quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O Batismo

                                          Trecho do livro Os Berdamerdas, por Lulu

Adelina Maria da Encarnação 






Se um dia lembrar que tudo na vida passa. Lembre-se que eu passei com uma enorme vontade de ficar. (Autor desconhecido)

                       


Depois de adiado por duas vezes, o batizado aconteceu no domingo, dia 31 de julho de 1909, conforme o desejo da mãe e a disponibilidade do pároco.  Após o “dominus vobiscum” e terminada a missa em latim, o padre dirigiu-se à sacristia vestido com uma alva branca e uma estola da mesma cor com símbolos católicos dourados.  Ali ele era aguardado pelo pequeno Edgard, os padrinhos, seus pais e todos da ninhada de Garcez Glória Alfenas [i]e Adelina Maria da Encarnação[ii], e não eram poucos, quatro irmãs e três irmãos que, com o tradicional bilu-bilu, entretinham-se com o bebê da vez. Um frio úmido penetrava pelas frestas da porta de madeira, que ligava a sacristia ao tablado do altar, propagava-se por todo o cômodo e saía pelas janelas laterais em corrente gelada que aumentava a sensação de desconforto. O pequeno Edgard chorava. Adelina tirou o próprio mantô e o enrolou na criança, “tenho medo da febre amarela”, pensou. Não havia motivos para tal, a febre amarela não se propaga pela friagem e, ademais, essa peste não chegara à Oliveira, onde não havia o vetor, um mosquito que estava atacando Sorocaba, em São Paulo, e também as regiões do norte do país, principalmente as cobertas pela floresta amazônica.  O padre percebeu o incômodo que a brisa causava e reagiu:

— Desculpem-me, vou mandar arrumar estas janelas, as gretas tornam o ambiente quase insuportável nos dias de frio. Esta capela já está muita velha, cupins atacam a estrutura de madeira, o sol bate pouco aqui dentro e os cômodos são escuros e úmidos. Nós já estamos preocupados com isso, precisamos angariar fundos para a construção de uma igreja mais ampla, mais condizente com o tamanho de nosso povoado que, graças a Deus, tem crescido muito nos últimos anos.

Vendido o seu peixe, o padre fechou a porta da sacristia o que interrompeu a corrente de ar.  O Lugar ficou mais agradável.

Enquanto o padre falava, os padrinhos e alguns poucos convidados admiravam a beleza das crianças e de como se vestiam bem: Edgard vestia branco, como recomenda a tradição; e as demais criança, trajes feitos pela própria mãe,  com chitas e brins comprados no comércio de Piranga.    Zelina[iii], Já mocinha com seus 17 anos, destacava-se pela beleza. Fácil lhe fora atrair um bom partido, diziam, moço bom e de berço, filho do Major João Camillo da Silva Araújo[iv], este um homem de destaque na Oliveira, pelo título e pela riqueza, com muitas terras no córrego do Pires.  Maria[v], com 15 anos, já caprichava na faceirice e tinha o sorriso mais lindo da região; Presciliana[vi], com 10 anos, que nessa altura já havia assimilado o apelido, Peixe, estava naquela idade da difícil escolho: com quem ando? A menina passava pela idade em que não sabe se se comporta como criança, ou adolescente. Sendo precoce em sentimentos profundos, já demonstrava um carinho especial pelas irmãs e irmãos; Isabel[vii], com 5 anos, brincava  com os irmãos, e era muito paparicada por todos eles. Dos homens, Othorgamim[viii] era o mais velho, 13 anos, e o seguiam o pequeno José[ix], Duca, com 8, e o Antônio[x] que aos 3 anos perdera o favoritismo de caçula, vantagem que não chega a ser grande coisa em famílias de tantos filhos. Neste dia especial para eles, Edgard rodava de colo em colo e já arriscava um leve sorriso quando o carinho das irmãs lhe chegava por um leve toque no rosto.

De repente todos se voltaram para pia batismal. O sacerdote dava início aos rituais, sempre fundamentais para o crescimento da fé dogmática e manutenção da igreja. Antes de ministrar o sacramento, o sacerdote fez uma breve homilia:

— Meus filhos e filhas, o batismo nos traz à presença de Deus que nos protege. Assim como uma mãe zelosa dispõe de suas vestes para proteger o filho contra os males que a brisa fria da manhã pode lhe trazer, assim também, Deus, através de seu filho Jesus Cristo, nos traz, pelo sacramento, a proteção contra o mal que já nela se instala na alma desde o nascimento, o pecado original — “é esperto o padre”, pensava Garcez, “aproveitou-se da brisa e da proposital cacofonia para vender seu peixe e nos lembrar de pagar as janelas e portas”, o padre continuava — O Batismo, meus caros pais e meus amigos padrinhos, é o abraço de Deus que vai além de resguardar, purifica a alma da criança que nasce marcada com esta sombra do mal que é o pecado herdado de Adão e Eva por haverem comido do fruto proibido. Com o batismo, esta pequena criança fica pronta para os feitos da humanidade e já é completa em sua potência, e que Deus lhe dê um bom destino e que, nesta terra, possa ser útil aos seus iguais.

Adelina respondeu com um ressonante — amém! — a demonstrar fé absoluta nas palavras do padre e no destino do filho.  Na pujança de seus trinta e dois anos, a respeitável dama já tinha personalidade amadurecida para apresentar os traços que revelavam sua força interior. Essa a combinar com a parte física: braços fortes, rosto largo, faces marcadas por sucos bem definidos e profundos. Sua pele clara, mesmo lesada pela exposição continuada ao sol e a chuva, tinha uma proteção natural, talvez pela ingestão de frutas e legumes em abundância. Possuía todos os sinais de mulher forte e despojada: cabelos lisos, penteados rente ao coro cabeludo, quase grudados, davam-lhe uma aparência robusta e fora dos padrões femininos da época e lugar: o queixo carnudo, a boca encurralada por traços que lhe fechavam o semblante e a tornavam com feições mais sérias do que a sua natureza de fato o era. Tinha o ar de severidade exagerada, o semblante quase carrancudo. A dureza, impressa em sua figura enquanto permanecia séria e quieta por razões das preocupações, esmaecia-se completamente quando ela falava, sorria ou brincava. Tinha a voz aveludada e seus argumentos eram sempre bem elaborados. Suas palavras carregavam significados de esperança e compreensão para com o próximo e os mais necessitados, de meiguice contagiante. Sua bondade ecoava além do Felipe Alves, onde criava seus sete filhos e agora um bebê e pretendia ter mais[xi]. Tinha origem católica pela fé e pela genética: era filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e de Izabel, esta, segundo o conhecimento oral, era filha do padre Manoel, um antigo vigário de Capela Nova das Dores, pelos idos de 1880, e de Ana Carolina, filha de gente simples do lugar.

