, afastava-se de grandes amigos como Francisco Inácio Milagres de Araújo, o Chico Inácio; Temístocles Milagres da Silva, Dodô; e Franklin Francisco Vieira de Souza, Franklin Fidelis, (o que significava muito, por causa de amizades e laços de família). O que mais lhe doeu foi não ficar do lado político do grande amigo de infância, primo e compadre José Rodrigues Lana, popularmente conhecido como Zé do Alcebíades. Muitas foram as perdas neste sentido.  Sodiga aprendeu logo que marcar posição política exige estômago forte e vontade de poder, pois costuma atrapalhar as relações com pessoas amigas, mas teve que enfrentar este amargo afastamento de muitos da UDN – União Democrática Nacional, de tendência conservadora, e do PSD – Partido Social Democrata, da direita moderada, que numa coligação estranha, aqui se beijavam enquanto no resto do país digladiavam-se.  Contudo, nenhuma dessas perdas teve a dimensão da morte, em 13 de junho de 1954, de seu amigo, cunhado e companheiro de partido, Joaquim Inácio da Silva Araújo Sobrinho, o Quinzinho Inácio.

Mas a jornada política tinha que continuar, e abraçado a João Camilo Milagres, que, naqueles dias de campanha, saboreava a recente vitória de seu filho, José Milagres Araújo, que se elegera no ano anterior prefeito de Piranga para mandato (1954 a 1958); a Tomé da Silva Araújo, José Rocha da Silva, o Duca Rocha; a José Pedro da Silva Araújo; a Sotero de Souza; e entre tantos outros. Externamente o PR tinha boa estrutura com Ciro Maciel, deputado estadual, natural de Piranga, e João Nogueira de Resende, deputado federa. Assim com bons alicerces, Sodiga estreou bem e foi eleito prefeito de Senhora de Oliveira tendo como vice Francisco Condé. Resultado: a chapa venceu o excelente candidato da coligação adversária, o farmacêutico Wolney Carlos Marcenes, por minguados 64 votos de vantagem, contudo, suficientes para levá-lo ao mandado tampão de três anos, de 1955 a 1958.

Sua posse, em 1955, teve festa para a qual contratou os serviços da pensão da competente Maria Gomes, que preparou tudo para impressionar as autoridades e o povo: comida típica das festas da região: leitoa assada com direito a maçã na boca; tutu de feijão preto; carne de frango, macarronada coberta com queijo ralado e ovos cozidos; e para beber, muita cerveja e alguma cachaça. As pompas da comemoração carregavam muitos significados e emoções: o orgulho da autonomia alcançada, agora cristalizada com a autoridade local consagrada pelo voto popular; o efeito afrodisíaco da vitória que derrubava as forças, que segundo a visão dos vencedores, eram muito conservadoras e que haviam dominado a região durante anos.   O Certo é que além do sabor da vitória para o mandato de 1955 a 1958, havia a alegria de escrever, no rodapé da história do município, os feitos do PR na primeira eleição para prefeito municipal.     

A experiência dessa primeira vitória, somada às qualidades das lideranças do partido, responsáveis pela manutenção do espírito de grupo até a próxima eleição, que se realizaria em 1957, foram os principais ingredientes que elegeram Tomé da Silva Araujo para o mandato de 1958 a 1962. Tomé, por sua vez, fez um excelente governo e tornou ainda mais fácil a volta de Sodiga para um segundo mandato, de 1962 a 1966. A partir de 1964, já instalada a ditadura militar no Brasil, Sodiga foi para a ARENA, mas o espírito de união do antigo PR sobreviveu a essas mudanças e contribuiu para a eleição de José Luís de Senna Pereira (1966 a 1970) e, no curso da história local, Sodiga teve papel fundamental na eleição de seu filho, José Geraldo Alfenas, o Zé de Sodiga, para o mandato tampão de 1971 a 1972.

A hegemonia política de Sodiga, como puxador de votos de prestígio popular, tornara-se visível naquelas primeiras décadas após a emancipação do município. Mas o diferencial político evaporou-se quando surgiu, como adversário, José Maria da Silva, um candidato que reunia muitas qualidades e que tinha o mesmo estilo e ferramentas: o atendimento à saúde e a farmácia. Zé Maria tinha sido um companheiro político dos tempos do PR e abriu seu próprio caminho na busca de realizações e liderança. Sodiga, com 64 anos, já não exibia a mesma energia e destreza política que o projetara. Ao sair do grupo que formara o PR, ele próprio determinou seu declínio político. Daí para frente foi eleito vice de Vavá uma vez, mas já não havia o romantismo e a alegria da trajetória iniciada nos anos 50 e encerrada nos anos 70, passou a ser coadjuvante, e outros agora teriam o protagonismo.

Legado

            Morrer rico é muita falta de imaginação. (José Carvalho, da  FERBASA)

Sodiga teve seu patrimônio tangível reduzido por causa da política. Suas perdas financeiras mais significativas aconteceram porque ele decidiu avalizar pessoas “amigas”, numa época em que alguns deles se aventuravam em negócios sustentados por empréstimos com juros altos. Em política isso costuma virar uma bola de neve incontrolável. O resultado dessas estripulias financeiras apareceu em 1970 quando teve que vender a fazenda da Vargem para saldar valores de sua hipoteca, sobraram-lhe alguns minguados valores a receber em suaves prestações pagas pelos compradores da fazenda da Vargem.  Nessa altura de sua vida pública, a fazenda já lhe rendia pouco e as dívidas tinham que ser saldadas. Essa perda não o abalou muito, o importante é que a família já estava criada, e ele tinha condições para viver com simplicidade e dignidade.  A riqueza, que nunca teve, ao que parece, não fazia parte de seu critério de sucesso. Sua felicidade nunca esteve ligada a contar dinheiro; talvez, sim, em contar curas e; depois que se apaixonou pela política, amigos e votos.