Garcez não prestara atenção às últimas palavras do pároco, fixara-se no que ele dissera sobre a construção da igreja, isso despertara seu espírito irrequieto, cético e crítico que divagava a respeito: “esta matriz não está tão velha assim, eu mesmo contribuí para sua construção que terminou em 1894. Na verdade, ela levou nove anos para ficar pronta. Tanto tempo se deveu à falta de dinheiro e também a que uma parte do que se arrecadara para este fim tenha sido aplicada na construção de outros bens da igreja, alguns não tanto terrenos”. Eu me lembro de que havia pleitos dos bispos e padres no sentido de dar prioridade a outras construções. A população discordava, queria mesmo era ver a igreja pronta. Os mais atrevidos reclamavam e xingavam o padre de plantão, alguns deles residiam em Piranga e pouco vinham à Oliveira. Mas tudo acabou bem, o medo da excomunhão pesou mais do que as convicções desses ou daqueles beatos. A Sacristia podia estar ruim”, Garcez continuava a pensar “mas não é caso para se abandonar uma igreja dessas, tão bonita. Este padre deve estar meio lelé da cuca. Esta igreja não tem nem vinte anos. Nós, que temos dinheiro curto, fazemos nossas casas para durarem cem anos ou mais, e o padre, que pode contar com muitas espórtulas, leilões de gado e até com verbas do vaticano, fica inventando de melhorar o que já está muito bom”. A bem da verdade, a construção da igreja, onde agora pisavam, havia passado pelas mãos de três vigários, e a demora dependia não só de recursos financeiros, mas de encontrar artistas para as pinturas de paredes e tetos, estes sempre davam preferência as obras maiores e de lugares mais ricos, como Mariana e Ouro Preto. Enquanto Garcez distraía-se com suas elucubrações, o padre avançava na cerimônia e logo o convocou os padrinhos e os pais para se achegarem mais perto, uns para segurar velas, outros a criança. 

Qual o nome do padrinho?

— Sebastião Rodrigues Pereira

— e da Madrinha?, Perguntou o padre,

— Maria da Conceição Milagres Oliveira[xii]

E o padre exerceu sua autoridade:

— Seu Garcez, pega a vela, pega a bendita vela! Acenda-a, seu Garcez! Aproxime-se mais, isso, mais perto do menino. 

A madrinha pegou o pequeno Edgard no colo e o levou até a pia batismal e o padre derramou, com uma jarra, a água sagrada em sua cabeça, dizendo as preces do batismo:

—Eu te batizo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Tal gesto representa vida nova e confirma que a criança está batizada e fora do grande risco de ir para o limboxiii . E assim, num ritual com pouco óleo, muita água e rezas, consumou-se o sacramento.

Terminada o rito, os pais e os padrinhos assinarem o livro de batismo e juntamente com as crianças saíram da sacristia para o altar de onde ganhariam a rua.  O padre tirou a alva e a estola e, como um soldado que se despe de uma pesada farda, sentiu-se desobrigado da atitude circunspecta e do poder que a  igreja lhe investe, e sem aquele ar de superioridade eclesiástica, disse:  

 

— Seu Garcez, mata a curiosidade deste pobre ignorante. Esse seu sobrenome, Alfenas, vem de quê? Afinal, de onde vocês são?

 

Garcez começou por explicar o “S” de seu sobrenome:

 

— Alfena, esse é que deveria ser o nosso sobrenome, mas meu avô, o Alferes Francisco de Paula Alfena foi quem pluralizou o sobrenome a partir de meu pai Eliziário, que o registrou como Alfenas. Agora eu e meus irmãos estamos batizando nossos filhos e filhas com grafia nova.

 

O padre queria saber das origens:

 

— Bem, Seu Garcez, mas então, e o Alfena no singular, de onde vem e o que significa?

 

Garcez respondeu sem pestanejar:

 

— Vem do lugar de onde nosso antepassado veio. Quando ele migrou para o Brasil, já trouxe o nome Alfena pronto em homenagem à freguesia de Alfena, que fazia e faz até hoje parte da cidade de Valongo, na região do Porto, em Portugal. Não há dúvidas quanto a isso, mas o nome daquela freguesia teve origem, na idade média, de uma palavra árabe que se refere a uma árvore que serve para fabricar tinta. O arbusto tem o nome de alfeneiro e a flor é chamada de Alfena. Mas nós, os Alfenas, daqui da Oliveira, estamos mais para berdamerda do que para flor que se cheire. — concluiu com uma boa risada.

 

O padre parecia se divertir e disse:

 

— Olha! Olha! Vivendo e aprendendo! E eu que pensava que esse nome viesse da cidade chamada Alfenas, aqui do sul de Minas. 

 

Garcez interveio:

 

— Mas, Padre, nisso o senhor não sabe da missa a metade, é exatamente o contrário, o nome daquele lugar é que veio da família Martins Alfena. Olha, daqui de nossa terra são originário também de Portugal, como aqueles, mas só que somos de origem dos Moreira Alfena, muita confusão se fez porque lá no sul de Minas havia um Francisco e aqui também outro, mas nem parentes eram. [xiv],

 

O padre deu uma gargalhada inesperada e, totalmente fora do contexto, disse espalhafatoso:

 

— Pois que não é! Pois, pois, pois!

 

E, de maneira brusca, encerrou a conversa e se foi. Garcez, que já estava a gostar da conversa, ficou um pouco aborrecido, pois o padre não lhe dera a oportunidade de informar que os antepassados dos Moreira Alfena[xv], que vieram para o Brasil, entraram  para a região de Guarapiranga, hoje Piranga e de lá alguns foram para o Estado do Rio de Janeiro, uma cidade hoje chamada Conceição do Macabu.  Em Minas Gerais, concentraram-se em três pontos: no então arraial de Nossa Senhora de Oliveira, em Dores do Turvo, em Brás Pires, todos  pertencia à vila de Guarapiranga, e, mais tarde, alguns foram para Teixeira MG. 

 

 

 



[i] Garcez Glória Alfenas, filho de Eliziário Glória Alfena e Tereza Tranquilina do Amor Divino

[ii] Adelina Maria da Encarnação, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira e Izabel Maria Januária

[iii] Zelina Glória Alfenas (1892/1974) casou-se com João Camilo Milagres e passou a assinar Zelina Alfenas Milagres. O casal inicialmente morou na fazenda do Pires, na Oliveira, posteriormente passou a residir numa fazenda dentro da zona urbana da então Piraguara e alguns anos depois da emacipação do município de Senhora de Oliveira, viveu em casa nova na agora praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. 

[iv] Filho do Furriel José Ignácio da Silva Aráujo e de Rita Cândida do Sacramento

[v] Maria Alfenas (1893/1949) casou-se com Péricles Electo e passou a assinar Maria Electo Alfenas. O casal morou em Piranga-MG

[vi] Presciliana Glória Alfenas (1899/1957), mais conhecida como Peixe,  casou-se com Aristides. Magalhães e foi inicialmente morar em Santana, na região de Oliveira, e depois em Belo Horizonte. Presciliana posteriormente casou-se com Major Nilo Abranches e passou a assinar Presciliana Alfenas Abranches. .

[vii] Isabel Alfenas Vidigal (1904/1976) casou-se com Antônio Vidigal e mudaram-se para Porto Firme, então distrito de Piranga. Posteriormente  viveram em Barbacena.

[viii] Othorgamim Glória Alfenas (1896/1973) casou-se com Amélia Rodrigues Pereira e inicialmente moraram na fazenda do Felipe Alves. Mudaram-se para Senhora de Oliveira, onde moraram na hoje Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira. Depois da morte de Othorgamim, Amélia mudou-se com a família para Belo Horizonte.

[ix] José Alfenas (1901/1991) mais conhecido como Duca, casou-se com Cecília Araújo Silva . O casal residiu na fazendo do Bandeira, em Ouro Preto e depois mudou-se para a zona urbana da mesma cidade. . 

 [x] Antônio Alfenas (1906/1985) casou-se com Geny Couto Alfenas e residiam na zona rural de  Alto Rio Doce- MG.

[xi]  Ao avançar no tempo, descobrimos que sua pretensão se realizou, ela teve mais duas filhas: Francisca e Aguimar, esta última pouco conhecida, pois morreu com 3 anos.

[xii] Também referida em alguns documentos  como Maria da Conceição da Silva Araújo, sendo bisneta do Furriel José Ignácio da Silva Araújo e Rita Cândida do Nascimento, da linhagem portuguesa do casal Capitão João da Silva Araújo e Quitéria Maria do Espírito Santo.

[xiii]Os católicos acreditam que se a criança  morrer sem este sacramento  ficará vagando eternamente sem a presença de Deus, tudo por um pecado que seus antepassados remotíssimos cometeram (Adão e Eva). Mas somente o limbo dos patriarcas é dogma e nesse os antigos, que viveram antes de Cristo e acreditavam na vinda do Messias, vão para um Limbo provisório

[xiv] Refere-se ao Alferes Francisco Paula Alfenas que no censo de 1830 aparece como morador de Brás Pires. Este teve vários filhos. 

 [xv] O nome original de família  Moreira Alfena  com o também passou a ser escrito com o S, ou seja, Alfenas. 

domingo, 12 de julho de 2020

Bom dia Berdamerda!


 (Trecho do livro Os Berdamerdas) 
Por Lulu

A neblina mal se dissipara naquela fria manhã, havia ainda muito orvalho nas margens do ribeirão e nas dobras das encostas que circundavam o arraial de Piraguara. Um sol preguiçoso, quase apagado, levantava-se por trás das terras do patrimônio da Igreja. Um cavalo a galope, vindo dos lados de Brás Pires, atravessou a ponte da Rua do Sapo e entrou no arraial. O tropel sobre a plataforma de madeira ecoava longe sem encontrar resistência de ventos contrários e sem se misturar e confundir-se com outros ruídos; a maioria dos moradores dormia, alguns levantaram a cabeça e resmungaram — que diabo é isso, a essa hora! — mas logo buscaram o travesseiro e esqueceram-se do pequeno estorvo. O cavaleiro de cútis branca, baixa estatura e de olhos claros parecia ter pressa, mas manteve o hábito de distribuir cumprimentos efusivos para os minguados transeuntes, madrugadores que se encontravam na rua àquela hora:
— Bom dia berdamerda! Como vai? Tudo bem? 
Em questão de minutos, o cavaleiro percorreu a rua comprida que deságua numa grande praça, onde um casarão cedia um dos cômodos do andar de baixo para o funcionamento do cartório distrital. Apeou, atravessou o passeio que se estende por toda a fachada da casa e entrou no pequeno cômodo de uma porta só, parou junto à grade de madeira colonial, que impedia o visitante de entrar na parte reservada aos oficiais, e, finalmente, dirigiu-se ao ajudante de escrivão:
— Bom dia berdamerda! Você continua com essa mania de pegar serviço cedo?
O ajudante de escrivão olhou-o de soslaio, com olhos inchados de mal dormir, ressaca acumulada de muitas noites mal bebidas e cachaças mal dormidas, e, agindo como quem já se acostumara à irreverência no cumprimento daquele cavalheiro, perguntou:
— Então, nasceu mais um bacuri por lá?
O homem, que acabara de entrar, respondeu sem se ofender com a maneira desrespeitosa com que o barnabé se referia ao filho recém-nascido e disse:
— É, nasceu. Pelo jeito, você anda a espiar a barriga de nossas mulheres. Será que é pressa de ganhar nosso rico dinheiro no registro das crianças ou é só a feia mania de cuidar das crias alheias? — E continuou, sem se importar em atravessar o assunto, sinal de que nem ligava muito para o que acabara de dizer.
— Não se engane, este vai ser um grande homem!
— Grande nessa família de baixinhos? Acho difícil. Alfenas, alto?  É mais fácil galinha nascer dente.
Garcez retrucou: — Por acaso eu disse que ele seria um homem grande, ou você não entende a diferença entre um grande homem e um homem grande?
Depois de proferir aquele abuso quase cordial, o barnabé ajeitou-se em sua cadeira surrada enquanto pensava no que acabara de ouvir; não entendia bem a diferença, mas deixou pra lá.  Buscando melhor posição, curvou-se como um arco sobre o livro de nascimentos que descansava sobre a mesa. Voltou-se enquanto falava para o pai da criança:
— Tem nome?
— É claro!— Respondeu Garcez e completou com ênfase: — Vai se chamar Edgard Alfenas, com d mudo no final, entendeu? Não deixe de anotar esse “d” no final. Não quero filho meu com nome sem rabicho certo por causa de sua ortografia fajuta.
O ajudante de escrivão olhava-o nos olhos enquanto, em tom mais sério ainda, atiçava o fogo da indelicadeza que entre eles parecia natural:
— Não sei o que dá na cabeça de vocês dessas roças, inventando nomes difíceis, por que não chamar o menino de José, Antônio, ou outro nome mais comum? Por que não dar um nome religioso ao novato?
Garcez chateou-se com o enjoado do ajudante de escrivão e  tornou-se ríspido:
— Você não passa mesmo de um João-ninguém. Primeiro, que lá em casa já nasceram o José e o Antônio; segundo, não há lei que me proíba de dar os nomes que quero aos meus. Então, feche essa matraca e vai anotando aí!
O ajudante sentiu que o limite da tolerância e da aceitação de insolência estava nas bordas, deu sequência às perguntas de praxe e, a cada resposta, atolava a caneta tinteiro numa pequena vasilha e a tirava, sem respingos, exibindo-se para chamar a atenção sobre sua boa caligrafia:
— Pai: Garcez Glória Alfenas; Mãe: Adelina Maria da Encarnação; avós paternos: Eliziário Glória Alfenas e Tereza Tranquilina do Amor Divino; avós maternos: João Bonifácio Rodrigues Pereira e Isabel Maria Januária. Data de Nascimento: 20 de junho de 1909; cútis: branca; olhos: azuis; local de Nascimento: Felipe Alves, no distrito de Piraguara; Comarca de Piranga, registrado pelo pai, Garcez Glória Alfenas.
Terminado o protocolo, o ajudante de escrivão, num gesto inesperado de explícita cordialidade, dirigiu-se a uma prateleira dos fundos do cômodo, retirou um charuto de uma caixa de madeira bem acabada e o ofereceu ao cliente:
— Toma, mas vê se não se acostuma, não é todo dia que eu gasto um importado com um amigo e, ademais, nossa velha Oliveira de Piranga não precisa de tantas crianças. 
Garcez agradeceu a gentileza com um gesto de mesura, pediu emprestada ao ajudante de escrivão sua binga, tirou lasca na pedra até produzir a faísca necessária para que o chumaço de algodão pegasse fogo, assoprou para avivar a combustão que se espalhava sobre a pequena almofada do acendedor, apertou ali a ponta do charuto, tirou uma baforada e abriu um largo sorriso enquanto dizia:
— Charuto bom! Agora sim, estou reconhecendo o dedo de meu velho amigo Cardoso por trás de sua contratação como ajudante de cartório, muito obrigado mesmo! Depois eu o recomendo ao chefe.
Mesmo neste momento de maior agrado, o ajudante não deixou de resmungar:
 — E eu preciso lá de recomendação para me manter numa porcaria de emprego desses!
Garcez não ouviu bem o que ele dizia. Pitou mais um pouco, por cortesia com o barnabé, preferia cigarros de palha.  Apagou o charuto no tampo de uma velha viola que, encostada à parede, ali se postava há anos sem serventia alguma. Pensou: “pelo menos pra isso serve essa diabinha!”. Despediu-se do barnabé e saiu em direção à casa paroquial. Andou alguns passos e viu o Padre José Afonso Painhas que vinha em direção oposta com os olhos fixos no breviário aberto. Absorto na leitura do dia, o vigário parecia não vê-lo: cabeça baixa, passos largos, iria atropelá-lo caso não se anunciasse:
— Padre... Padre!... O senhor pode me dar sua atenção por alguns segundos.
Disse em tom de desculpas por interromper o ofício do sacerdote. O Padre fechou o pequeno livro de capa escura, deixando a língua vermelha do marcador a indicar onde retornar à leitura. Garcez observou que na capa havia uma gravação: Líber Missae et officci.  O sacerdote pediu tempo:
—Estou lendo as Matinas, meu filho. Dê-me apenas alguns minutos que o atendo.
Garcez acenou que esperaria e aguardou uns dez longos minutos enquanto o padre ia e vinha sobre o passeio na frente da casa. Reparou no caramanchão que o padre mantinha rente ao passeio de sua casa. Trepadeiras alastravam-se nos ripados laterais. Um pé de buganvília fazia sombra nos bancos dispostos em cada um dos três lados internos e cobria todo o quadrado do caramanchão. Ao contrário dos balcões que se abrem para o lado da rua, esse se abria para o lado do passeio, pois fora feito para servir ao reverendo que nele sempre chegava pelo passeio, sem pisar na poeira ou no barro da rua. Era ali que nos dias mais quentes o padre se assentava para a leitura da tarde.
Logo que terminou a sua cota de leitura da manhã, lá veio o Padre com a cara feliz de menino que acabara de fazer o dever de casa, caminhou ao encontro de Garcez e se prontificou a atendê-lo:
— Então, meu filho, veio marcar o batizado?
Garcez pensou: “mais um berdamerda que sabe tudo da barriga de nossas mulheres”, mas, como mantinha distanciamento e reverência à autoridade eclesiástica, limitou-se a dizer:
— Pois então, a família está crescendo e vim mesmo a esse propósito, gostaria que fosse o mais rápido possível. Não que o menino esteja doente e corra o risco de frequentar o limbo mais cedo, mas eu prefiro resolver isso logo, ficar em dia com as obrigações da religião. Minha esposa, o senhor sabe, a Adelina, é ela que se preocupa muito com esta questão, está sempre a lembrar-me de que se uma criança morre sem o sacramento do batismo, ela fica vagando no escuro. Ela diz que mesmo a criança inocente nasce com o pecado original, e só o batismo pode livrá-la desta herança pegajosa e pode habilitá-la para o esplendor do céu. O pior é que minha mulher vê essas conjeturas religiosas como se fossem verdades absolutas, mas eu não a culpo, está no sangue da família dela, os Rodrigues Pereira sempre foram muito católicos, e nós, dos Alfenas, seguimos a religião, mas sem esse fervor todo.
Apesar do pouco fervor dos Alfenas, o vigário parece ter gostado do que ouviu, pois se tornou cordial e professoral:
— Meu filho, é isso mesmo, o nosso papa Pio X tem nos chamado a atenção para que facilitemos o convívio dos fieis com a igreja, e que devemos levar os sacramentos a todos, inclusive a comunhão. Esse pensamento vem ao encontro das boas intenções que o senhor e sua boníssima esposa demonstram. E tem mais, essa questão do limbo é difícil mesmo de ser entendida e nunca foi dogma, o nosso rebanho é que floreia muito essa coisa. Deus não há de ser ruim para uma pobre criança, mesmo que morra sem o batismo.
Garcez havia puxado o assunto, mas não desejava uma explicação teológica, queria objetividade, pois tinha compromissos inadiáveis no Felipe Alves: não havia tirado leite nem tratado dos porcos, e disse:
—Reverendo, será que podemos marcar para o próximo domingo? Assim, quem nasceu no domingo, no domingo se batiza.
O padre concordou e fez as anotações de praxe, ficando acertado que o batizado seria depois da missa das oito.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O Porquinho e a Ventosa.