Legado ao município.


Fique satisfeito em fazer o bem e deixe que os outros digam o que quiserem

Pitágoras 

Um prefeito deixa sua marca segundo suas prioridades e limitações financeiras dos cofres da prefeitura que reduzem muito o foco das escolhas Em 1955 o cenário não era dos mais favoráveis: ruas precisavam ser calçadas, água potável devia chegar às casas das praças e ruas abertas na lateral da cidade (a cidade alargava-se para os lados do Ribeirão da Oliveira) e às ruas mais altas do povoado. Sem transportes adequados, as regiões mais distantes necessitavam de escolas mais perto das crianças. Não se pode dizer que a antiga sede, Piranga, tenha abandonado os seus distritos, mas arraial é sempre arraial, e seu peso político é sempre menor do que o da sede; destarte, tudo estava por fazer. Em suma: pouco dinheiro para muita obra é o que o prefeito da cidade recém-emancipada tinha que enfrentar.  Então restava muito cuidado nas escolhas de prioridades, e elas ocorreram no governo de Sodiga em escopo reduzido: Saúde, Saneamento básico e educação.

Sua eleição consagrou a saúde como o bem maior a ser buscado pelo poder publico do município. Todos o conheciam por levar os doentes mais graves para serem tratados nos hospitais de BH, o que acontecia muito antes de 1953, e logo que assumiu “poder”, colocou a prefeitura dentro dessa filosofia. Naquela época, a prefeitura não tinha sede própria nem carro, só uma carroça e o um burro, e pouquíssimos empregados. Mas como o prefeito colocava a vida em primeiro plano, alugava um jipe e levava os doentes mais graves para BH, e, muitas das vezes, eles tinham que ficar em pensões do Bairro Santa Efigênia, ou na casa de sua irmã Presciliana Alfenas, Peixe, e depois da morte desta, foi substituída pela sua filha, Celi Magalhães Fidelis que juntamente com a irmã Glória tinham a mesma paciência e bondade da mãe.  Além disto, essa casa em Santa Tereza foi, durante décadas, o porto seguro para muitos parentes que chegavam a BH de mudança.  Se todos que por ali passaram como estudantes, visitantes ou hóspedes temporários, somassem suas gratidões num espaço físico, se poderia lotar o Mineirão de beijos e abraços. Peixe e suas filhas são partes fundamentais da vida de Edgard Alfenas, assim como de muitos outros parentes e amigos delas.

Com tantas vindas a BH para implorar internações, com pouco tempo Sodiga passou a ser reconhecido e favorecido por enfermeiras, médicos e diretores de hospitais da região hospitalar de BH, que perceberam seu desapego e ajudavam-no.

Em seu segundo mandato, conseguiu que Dr. Moacir Salim se mudasse para Senhora de Oliveira, e a população finalmente pode contar com um médico mais próximo de casa.

As intervenções urbanas contemplaram só o essencial: no primeiro mandato, a prefeitura trocou a tubulação , ampliou a rede de distribuição da água captada nos montes ao sudeste da cidade para uma pequeno depósito  próximo ao  Morro Cavado; comprou um imóvel onde instalou a sede da prefeitura. Construiu duas pontes, uma de concreto para a saída de Piranga, outra de madeira para a saída de Brás Pires. 

No segundo mandato, construiu uma nova caixa d’água na limeira. Quase todas as ruas do centro receberam novas tubulações e estabeleceu-se um limite de gasto e forma de cobrança baseado no critério de através da chamada pena d’água.  Em Santana de Piraguara foi construído um grupo  escolar.

As causas do rompimento com o grupo PR

Surgiu um problema político durante o mandato de José Luiz de Senna. Nem tudo que ocorreu naquela época chegou a ser revelado e, com a morte dos protagonistas, pouco se sabe a respeito. Os bastidores da política, por menor que seja o município, jamais chegam com clareza aos eleitores, e aqui cabe o ditado popular, “lugar pequeno inferno grande”.  Alguns acontecimentos, daquela época, nem os cabos eleitorais entenderam com clareza. O certo é que José Luiz de Senna e Sodiga se desentenderam. Não se sabe se a morte de João Camilo Milagres, em 1968, o grude que unia o partido, teria sido o que faltou para que não houvesse essa distensão. O que parece mais visível, é que a polêmica em torno da luz elétrica teria dado origem à pendenga.  A cidade vinha de um apagão. Ruas e casas escuras. Mas havia uma decisão a ser tomada. Sodiga defendia a manutenção da Usina (que fora de Piranga), mas o novo prefeito, e o grupo que o acompanhava queriam abandonar a ideia de manter a usina velha, só a CEMIG resolveria. Ao usar um argumento verdadeiro, de que o preço da eletricidade iria subir e a tornaria inacessível para a população mais pobre, Sodiga encontrou uma forte oposição interna em “seu” grupo que, com sobra de razões, achava que o progresso da cidade não ocorreria sem eletricidade mais potente. Não houve interesse em conciliar as duas correntes, e Sodiga rompeu com o grupo, ou vice-versa.  A posição de José de Senna, com bastante apoio popular, foi vitoriosa e a Luz de CEMIG foi inaugurada durante seu governo, com pompas e fogos. Na cerimônia não havia a presença de Sodiga.  Destarte José de Senna teve que marchar sozinho na eleição seguinte ao seu mandato, e então apoiou Sebastião Veloso Primo, um homem de bem e bastante popular, mas que não tinha estrutura partidária para a campanha, o que deu a vitória a um filho de Sodiga, José Geraldo Alfenas que teve  como vice Tonico Bernardes, num mandato tampão de dois anos, os quais nem cumpriu na totalidade, devido a um acidente automobilístico que o afastou do trabalho por quatro meses. O esfacelamento do grupo que havia sustentado a política e elegera prefeitos por quinze anos consecutivos, de 1954 a 1972 levou a vitória de José Maria da Silva, um homem também dedicado à saúde,  que fez prevalecer o sucesso daqueles que atrelaram, até então, saúde com votos. E assim, as mesmas condições que haviam elegido Sodiga tiraram-lhe o poder na política. 