Por Lulu

Conto infantil dedicado aos netos 
Vicente, Vinícius e Murilo.

Self do Porquinho Saruê

Na Casa da Felicidade, viviam dois meninos muito inteligentes e sapecas. Chamavam-se Digá e Lalu.

Eram inteligentes porque prestavam muita atenção no que os mais velhos faziam. 

Eram sapecas porque nem sempre seguiam os conselhos dos pais.

Coice de burro é fogo
Um dia viram o pai aplicar uma ventosa na barriga de um velho machucado. O velho estava com dor na barriga, no lugar onde um burro havia dado um coice. Coice de burro dói muito  e machuca por dentro.

 O pai aplicou uma ventosa bem em cima de onde o burro tinha dado o coice porque ventosa cura por dentro. 

Copo lagoinha
Para fazer a ventosa, o pai pegou um copo de vidro, tipo lagoinha, e colocou dentro dele um pouquinho de algodão, depois pingou 10 gotas de álcool no algodão. Mandou o velho tirar a camisa e preparou o copo. Botou fogo no algodão que estava dentro do copo com as 10 gotas de álcool. Logo que o fogo se alastrou dentro do copo, o pai apertou o copo na barriga do velho. A carne da barriga entrou dentro do copo e a dor sumiu na hora.



Enquanto aplicava a ventosa, o pai explicava para os meninos:
  
----Tá vendo Digá, tá vendo Lalu! Vocês não podem fazer isso. Só gente grande e com juízo pode aplicar ventosa. É perigoso porque tem fogo. O álcool pode espalhar, queimar e até matar quem brincar com ele. Não é brinquedo de criança.

Álcool e chama são perigosos.
Digá respondeu:

--- Tá bom, papai, a gente não vai fazer isso.

Lalu respondeu:

--- Nós nunca vamos fazer isso. Pode ficar tranquilo, papai.

Pé de algodão.
A Casa da Felicidade tinha um quintal espaçoso. Lá tinha galinha, lá tinha peru e lá tinha porco. Lá só não tinha latinha de cerveja, porque  naquele tempo cerveja era vendida em garrafa. Alguns porquinhos ficavam presos no chiqueiro, mas naquele dia um estava solto. 

O porquinho que estava solto era bonito, gordinho, de cor rosada,  com pele lisa, o nome dele era Porquinho Saruê. 

Os meninos tiveram a mesma ideia e disseram:

--- Vamos aplicar uma ventosa no Porquinho Saruê.


Digá pegou o copo, Lalu pegou o álcool e a caixa de fósforos, mas não pegou o algodão. Lalu encheu o copo com álcool.

Os dois meninos pegaram o  Porquinho Saruê, botaram fogo no álcool dentro do copo e aplicaram a ventosa nas costas dele.

O  Porquinho Saruê sentiu uma dor muito forte e escapuliu das mãos dos meninos.

O álcool e o fogo cobriram as costas do pobre  Porquinho Saruê. 

O  Porquinho Saruê correu pelo quintal esparramando fogo por todo lado. O pobre animalzinho estava apavorado e gritava muito alto. Os meninos correram atrás do Porquinho Sarué apagando o fogo.

Sorte os meninos não ficarem também queimados. Feliz o Porquinho Saruê que melhorou logo, pois leitão tem muita gordura no lombo que protege contra queimaduras.

O pai deu graças a Deus porque o  Porquinho Saruê não morreu, mas teve que castigar os meninos para eles aprenderem o valor da obediência.

Digá ficou de joelhos durante 3 horas em cima de grãos de feijão. Lalu era mais velho do que o Digá, por isso teve que ficar de joelhos, sobre grãos de milho de pipoca, durante 5 horas.

Quandro anoiteceu, o  Porquinho Saruê foi para o chiqueiro descansar de um dia tão difícil e doloroso. Todos da casa comeram bem naquela noite. Mas Lalu e Digá, por ordem do pai, só puderam comer arroz com feijão e angu. 

No outro dia todos estavam felizes, e o  Porquinho Saruê fuçava no quintal como se nada tivesse acontecido no dia anterior.


 ..................... FIM ..........................
    
 Se leu aprendeu:

A estória aqui contada
cheia de fogo e carvão,
aconteceu de verdade,
tinha copo e algodão.

Mas você que é criança
e não quer ter má fama,
evite brincar com fogo,
para não mijar na cama.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Quita e as quitandeiras.


Por Lulu Alfenas

Depois de muitos e insistentes convites, elas chegaram de improviso como sempre acontece com as melhores e mais queridas visitas, pois há as que não precisam de prévio aviso, e outras que não são bem-vindas nem com anúncio bordado a ouro.


Ordália, Elza, Quita e Edinho, quatro unidades de carbono carregadas de alegrias vindas da Rua, que fica logo ali do outro lado da montanha, a dois quilômetros por terra plana.  Vieram iluminar a nossa roça, que já conhecia as primeiras  sombras do anoitecer. Cá estávamos Cátia, Edgard; Rose, Siovani, Marquinho; e os de casa, Maria e Eu.

Uma sopa de abóbora e um feijão reforçado com  torresmo já estavam na mesa. Como aqui não temos gavetas ao modo de Mariana (modus comedere), sempre nos sobra uma reserva de comida que nos tem evitado constrangimentos. Aquela sopa era suficiente para um exército inteiro, então, ficamos tranquilos, tínhamos sustança para todos. Mas as visitas, logo que viram as panelas na mesa, concluíram que aqui não se janta tão cedo e nos avisaram, algumas com menos convicção, de que já tinham comido.

A partir da esquerda: João, Marta, Guiguinha, Cláudio,
Raul, Olga, Joaquim, Ordália, Elza, Naná, Salia e José.
Filhos mais novos, ainda não tinham nascido, são: Totonho,
Bebeto e Betinho. Clique na foto para ampliá-la.
Aqui inventamos, desde antes de a casa existir, de cobrir nossas paredes com fotos antigas, diplomas de jequice assumida, algumas de 1911. Quem é da terra, como nós, gosta de passar em revista aqueles retratos à procura de parentes, amigos e história. As irmãs Ordália e Elza, nossas primas no primeiro grau e mais por afinidade, logo ali si encontraram em uma foto  dos tempos em que, ainda crianças, brincavam nas ruas de Santana do Piraguara. Estas eternas meninas são de família grande, da linhagem de Alípio Henriques de Miranda e Candinha Milagres, que inspirados pelos exemplos de seus pais, mantiveram proveitosa parceria  na criação de quinze crianças; coisa rara, todos sobreviveram à infância e à juventude, prova de sangue bom e alimentação saudável. Esse "facewall" registra casos particulares e  parte da historia do município. As fotos mais antigas foram herdadas de minha avó, que me cochichou, após a extrema-unção: — prometi que elas continuariam a ser vistas depois de minha morte —. Eu disse amém, e ela partiu tranquila deixando-nos esse último legado, isso anos depois de ter doado muitas terras e casas para seus descendentes, e assim pôde descansar de 96 anos bem vividos e suficientes para que criasse nove filhos, enterrasse dois maridos e contasse muitas estórias para netos, bisnetos, trinetos e tataranetos. As fotos ganharam destaque.  Inverteu-se a ordem natural, não são as paredes que as receberam, são elas, as fotos, que receberam as paredes, pois a casa toda foi nelas inspirada. Explico: o nosso caçula quando falávamos sobre a arquitetura da casa  disse-me com sabedoria juvenil: — pai, já que vamos construir uma casa na roça, por que não adotar um estilo que combina com aquelas fotos que temos lá em casa? Aquelas que a vovó Deolinda deixou —. Concordei com alegria. E aí estão casa e fotos feitas uma para as outras.

Voltando ao curso dos acontecimentos daquela noite, lembro-me que Elza e Ordália nos devem um dia de quitanda, e faz tempo. Explico, elas ficaram de vir um dia para fazer biscoito de polvilho, cubu, broa de fubá e tudo que um forno de cupim gosta de assar e a gente de comer - tudo em memória de nossa amizade e dos laços de nossos antepassados.

De início, como eu vinha dizendo, as visitas negaram-se a participar de nosso leve jantar, mas como o horário foi avançando, acho que, ou a fome chegou, ou fomos muito insistentes, acabaram comendo o que eu colocava nas pequenas tigelas e entregava em mãos. Tudo coberto com cebolinha e ora-pró-nobis de orelha, picados. Aprendi com minha mãe, pelo exemplo praticado, com amor, por muitos e muitos anos,  que não há quem recuse comida posta no prato e dada na mão. O certo que comeram e uma delas até repetiu, só notei porque sempre observo para separar os que realmente gostam de nossa comida dos que só a aceitam por educação, gente que morre entrouxada para não desfeitear. Pensei comigo, esta, ou estava com muita fome, ou é educada acima da média mais dois desvios padrão (desculpem-me a recaída estatística e a lembrança da curva normal), pois ela saiu da curva ao repetir três vezes.


Mas antes da sopa, havia rolado algum papo dentro de casa quando o Edinho nos contou um caso real e que nos deixou espantados. Esta é a estória por ele narrada: João Beija-flor subia a Rua Nova quando uma mulher apavorada o interpelou aos gritos — Acode, Beija-flor! O Joca acaba de morrer, vem cá! — e o puxou  para dentro da casa do morto. Beija-flor já entrou apalpando o corpo ainda quente estendido na cama. Decidido, fez nele algumas massagens. E, credo em cruz! Não é que deu certo! O Joca não apenas voltou como se sentou na cama e fez uma breve declaração: — Gente! Por que vocês fizeram isso comigo? Eu estava num lugar tão bom, e vocês me fazem voltar para sofrer! “—. Enquanto alguns criticavam a ingratidão do ressuscitado — poxa! A gente salva o cara, e ele ainda reclama! —  o recém morto terminava  aquelas breves palavras, talvez se lembrasse das terríveis dores do infarto  que o havia matado, e sem mais nem menos virou-se para o canto e morreu novamente. Ninguém mais falou de ingratidão, nem acudiu de  tirar a  temperatura dele; e Beija-flor amuou-se em seu quadrado, nada de massagens, sequer se atreveu a encostar as mãos no peito do defunto. 