Morte

                       A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes da morte. Osho                                 

A partir da metade dos anos 1980, Sodiga viu-se às voltas com problemas de saúde: a pressão sanguínea alta e as dificuldades de controlá-la.  Entre derrames e isquemias, sua vida se esvaia aos poucos, e a doença o tirou das ruas e do convívio social. Já em 1988, tinha dificuldades para andar. Permaneceu na cama por meses até que, em fevereiro de 1990, foi hospitalizado em Conselheiro Lafaiete, onde faleceu com septicemia devido a complicações urológicas.

— Sodiga praticou uma humildade incrível, com uma entrega total no servir o próximo — foi o que disse Monsenhor José Justiniano Teixeira, em 5 de fevereiro de 1990,  na homilia durante a missa de corpo presente. O então prefeito municipal, Osvaldo Heleno, subiu ao altar para anunciar que havia decretado  três dias de luto municipal.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Batismo

                                          Trecho do livro Os Berdamerdas, por Lulu

Adelina Maria da Encarnação 






Se um dia lembrar que tudo na vida passa. Lembre-se que eu passei com uma enorme vontade de ficar. (Autor desconhecido)

                       


Depois de adiado por duas vezes, o batizado aconteceu no domingo, dia 31 de julho de 1909, conforme o desejo da mãe e a disponibilidade do pároco.  Após o “dominus vobiscum” e terminada a missa em latim, o padre dirigiu-se à sacristia vestido com uma alva branca e uma estola da mesma cor com símbolos católicos dourados.  Ali ele era aguardado pelo pequeno Edgard, os padrinhos, seus pais e todos da ninhada de Garcez Glória Alfenas [i]e Adelina Maria da Encarnação[ii], e não eram poucos, quatro irmãs e três irmãos que, com o tradicional bilu-bilu, entretinham-se com o bebê da vez. Um frio úmido penetrava pelas frestas da porta de madeira, que ligava a sacristia ao tablado do altar, propagava-se por todo o cômodo e saía pelas janelas laterais em corrente gelada que aumentava a sensação de desconforto. O pequeno Edgard chorava. Adelina tirou o próprio mantô e o enrolou na criança, “tenho medo da febre amarela”, pensou. Não havia motivos para tal, a febre amarela não se propaga pela friagem e, ademais, essa peste não chegara à Oliveira, onde não havia o vetor, um mosquito que estava atacando Sorocaba, em São Paulo, e também as regiões do norte do país, principalmente as cobertas pela floresta amazônica.  O padre percebeu o incômodo que a brisa causava e reagiu:

— Desculpem-me, vou mandar arrumar estas janelas, as gretas tornam o ambiente quase insuportável nos dias de frio. Esta capela já está muita velha, cupins atacam a estrutura de madeira, o sol bate pouco aqui dentro e os cômodos são escuros e úmidos. Nós já estamos preocupados com isso, precisamos angariar fundos para a construção de uma igreja mais ampla, mais condizente com o tamanho de nosso povoado que, graças a Deus, tem crescido muito nos últimos anos.

Vendido o seu peixe, o padre fechou a porta da sacristia o que interrompeu a corrente de ar.  O Lugar ficou mais agradável.

Enquanto o padre falava, os padrinhos e alguns poucos convidados admiravam a beleza das crianças e de como se vestiam bem: Edgard vestia branco, como recomenda a tradição; e as demais criança, trajes feitos pela própria mãe,  com chitas e brins comprados no comércio de Piranga.    Zelina[iii], Já mocinha com seus 17 anos, destacava-se pela beleza. Fácil lhe fora atrair um bom partido, diziam, moço bom e de berço, filho do Major João Camillo da Silva Araújo[iv], este um homem de destaque na Oliveira, pelo título e pela riqueza, com muitas terras no córrego do Pires.  Maria[v], com 15 anos, já caprichava na faceirice e tinha o sorriso mais lindo da região; Presciliana[vi], com 10 anos, que nessa altura já havia assimilado o apelido, Peixe, estava naquela idade da difícil escolho: com quem ando? A menina passava pela idade em que não sabe se se comporta como criança, ou adolescente. Sendo precoce em sentimentos profundos, já demonstrava um carinho especial pelas irmãs e irmãos; Isabel[vii], com 5 anos, brincava  com os irmãos, e era muito paparicada por todos eles. Dos homens, Othorgamim[viii] era o mais velho, 13 anos, e o seguiam o pequeno José[ix], Duca, com 8, e o Antônio[x] que aos 3 anos perdera o favoritismo de caçula, vantagem que não chega a ser grande coisa em famílias de tantos filhos. Neste dia especial para eles, Edgard rodava de colo em colo e já arriscava um leve sorriso quando o carinho das irmãs lhe chegava por um leve toque no rosto.