 E finalmente, Edinho concluiu com tristeza: — Foi em paz nosso Joca, em morte definitiva, como deve ser toda morte que se preze. Que Deus o tenha!


Terminado esse caso, houve um momento em que os ouvintes cismavam sobre a sua veracidade, mas a sombra de dúvida logo se dissipou e deu lugar a conversas agradáveis a mitigar o estresse que a incerteza costuma abrigar. Em nossa região todos sabem que Edinho não mente. 

Ligado à varanda temos um cômodo que soma biblioteca, copa e cozinha. Não é por economia de paredes, é que as pessoas de nossa terra gostam de viver na cozinha que é perto do fogão, de onde saem quitutes e cafezinhos, mas ninguém abre mão de espaços dilatados, pois somos viciados no campo e na largueza das coisas que a vida nos dá.

Acho que as visitas acharam que somos de deitar cedo, pois nem eram onze horas e já ameaçavam ir embora e, de fato, já estavam de saída, mas fizeram um “pit stop” na varanda quando insistimos para que demorassem mais um pouco. Nisso a Ordália nos cochichou que Quita era mestra em contar casos, e parece que aquela gosta, pois, sem muito rogo,  logo tomou assento no banco da varanda, com ares de quem sabe a que veio e conhece de sua luz própria, e nós, como aleluias e besouros das noites escuras, começamos a circular ao seu redor. Sedentos de cultura local e de tudo que nega o tédio e o marasmo,   dedicamos nossos ouvidos aos seus casos e descansamos nossos espíritos de todas as preocupações. Seu repertório não é pequeno e tem alta carga de emoções, tudo tirado de experiência própria com  aventuras engraçadas. Quita transforma-se, quando conta estórias, em interessante arquivo de onde brotam memórias de uma infância rica em inocentes travessuras, que mostram um lado que nós, meninos da terra e da mesma geração, nem sonhávamos que existisse entre as meninas que, por natureza e costumes daquela época, eram recatadas. Quita fala de um tempo em que sequer na Igreja as mulheres misturavam-se com os homens. 

Ela abriu-se em eloquência, sua fala era como um sopro que arejava toda a varanda e varria de nossos espíritos tudo que não era alegria. A jovem senhora principiou pela sua vida de criança: um pai rigoroso, que ensinava com bons conselhos e uma correia de usina — lonas dobradas —. Morava num sobrado, na Praça São Sebastião, num casarão onde hoje (Janeiro de 2017) fica a Prefeitura Municipal.  Debaixo da casa havia um cômodo que era alugado para o comércio. Das janelas altas de sua casa e nos raros momentos em que escapulia para a venda, a menina ia sendo determinada pelas primeiras afeições, e sua alma sensível e esperta sentia que tinha que ver o mundo mais de perto, e que esse precisava conhecê-la melhor. Sua alma era forjada numa escola de extrema severidade, onde apanhava muito da professa, e nas ruas, onde fazia amizades duradouras. Assim crescia e assim se enturmava com outras capetinhas da mesma idade e do mesmo nível social.

Depois de nos colocar no cenário de sua vida, que é muito maior do que aqui se reproduz - reduz quem conta e mais ainda quem relata por escrito -, Quita nos contou de quando sua neta, para atender a um trabalho escolar,  perguntou-lhe se ela tivera alguma coleção. Lembrando-se da situação em que se encontrara frente à neta, ela quase não conseguia falar de sua coleção, pois o próprio riso a embargava de tal forma que não havia como pronunciar o nome de seu inusitado hobby. Quita é dessas pessoas que se divertem com os próprios casos, e nesse tivemos que esperar por mais de cinco minutos para que ela tomasse fôlego antes de   continuar.  Uma pequena interrupção que fazia aumentar nossa curiosidade; o tempo não para, mas aumenta a aflição da espera.  O seu riso, por outro lado, nos contagiava, o que se via em cada rosto e em cada ruga, embora poucas e rasas (somos os jovens dos anos 60). Mas, finalmente, daquele mato saiu um coelho: era colecionadora de palitos de fósforos queimados.  Como já tínhamos queimado boa parte de nosso estoque de risos na expectativa, demoramos a absorver a graça da coisa em si. Perguntávamo-nos, por que uma menininha tão bonitinha e que morava num sobrado da principal praça da cidade teve que colecionador palitos riscados. Mas ela esclareceu: estava na moda o jogo de palitos cruzados, em que se disputa o monte de palitos com lançamentos  intercalados. Aquele que jogasse o palito que montasse em cima de qualquer um do monte tinha como prêmio todos os palitos que já estivessem lá. Os mais abastados jogavam com palitos novos; as meninas de sua turma, com palitos riscados. Haja pobreza! Pode-se imaginar a cara de espanto da neta ao ouvir de uma avó, tão distinta e professora durona, uma história dessas.

Jogando a melhor amiga no buraco.

Quando a Limeira era bem deserta e nem era bairro, havia por lá uma grande olaria com várias caieiras. Ali havia fogo, tijolos, barro e buracos de onde se tirava a matéria prima, argila. Num desses buracos, o mais fundo,  numa noite escura e medonha, Quita e sua turma jogaram Ana Maria e deixaram-na ao Deus dará. A menina abriu o bué. O choro dela era tão alto que João Miguelângelo, que subia o morro depois de haver tomado umas e outras, ouviu aquilo e foi lá tomar satisfação com o buraco. Chegou a trocar algumas farpas com a  barrenta fenda e até de acusá-la de estar a perturbar o sossego da encosta. Queria explicações, mas ao perceber tratar-se de uma menininha, ficou sóbrio em segundos e foi o herói da noite.. 

Os Franciscos

Já havia muito tempo que a turma da Quita reparava nos modos de os  Fransciscos  da família Milagres participarem do footing dominical.  Eram tantos os Franciscos dessa família (o do Dão, o de Quidó, o do Chico Inácio e outros que mesmo não sendo Francisco  a eles se  equiparavam em  estilo) e vestiam tão bem nos domingos que era difícil não separá-los da manada: todos de ternos brancos, gravatas listradas,  sapatos bem engraxados e lenços escuros nos bolsinhos dos paletós. Eram e pareciam ser distintos. Impecáveis, iam e vinham destacando-se de outros mais simples que vestiam camisas surradas e calças de brim amarelo.  O footing, que migrava do leste para o oeste da cidade, acontecia, nesta época, ao lado da igreja da Praça São Sebastião. Quem dele participasse tinha que passar bem em frente da casa da Quita, onde o perigo vestia saias. Da janela as meninas planejaram manchar aquela paz branca, desarrumar aqueles Franciscos, quebrar aquela empáfia. Tudo bem pensado e ensaiado: bocas cheias de água, canudinhos de mamona, contagem de 1 a 3 e já, todas se levantam para o impulso, lá vai o jato de água molhar aquelas golas  engomados. 1,2,3 e deu certo logo no primeiro ataque. Todos da praça e os Franciscos olharam para cima como se também houvessem ensaiado, mas a pobre Quita deixou-se flagrar ao levantar-se fora do compasso, atrasou-se por segundos, foi vista de corpo inteiro por todos da rua. O bochicho chegou ao sobrado do Gentil, onde também morava o perigo. Mais tarde, na solidão de seu quarto, dois olhos intumescidos esperaram a hora do pai. Houve correia de usina, choro e ranger de dentes.

O arrependimento por não ter feito.


Em suas lembranças, Quita só mostra certa decepção por não ter participado da cata de roupas do açude, quando as meninas esconderam as roupas dos banhistas do Corgo Fundo. Enquanto aqueles nadavam pelados, elas rastejaram protegidas pelos pendões do capim gordura e recolheram calças, cuecas e camisas, e enfiaram tudo no meio  do  gravatá. E como diz o ditado, “levou a fama sem deitar na cama”.  Na noite daquele dia, provou o gosto amargo da injustiça, nas duras lambadas da correia dobrada de usina.

E aqui ficamos até que Edinho, Quita e sua turma apareçam de novo,não precisam avisar, é só voltar.

É mentira, Siovani?

-- 
Luiz Alfenas

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Jogo de búzios





Por Lulu


Sábado, Tuin Boca de Sapo amanhece na entrada do arraial de Piraguara, onde véspera de domingo é meio feriado. Vem de longa jornada com os olhos inchados de pouco dormir e as mãos lisas de pouca enxada, de cujo cabo se divorciou para pegar coisas mais leves.

Chega pelo lado do Corgo Fundo, onde as lavadeiras debruçam-se sobre trouxas e delas retiram roupas e lençóis que mergulham no açude. A sujeira desce água abaixo em borbulhas amareladas, que denunciam a poeira e o barro do arraial.  Mulheres novas, bonitas e bem acabadas da cabeça à sola dos pés, que embalam suas bacias com canções da moda ou com línguas afiadas contra políticos e vizinhos. O dia mal desponta e lá estão alegres e decididas no afã de esfregar, quarar e secar. O lugar homenageia a limpeza e a natureza: do outro lado da estrada, uma bica lava os pés dos que chegam e refresca quem tem sede ou calor. Potável, clara e quase gelada, essa água desce das terras de Xandi Fidelis, que zela pela sua pureza e temperatura cingindo o filete com plantações de bananeiras, inhames e gravatás.

Boca de Sapo atravessa o Matombô sem reparar nos poucos moradores  que já estão de pé.  Roceiro de pés descalços, chapéu de palha de aba larga, bolsos vazios de dinheiro e lenço, e sorriso amarelo. 
 Lá vai ele com seu jeito desengonçado de andar sobre os pedregulhos que a rua acumula, os quais o vento fez emergirem.Carrega o peso da traição que, como no nono círculo do inferno de Dante, desce ao coração, esfria a alma, endurece o rosto, congela o peito e faz doer músculos, cartilagens e ossos. Segue envolto numa atmosfera em que tudo que o espírito não apazígua transforma-se em gelo e convida o inferno e os que nele habitam. Um corpo em conflito com a consciência, campo de batalha para um silencioso duelo entre trair, um amargo remédio, ou relevar em covarde acomodação.  

Entra na praça. A venda do Jadir ainda está fechada, o caixeiro e os fregueses dormem e sonham com pechinchas e balanças de prato. Dois meninos brincam no átrio da Igreja Sagrado Coração de Jesus, a inocência levanta-se cedo para pular sobre ladrilhos carijós. Gustin dorme enrolado num paletó surrado, falta-lhe o conforto de uma cama com o calor de uma mulher. Com chuva ou frio, este dorme sempre ali, do lado da janela da sacristia, é excêntrico também no filosofar, é dele a cota: “não sei como morre tanta gente e não falta tábua para caixão”; vivesse na época de Sócrates e tomasse banho em plena rua, seria taxado de cínico. A sacristia fica nos fundos da igreja e nela descansa a imagem do Senhor dos Passos, que se resguarda para a semana santa quando representará para os paroquianos, através de chagas e expressões de sofrimento, o martírio de Cristo.

A Igreja está fechada, mas Boca de Sapo nunca se esquece de que lá dentro há uma legenda que mexe com a sua cabeça. Letras enormes dispostas numa fita suspensa por dois anjos, uma forte mensagem religiosa pintada na parede sobre o altar. O que significa aquilo? Por que o incomoda tanto? E agora que passa por ali,  os dísticos surgem impelidos por fantasmas que os movimentam em sua direção, parecem claros, nítidos, e saltam na sua frente numa sensação estranha e dolorosa, quase real, de um martelo a pregar, com 25 estocadas, cada uma das daquelas letras em sua testa:

A d o r o  t e  d e v o t e   l a t e n s   D e i t a s”. 

Boca de Sapo não é de ir à igreja, mas, no pouco que vai, seus olhos não conseguem desgrudar daquela mensagem cujo centro é o sacrário. A intrigante citação é seu mistério; e agora a última palavra, seu algoz: deitas! Deitas! Deitas!  Mas tem pressa, segue seu caminho,  não há como aplicar seu espírito ao compasso do insondável, só pensa em cumprir sua promessa. "Concentre-se, Boca de Sapo!" um espírito rigoroso está a cobrar-lhe. “Vá por você e por eles!” Ele obedece e prossegue a passos firmes.

Não hesita quando passa pelo Morro Cavacado e adentra ao Atrás do Morro. Esta pequena curva é o último portal para uma mudança de decisão, mas não cede àqueles reclames que enfraquecem a vontade. Anda mais alguns metros e bate na porta da delegacia, ninguém quer atender. Insiste. Demoram. Mas finalmente um soldado, com cara de preguiça e alma soberba, abre a boca em enorme bocejo e a porta, mas não a escancara como fizera com aquela. Olha para Boca de Sapo de meia-jota, ostentando pouco caso, e informa que o delegado especial, o Coronel Penacho, ainda não tinha chegado. E para completar a humilhação, o militar recrimina-o: 

— Cidadão, isso são horas de incomodar a autoridade maior! Não sabe que dia é hoje? Por que não desembucha logo, se for o caso, eu anoto e repasso. 

Não é hora para anotações e lembretes, Boca de Sapo sabe que não deve ser muito respeitoso com aquele intrometido: 

— Não converso com baganas quando o assunto é cigarro de palha.

Disse seco e firme.  

O soldado torce a cara enquanto pensa: “sábado cedo, ainda tenho que aguentar um mequetrefe desses com esse estranho palavreado. Um homem, que valoriza tanto o cigarro de palha, só pode ter vindo denunciar algum roubo de fumo de rolo”. Engana-se.

Boca de Sapo espera duas horas numa salinha menor do que a despensa de sua casa, que seria pequena para quarta e meia de milho.   Lá fora a manhã perde a neblina enquanto lá dentro a sala ganha calor que traz sono. Boca de Sapo cochila de pendular na cadeira e, como um carro velho, pega no solavanco, mas não cai. Um segundo de madorna parece um século quando sonhado: vê sua filhinha a abraçá-lo dizendo que o ama pelo que irá fazer “Não há traição, papai”, disse sorrindo. Mensagem tão sucinta, mas cravada nas raízes do ser, um bálsamo fugidio com cheiro de salmo. 