De repente todos se voltaram para pia batismal. O sacerdote dava início aos rituais, sempre fundamentais para o crescimento da fé dogmática e manutenção da igreja. Antes de ministrar o sacramento, o sacerdote fez uma breve homilia:

— Meus filhos e filhas, o batismo nos traz à presença de Deus que nos protege. Assim como uma mãe zelosa dispõe de suas vestes para proteger o filho contra os males que a brisa fria da manhã pode lhe trazer, assim também, Deus, através de seu filho Jesus Cristo, nos traz, pelo sacramento, a proteção contra o mal que já nela se instala na alma desde o nascimento, o pecado original — “é esperto o padre”, pensava Garcez, “aproveitou-se da brisa e da proposital cacofonia para vender seu peixe e nos lembrar de pagar as janelas e portas”, o padre continuava — O Batismo, meus caros pais e meus amigos padrinhos, é o abraço de Deus que vai além de resguardar, purifica a alma da criança que nasce marcada com esta sombra do mal que é o pecado herdado de Adão e Eva por haverem comido do fruto proibido. Com o batismo, esta pequena criança fica pronta para os feitos da humanidade e já é completa em sua potência, e que Deus lhe dê um bom destino e que, nesta terra, possa ser útil aos seus iguais.

Adelina respondeu com um ressonante — amém! — a demonstrar fé absoluta nas palavras do padre e no destino do filho.  Na pujança de seus trinta e dois anos, a respeitável dama já tinha personalidade amadurecida para apresentar os traços que revelavam sua força interior. Essa a combinar com a parte física: braços fortes, rosto largo, faces marcadas por sucos bem definidos e profundos. Sua pele clara, mesmo lesada pela exposição continuada ao sol e a chuva, tinha uma proteção natural, talvez pela ingestão de frutas e legumes em abundância. Possuía todos os sinais de mulher forte e despojada: cabelos lisos, penteados rente ao coro cabeludo, quase grudados, davam-lhe uma aparência robusta e fora dos padrões femininos da época e lugar: o queixo carnudo, a boca encurralada por traços que lhe fechavam o semblante e a tornavam com feições mais sérias do que a sua natureza de fato o era. Tinha o ar de severidade exagerada, o semblante quase carrancudo. A dureza, impressa em sua figura enquanto permanecia séria e quieta por razões das preocupações, esmaecia-se completamente quando ela falava, sorria ou brincava. Tinha a voz aveludada e seus argumentos eram sempre bem elaborados. Suas palavras carregavam significados de esperança e compreensão para com o próximo e os mais necessitados, de meiguice contagiante. Sua bondade ecoava além do Felipe Alves, onde criava seus sete filhos e agora um bebê e pretendia ter mais[xi]. Tinha origem católica pela fé e pela genética: era filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e de Izabel, esta, segundo o conhecimento oral, era filha do padre Manoel, um antigo vigário de Capela Nova das Dores, pelos idos de 1880, e de Ana Carolina, filha de gente simples do lugar.

Garcez não prestara atenção às últimas palavras do pároco, fixara-se no que ele dissera sobre a construção da igreja, isso despertara seu espírito irrequieto, cético e crítico que divagava a respeito: “esta matriz não está tão velha assim, eu mesmo contribuí para sua construção que terminou em 1894. Na verdade, ela levou nove anos para ficar pronta. Tanto tempo se deveu à falta de dinheiro e também a que uma parte do que se arrecadara para este fim tenha sido aplicada na construção de outros bens da igreja, alguns não tanto terrenos”. Eu me lembro de que havia pleitos dos bispos e padres no sentido de dar prioridade a outras construções. A população discordava, queria mesmo era ver a igreja pronta. Os mais atrevidos reclamavam e xingavam o padre de plantão, alguns deles residiam em Piranga e pouco vinham à Oliveira. Mas tudo acabou bem, o medo da excomunhão pesou mais do que as convicções desses ou daqueles beatos. A Sacristia podia estar ruim”, Garcez continuava a pensar “mas não é caso para se abandonar uma igreja dessas, tão bonita. Este padre deve estar meio lelé da cuca. Esta igreja não tem nem vinte anos. Nós, que temos dinheiro curto, fazemos nossas casas para durarem cem anos ou mais, e o padre, que pode contar com muitas espórtulas, leilões de gado e até com verbas do vaticano, fica inventando de melhorar o que já está muito bom”. A bem da verdade, a construção da igreja, onde agora pisavam, havia passado pelas mãos de três vigários, e a demora dependia não só de recursos financeiros, mas de encontrar artistas para as pinturas de paredes e tetos, estes sempre davam preferência as obras maiores e de lugares mais ricos, como Mariana e Ouro Preto. Enquanto Garcez distraía-se com suas elucubrações, o padre avançava na cerimônia e logo o convocou os padrinhos e os pais para se achegarem mais perto, uns para segurar velas, outros a criança. 

Qual o nome do padrinho?

— Sebastião Rodrigues Pereira

— e da Madrinha?, Perguntou o padre,

— Maria da Conceição Milagres Oliveira[xii]

E o padre exerceu sua autoridade:

— Seu Garcez, pega a vela, pega a bendita vela! Acenda-a, seu Garcez! Aproxime-se mais, isso, mais perto do menino. 