 Da janelinha da delegacia, Boca de Sapo percebe a autoridade maior que caminha pelo meio da rua pisando com zelo a própria sombra, que se deforma sobre um chão irregular. O sol inclina-se no zênite. O delegado entra sala adentro palitando os dentes e sugando fiapos de carne com um repuxão de ar — restos de costelinha da Pensão da Maria Gomes infiltrados entre dentes encavalados —.  Embora não haja nenhuma ocorrência para ocupar a autoridade, o mequetrefe tem que esperar mais alguns dilatados minutos, tudo para apequenar quem já veio humilde.  Sente-se transparente, inútil, esticado sob uma escala de insignificância entre um João-ninguém e um borra-botas. Mas, finalmente, o soldado o convoca:

— Entra cidadão! O delegado o espera. 

— Quero fazer uma denúncia!

Diz mesmo antes de qualquer bom dia ou de o delegado fazer qualquer menção de que irá ouvi-lo.

— Vamos com calma, cidadão! 

Diz o soldado e completa: 

— Espera o doutor Penacho lhe dirigir a palavra. 

Cala-se, é bravo, mas hoje é dia de reter toda raiva, represar toda vontade de xingar, dominar o ímpeto de briga.  Veio para acatar e não para ser reverenciado. “Crista baixa do lado do Penacho” se não pensou, sentiu a necessidade. Frente a frente com o delegado, espera alguns minutos no condensado silêncio do diminuto espaço e já duvida de que a autoridade tenha voz. Tem.  Finalmente o alívio de ouvir sair dali um som cavernoso, um rugido das profundezas do poder: 

— Qual o seu nome, e o que o traz aqui? 

— Meu nome é Antônio Van Hausberg, sou metade brasileiro de sangue quente e metade holandês de sangue azul, mas aqui sou conhecido como Tuin Boca de Sapo ou, simplesmente,  Boca de Sapo. 

 O delegado não teve como conter o riso, o apelido era muito apropriado, pois só agora reparava na boca do cidadão, um extenso vale ligando duas orelhas, também, enormes. “Uma boca assim pode fazer sucesso na política se a cabeça que a controla tiver miolos na mesma proporção de seu comprimento”, pensou.    Mas o cidadão não deixa a autoridade ficar remoendo pensamentos que o divertia, quer ir direto ao ponto: 

— Quero denunciar, com toda minha força e vontade, um grave crime que vem ocorrendo em minha região. O jogo de búzios. Ali o mal enturmou, o diabo entrou, e Deus deixou. 

— Seja mais claro, cidadão! Deus não faz vista grossa pra falta de vergonha na cara. O Delegado não tem o dia inteiro para colocar-se à sua disposição.  

Diz o aplicado soldado.

— Não me acode melhor explicação nem outro desfecho. Uma fila de um e muitos pegos na unha do cão, o demo mesmo!  Não colho outro senso.

— Mas jogo de búzios, aqui nem praia tem, seu Boca!

Diz o delegado

— A Bahia pode mandar todas as suas milícias para cercarem esse desmando do tinhoso, aqui não tem nem um grão de areia, mas a casquinha de caramujo vai acabar com nossas famílias. 

— Até onde conheço, búzios é coisa de predição nas mãos de orixás. As conchinhas só trabalham no campo da divindade.

— Engano dessa excelência, aqui nesta Piraguara as pessoas desvirtuam. Tudo que tem dois lados e que pode cair aberto ou fechado já dá margem a apostas e ganância. 

— Mas como é isso mesmo, senhor Boca de Sapo?  Os desgraçados estão assim tão viciados no jogo a ponto de prejudicar as famílias? 

— Prejudicar a família é pouco, estão levando a comunidade toda para o abismo do quinto dos infernos!

Disse Boca de Sapo, muito alterado. 

— Me explique isso melhor? Não entendo como pode ser tão grave um joguinho à toa, um passatempo inocente.

— Não diminua o poder do vício, doutor. Não é uma questão só do tempo que se perde lançando aquelas malditas conchinhas e torcendo para que caiam de acordo com as apostas, é dinheiro vivo! Quem vê só o ato e as pessoas debruçadas sobre aqueles restos de caramujos jogados na mesa não percebe o efeito esparramado nas casas.

— Estão apostando dinheiro. O senhor tem certeza?

 —Certeza máxima, mais certa do que estou aqui agora sentado na frente dessa excelência. As famílias já estão passando até fome, ninguém mais trabalha. Os homens só pensam no jogo. Os solteiros transformaram-se em vagabundos; e os casados, além disso, esquecem até as obrigações de servir a patroa nas necessidades camais. 

— O senhor quer dizer, necessidades carnais?

— Não, senhor, camais mesmo, eles chegam às suas casas esfarrapados das noitadas de jogo e mal têm tempo de tomar um café amargoso, e lavar os pés antes de caír no sono, se esquecem de que cama não é só para dormir.

— Tá bom! Tá bom! Já entendi. Estão ficando frouxos! Então vamos ao que interessa, o senhor veio mesmo por quê? Quer que eu prenda esses safados?

—Prender... Prender é pouco, tem que dar uma coça de deixar saudades, deixar esses mandriões trancafiados até se endireitarem.  E tem que ser rápido, porque senão a coisa vai desandar. Não quero aqui me meter a dar conselhos à pessoa de tão alto grau, mas acho que o senhor deve começar pelo chefe, aquele que cede a casa, serve cafezinhos, manda fazer biscoitos para enganar os estômagos no prolongamento do delito e, ainda por cima, cobra o barato de cinco por cento das apostas”.

— Então, Seu Boca de Sapo, me dê a lista dos safados!

— De nós, além do chefe que carrega culpa maior, tem o Machadinho, o Corpo Esticado, o Zangão, o Tiro Certo, o Mão Leve, este além do vício do jogo tem também o do roubo. E mais uma soma de gente. Este Machadinho era homem de missa, de hóstia nos domingos e de terço no meio da semana. Homem bom e trabalhador de fazer gosto,  mas agora merece prisão fechada mesmo, é preciso apertar aquele excomungado. 

— Este Tiro Certo, além do vício do jogo, é também algum pistoleiro?

— Não senhor, é um sujeito pacato até demais, o nome é porque o olho esquerdo dele não abre direito, e sua maneira de olhar lembra alguém a mirar um alvo.

— Entendi, este mundo tem esquisitices. Mas, Seu Boca, alguém já tentou fazer alguma coisa, mandar benzer, fazer novena, jogar sal grosso ou coisa parecida??

—Sal grosso é café pequeno pra esse banco de desocupados, sal grosso só serve para espantar os sapos que gostam de rodear os que jogam, dizemos de brincadeira. Reza pode servir para evitar o inferno ou ajudar a ir para o céu, mas não aborrece o vício. Se essas intervenções para o divino tivessem algum valor, o Machadinho já tinha se endireitado por causa de sua santa mulher, aquela já tem os joelhos escalavrados de tanto baixar no estrado de seu genuflexório, mulher assim devia ser canonizada em vida.

—E o nome do chefe, o senhor tem coragem de dar?

 Tenho demais da conta, sim senhor, esse pode ser preso de imediato e merece sova maior.

— Quem é então, senhor Boca de Sapo?

— Sou eu mesmo, com o lombo a seu dispor, excelência.

***