A madrinha pegou o pequeno Edgard no colo e o levou até a pia batismal e o padre derramou, com uma jarra, a água sagrada em sua cabeça, dizendo as preces do batismo:

—Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Tal gesto representa vida nova e confirma que a criança está batizada e fora do grande risco de ir para o limboxiii . E assim, num ritual com pouco óleo, muita água e rezas, consumou-se o sacramento.

Terminada o rito, os pais e os padrinhos assinarem o livro de batismo e juntamente com as crianças saíram da sacristia para o altar de onde ganhariam a rua.  O padre tirou a alva e a estola e, como um soldado que se despe de uma pesada farda, sentiu-se desobrigado da atitude circunspecta e do poder que a  igreja lhe investe, e sem aquele ar de superioridade eclesiástica, disse:  

 

— Seu Garcez, mata a curiosidade deste pobre ignorante. Esse seu sobrenome, Alfenas, vem de quê? Afinal, de onde vocês são?

 

Garcez começou por explicar o “S” de seu sobrenome:

 

— Alfena, esse é que deveria ser o nosso sobrenome, mas meu avô, o Alferes Francisco de Paula Alfena foi quem pluralizou o sobrenome a partir de meu pai Eliziário, que o registrou como Alfenas. Agora eu e meus irmãos estamos batizando nossos filhos e filhas com grafia nova.

 

O padre queria saber das origens:

 

— Bem, Seu Garcez, mas então, e o Alfena no singular, de onde vem e o que significa?

 

Garcez respondeu sem pestanejar:

 

— Vem do lugar de onde nosso antepassado veio. Quando ele migrou para o Brasil, já trouxe o nome Alfena pronto em homenagem à freguesia de Alfena, que fazia e faz até hoje parte da cidade de Valongo, na região do Porto, em Portugal. Não há dúvidas quanto a isso, mas o nome daquela freguesia teve origem, na idade média, de uma palavra árabe que se refere a uma árvore que serve para fabricar tinta. O arbusto tem o nome de alfeneiro e a flor é chamada de Alfena. Mas nós, os Alfenas, daqui da Oliveira, estamos mais para berdamerda do que para flor que se cheire. — concluiu com uma boa risada.

 

O padre parecia se divertir e disse:

 

— Olha! Olha! Vivendo e aprendendo! E eu que pensava que esse nome viesse da cidade chamada Alfenas, aqui do sul de Minas. 

 

Garcez interveio:

 

— Mas, Padre, nisso o senhor não sabe da missa a metade, é exatamente o contrário, o nome daquele lugar é que veio da família Martins Alfena. Olha, daqui de nossa terra são originário também de Portugal, como aqueles, mas só que somos de origem dos Moreira Alfena, muita confusão se fez porque lá no sul de Minas havia um Francisco e aqui também outro, mas nem parentes eram. [xiv],

 

O padre deu uma gargalhada inesperada e, totalmente fora do contexto, disse espalhafatoso:

 

— Pois que não é! Pois, pois, pois!

 

E, de maneira brusca, encerrou a conversa e se foi. Garcez, que já estava a gostar da conversa, ficou um pouco aborrecido, pois o padre não lhe dera a oportunidade de informar que os antepassados dos Moreira Alfena[xv], que vieram para o Brasil, entraram  para a região de Guarapiranga, hoje Piranga e de lá alguns foram para o Estado do Rio de Janeiro, uma cidade hoje chamada Conceição do Macabu.  Em Minas Gerais, concentraram-se em três pontos: no então arraial de Nossa Senhora de Oliveira, em Dores do Turvo, em Brás Pires, todos  pertencia à vila de Guarapiranga, e, mais tarde, alguns foram para Teixeira MG. 

 

 

 



[i] Garcez Glória Alfenas, filho de Eliziário Glória Alfena e Tereza Tranquilina do Amor Divino

[ii] Adelina Maria da Encarnação, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e Izabel Maria Januária

[iii] Zelina Glória Alfenas (1892/1974) casou-se com João Camilo Milagres e passou a assinar Zelina Alfenas Milagres. O casal inicialmente morou na fazenda do Pires, na Oliveira, posteriormente passou a residir numa fazenda dentro da zona urbana da então Piraguara e alguns anos depois da emacipação do município de Senhora de Oliveira, viveu em casa nova na agora praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. 

[iv] Filho do Furriel José Ignácio da Silva Aráujo e de Rita Cândida do Sacramento

[v] Maria Alfenas (1893/1949) casou-se com Péricles Electo e passou a assinar Maria Electo Alfenas. O casal morou em Piranga-MG

[vi] Presciliana Glória Alfenas (1899/1957), mais conhecida como Peixe,  casou-se com Aristides. Magalhães e foi inicialmente morar em Santana, na região de Oliveira, e depois em Belo Horizonte. Presciliana posteriormente casou-se com Major Nilo Abranches e passou a assinar Presciliana Alfenas Abranches. .

[vii] Isabel Alfenas Vidigal (1904/1976) casou-se com Antônio Vidigal e mudaram-se para Porto Firme, então distrito de Piranga. Posteriormente  viveram em Barbacena.

[viii] Othorgamim Glória Alfenas (1896/1973) casou-se com Amélia Rodrigues Pereira e inicialmente moraram na fazenda do Felipe Alves. Mudaram-se para Senhora de Oliveira, onde moraram na hoje Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. Depois da morte de Othorgamim, Amélia mudou-se com a família para Belo Horizonte.

[ix] José Alfenas (1901/1991) mais conhecido como Duca, casou-se com Cecília Araújo Silva . O casal residiu na fazendo do Bandeira, em Ouro Preto e depois mudou-se para a zona urbana da mesma cidade. . 

 [x] Antônio Alfenas (1906/1985) casou-se com Geny Couto Alfenas e residiam na zona rural de  Alto Rio Doce- MG.

[xi]  Ao avançar no tempo, descobrimos que sua pretensão se realizou, ela teve mais duas filhas: Francisca e Aguimar, esta última pouco conhecida, pois morreu com 3 anos.

[xii] Também referida em alguns documentos  como Maria da Conceição da Silva Araújo, sendo bisneta do Furriel José Ignácio da Silva Araújo e Rita Cândida do Nascimento, da linhagem portuguesa do casal Capitão João da Silva Araújo e Quitéria Maria do Espírito Santo.

[xiii]Os católicos acreditam que se a criança  morrer sem este sacramento  ficará vagando eternamente sem a presença de Deus, tudo por um pecado que seus antepassados remotíssimos cometeram (Adão e Eva). Mas somente o limbo dos patriarcas é dogma e nesse os antigos, que viveram antes de Cristo e acreditavam na vinda do Messias, vão para um Limbo provisório

[xiv] Refere-se ao Alferes Francisco Paula Alfenas que no censo de 1830 aparece como morador de Brás Pires. Este teve vários filhos. 

 [xv] O nome original de família  Moreira Alfena  com o também passou a ser escrito com o S, ou seja, Alfenas. 

domingo, 12 de julho de 2020

Bom dia Berdamerda!


 (Trecho do livro Os Berdamerdas) 
Por Lulu

A neblina mal se dissipara naquela fria manhã, havia ainda muito orvalho nas margens do ribeirão e nas dobras das encostas que circundavam o arraial de Piraguara. Um sol preguiçoso, quase apagado, levantava-se por trás das terras do patrimônio da Igreja. Um cavalo a galope, vindo dos lados de Brás Pires, atravessou a ponte da Rua do Sapo e entrou no arraial. O tropel sobre a plataforma de madeira ecoava longe sem encontrar resistência de ventos contrários e sem se misturar e confundir-se com outros ruídos; a maioria dos moradores dormia, alguns levantaram a cabeça e resmungaram — que diabo é isso, a essa hora! — mas logo buscaram o travesseiro e esqueceram-se do pequeno estorvo. O cavaleiro de cútis branca, baixa estatura e de olhos claros parecia ter pressa, mas manteve o hábito de distribuir cumprimentos efusivos para os minguados transeuntes, madrugadores que se encontravam na rua àquela hora:
— Bom dia berdamerda! Como vai? Tudo bem? 
Em questão de minutos, o cavaleiro percorreu a rua comprida que deságua numa grande praça, onde um casarão cedia um dos cômodos do andar de baixo para o funcionamento do cartório distrital. Apeou, atravessou o passeio que se estende por toda a fachada da casa e entrou no pequeno cômodo de uma porta só, parou junto à grade de madeira colonial, que impedia o visitante de entrar na parte reservada aos oficiais, e, finalmente, dirigiu-se ao ajudante de escrivão:
— Bom dia berdamerda! Você continua com essa mania de pegar serviço cedo?
O ajudante de escrivão olhou-o de soslaio, com olhos inchados de mal dormir, ressaca acumulada de muitas noites mal bebidas e cachaças mal dormidas, e, agindo como quem já se acostumara à irreverência no cumprimento daquele cavalheiro, perguntou:
— Então, nasceu mais um bacuri por lá?
O homem, que acabara de entrar, respondeu sem se ofender com a maneira desrespeitosa com que o barnabé se referia ao filho recém-nascido e disse:
— É, nasceu. Pelo jeito, você anda a espiar a barriga de nossas mulheres. Será que é pressa de ganhar nosso rico dinheiro no registro das crianças ou é só a feia mania de cuidar das crias alheias? — E continuou, sem se importar em atravessar o assunto, sinal de que nem ligava muito para o que acabara de dizer.
— Não se engane, este vai ser um grande homem!
— Grande nessa família de baixinhos? Acho difícil. Alfenas, alto?  É mais fácil galinha nascer dente.
Garcez retrucou: — Por acaso eu disse que ele seria um homem grande, ou você não entende a diferença entre um grande homem e um homem grande?
Depois de proferir aquele abuso quase cordial, o barnabé ajeitou-se em sua cadeira surrada enquanto pensava no que acabara de ouvir; não entendia bem a diferença, mas deixou pra lá.  Buscando melhor posição, curvou-se como um arco sobre o livro de nascimentos que descansava sobre a mesa. Voltou-se enquanto falava para o pai da criança:
— Tem nome?
— É claro!— Respondeu Garcez e completou com ênfase: — Vai se chamar Edgard Alfenas, com d mudo no final, entendeu? Não deixe de anotar esse “d” no final. Não quero filho meu com nome sem rabicho certo por causa de sua ortografia fajuta.
O ajudante de escrivão olhava-o nos olhos enquanto, em tom mais sério ainda, atiçava o fogo da indelicadeza que entre eles parecia natural:
— Não sei o que dá na cabeça de vocês dessas roças, inventando nomes difíceis, por que não chamar o menino de José, Antônio, ou outro nome mais comum? Por que não dar um nome religioso ao novato?
Garcez chateou-se com o enjoado do ajudante de escrivão e  tornou-se ríspido:
— Você não passa mesmo de um João-ninguém. Primeiro, que lá em casa já nasceram o José e o Antônio; segundo, não há lei que me proíba de dar os nomes que quero aos meus. Então, feche essa matraca e vai anotando aí!
O ajudante sentiu que o limite da tolerância e da aceitação de insolência estava nas bordas, deu sequência às perguntas de praxe e, a cada resposta, atolava a caneta tinteiro numa pequena vasilha e a tirava, sem respingos, exibindo-se para chamar a atenção sobre sua boa caligrafia:
— Pai: Garcez Glória Alfenas; Mãe: Adelina Maria da Encarnação; avós paternos: Eliziário Glória Alfenas e Tereza Tranquilina do Amor Divino; avós maternos: João Bonifácio Rodrigues Pereira e Isabel Maria Januária. Data de Nascimento: 20 de junho de 1909; cútis: branca; olhos: azuis; local de Nascimento: Felipe Alves, no distrito de Piraguara; Comarca de Piranga, registrado pelo pai, Garcez Glória Alfenas.
Terminado o protocolo, o ajudante de escrivão, num gesto inesperado de explícita cordialidade, dirigiu-se a uma prateleira dos fundos do cômodo, retirou um charuto de uma caixa de madeira bem acabada e o ofereceu ao cliente:
— Toma, mas vê se não se acostuma, não é todo dia que eu gasto um importado com um amigo e, ademais, nossa velha Oliveira de Piranga não precisa de tantas crianças. 
Garcez agradeceu a gentileza com um gesto de mesura, pediu emprestada ao ajudante de escrivão sua binga, tirou lasca na pedra até produzir a faísca necessária para que o chumaço de algodão pegasse fogo, assoprou para avivar a combustão que se espalhava sobre a pequena almofada do acendedor, apertou ali a ponta do charuto, tirou uma baforada e abriu um largo sorriso enquanto dizia:
— Charuto bom! Agora sim, estou reconhecendo o dedo de meu velho amigo Cardoso por trás de sua contratação como ajudante de cartório, muito obrigado mesmo! Depois eu o recomendo ao chefe.
Mesmo neste momento de maior agrado, o ajudante não deixou de resmungar:
 — E eu preciso lá de recomendação para me manter numa porcaria de emprego desses!
Garcez não ouviu bem o que ele dizia. Pitou mais um pouco, por cortesia com o barnabé, preferia cigarros de palha.  Apagou o charuto no tampo de uma velha viola que, encostada à parede, ali se postava há anos sem serventia alguma. Pensou: “pelo menos pra isso serve essa diabinha!”. Despediu-se do barnabé e saiu em direção à casa paroquial. Andou alguns passos e viu o Padre José Afonso Painhas que vinha em direção oposta com os olhos fixos no breviário aberto. Absorto na leitura do dia, o vigário parecia não vê-lo: cabeça baixa, passos largos, iria atropelá-lo caso não se anunciasse:
— Padre... Padre!... O senhor pode me dar sua atenção por alguns segundos.
Disse em tom de desculpas por interromper o ofício do sacerdote. O Padre fechou o pequeno livro de capa escura, deixando a língua vermelha do marcador a indicar onde retornar à leitura. Garcez observou que na capa havia uma gravação: Líber Missae et officci.  O sacerdote pediu tempo:
—Estou lendo as Matinas, meu filho. Dê-me apenas alguns minutos que o atendo.
Garcez acenou que esperaria e aguardou uns dez longos minutos enquanto o padre ia e vinha sobre o passeio na frente da casa. Reparou no caramanchão que o padre mantinha rente ao passeio de sua casa. Trepadeiras alastravam-se nos ripados laterais. Um pé de buganvília fazia sombra nos bancos dispostos em cada um dos três lados internos e cobria todo o quadrado do caramanchão. Ao contrário dos balcões que se abrem para o lado da rua, esse se abria para o lado do passeio, pois fora feito para servir ao reverendo que nele sempre chegava pelo passeio, sem pisar na poeira ou no barro da rua. Era ali que nos dias mais quentes o padre se assentava para a leitura da tarde.
Logo que terminou a sua cota de leitura da manhã, lá veio o Padre com a cara feliz de menino que acabara de fazer o dever de casa, caminhou ao encontro de Garcez e se prontificou a atendê-lo:
— Então, meu filho, veio marcar o batizado?
Garcez pensou: “mais um berdamerda que sabe tudo da barriga de nossas mulheres”, mas, como mantinha distanciamento e reverência à autoridade eclesiástica, limitou-se a dizer:
— Pois então, a família está crescendo e vim mesmo a esse propósito, gostaria que fosse o mais rápido possível. Não que o menino esteja doente e corra o risco de frequentar o limbo mais cedo, mas eu prefiro resolver isso logo, ficar em dia com as obrigações da religião. Minha esposa, o senhor sabe, a Adelina, é ela que se preocupa muito com esta questão, está sempre a lembrar-me de que se uma criança morre sem o sacramento do batismo, ela fica vagando no escuro. Ela diz que mesmo a criança inocente nasce com o pecado original, e só o batismo pode livrá-la desta herança pegajosa e pode habilitá-la para o esplendor do céu. O pior é que minha mulher vê essas conjeturas religiosas como se fossem verdades absolutas, mas eu não a culpo, está no sangue da família dela, os Rodrigues Pereira sempre foram muito católicos, e nós, dos Alfenas, seguimos a religião, mas sem esse fervor todo.
Apesar do pouco fervor dos Alfenas, o vigário parece ter gostado do que ouviu, pois se tornou cordial e professoral:
— Meu filho, é isso mesmo, o nosso papa Pio X tem nos chamado a atenção para que facilitemos o convívio dos fieis com a igreja, e que devemos levar os sacramentos a todos, inclusive a comunhão. Esse pensamento vem ao encontro das boas intenções que o senhor e sua boníssima esposa demonstram. E tem mais, essa questão do limbo é difícil mesmo de ser entendida e nunca foi dogma, o nosso rebanho é que floreia muito essa coisa. Deus não há de ser ruim para uma pobre criança, mesmo que morra sem o batismo.
Garcez havia puxado o assunto, mas não desejava uma explicação teológica, queria objetividade, pois tinha compromissos inadiáveis no Felipe Alves: não havia tirado leite nem tratado dos porcos, e disse:
—Reverendo, será que podemos marcar para o próximo domingo? Assim, quem nasceu no domingo, no domingo se batiza.
O padre concordou e fez as anotações de praxe, ficando acertado que o batizado seria depois da missa das oito.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Porquinho e a Ventosa.

Por Lulu

Conto infantil dedicado aos netos 
Vicente, Vinícius e Murilo.

Self do Porquinho Saruê

Na Casa da Felicidade, viviam dois meninos muito inteligentes e sapecas. Chamavam-se Digá e Lalu.

Eram inteligentes porque prestavam muita atenção no que os mais velhos faziam. 

Eram sapecas porque nem sempre seguiam os conselhos dos pais.

Coice de burro é fogo
Um dia viram o pai aplicar uma ventosa na barriga de um velho machucado. O velho estava com dor na barriga, no lugar onde um burro havia dado um coice. Coice de burro dói muito  e machuca por dentro.

 O pai aplicou uma ventosa bem em cima de onde o burro tinha dado o coice porque ventosa cura por dentro. 

Copo lagoinha
Para fazer a ventosa, o pai pegou um copo de vidro, tipo lagoinha, e colocou dentro dele um pouquinho de algodão, depois pingou 10 gotas de álcool no algodão. Mandou o velho tirar a camisa e preparou o copo. Botou fogo no algodão que estava dentro do copo com as 10 gotas de álcool. Logo que o fogo se alastrou dentro do copo, o pai apertou o copo na barriga do velho. A carne da barriga entrou dentro do copo e a dor sumiu na hora.



Enquanto aplicava a ventosa, o pai explicava para os meninos:
  
----Tá vendo Digá, tá vendo Lalu! Vocês não podem fazer isso. Só gente grande e com juízo pode aplicar ventosa. É perigoso porque tem fogo. O álcool pode espalhar, queimar e até matar quem brincar com ele. Não é brinquedo de criança.

Álcool e chama são perigosos.
Digá respondeu:

--- Tá bom, papai, a gente não vai fazer isso.

Lalu respondeu:

--- Nós nunca vamos fazer isso. Pode ficar tranquilo, papai.

Pé de algodão.
A Casa da Felicidade tinha um quintal espaçoso. Lá tinha galinha, lá tinha peru e lá tinha porco. Lá só não tinha latinha de cerveja, porque  naquele tempo cerveja era vendida em garrafa. Alguns porquinhos ficavam presos no chiqueiro, mas naquele dia um estava solto. 

O porquinho que estava solto era bonito, gordinho, de cor rosada,  com pele lisa, o nome dele era Porquinho Saruê. 

Os meninos tiveram a mesma ideia e disseram:

--- Vamos aplicar uma ventosa no Porquinho Saruê.


Digá pegou o copo, Lalu pegou o álcool e a caixa de fósforos, mas não pegou o algodão. Lalu encheu o copo com álcool.

Os dois meninos pegaram o  Porquinho Saruê, botaram fogo no álcool dentro do copo e aplicaram a ventosa nas costas dele.

O  Porquinho Saruê sentiu uma dor muito forte e escapuliu das mãos dos meninos.

O álcool e o fogo cobriram as costas do pobre  Porquinho Saruê. 

O  Porquinho Saruê correu pelo quintal esparramando fogo por todo lado. O pobre animalzinho estava apavorado e gritava muito alto. Os meninos correram atrás do Porquinho Sarué apagando o fogo.

Sorte os meninos não ficarem também queimados. Feliz o Porquinho Saruê que melhorou logo, pois leitão tem muita gordura no lombo que protege contra queimaduras.

O pai deu graças a Deus porque o  Porquinho Saruê não morreu, mas teve que castigar os meninos para eles aprenderem o valor da obediência.

Digá ficou de joelhos durante 3 horas em cima de grãos de feijão. Lalu era mais velho do que o Digá, por isso teve que ficar de joelhos, sobre grãos de milho de pipoca, durante 5 horas.

Quandro anoiteceu, o  Porquinho Saruê foi para o chiqueiro descansar de um dia tão difícil e doloroso. Todos da casa comeram bem naquela noite. Mas Lalu e Digá, por ordem do pai, só puderam comer arroz com feijão e angu. 

No outro dia todos estavam felizes, e o  Porquinho Saruê fuçava no quintal como se nada tivesse acontecido no dia anterior.


 ..................... FIM ..........................
    
 Se leu aprendeu:

A estória aqui contada
cheia de fogo e carvão,
aconteceu de verdade,
tinha copo e algodão.

Mas você que é criança
e não quer ter má fama,
evite brincar com fogo,
para não mijar na cama.