terça-feira, 8 de novembro de 2016

Era uma vez no pé do morro.

      
Por Lulu

Dedico este texto ao meu irmão que não gosta de  falar batata. 

Era uma vez no pé do morro, havia um rancho: casinha simples e arejada, num lugar bonito como quê! Suas paredes, pintadas de branco encardido, eram de pau-a-pique.  Tinha dois andares na parte da frente e, seguindo a inclinação do terreno e a arquitetura da região, apenas um pavimento na parte de traz, onde ficavam a cozinha e a despensa. Os quartos de dormir ficavam na parte mais alta da construção. A latrina era fora da casa, nos fundos da horta, e resumia-se numa casinha com um buraco no piso de madeira sobre um filete de água corrente que levava os dejetos para o ribeirão; pouca água, mas suficiente para arrastar o que nela conseguisse flutuar, e não era pouca coisa. Do lado da cozinha, a oeste, estendia-se uma esplêndida vargem, onde se entrecortavam estradas e trilhos. Aí iniciaram-se os acontecimentos aqui narrados, cujos diálogos foram escritos no “dialeto” da região, que ali era falado pelo início do século XX, embora as personagens reais não o usassem, o caso aconteceu mais ou menos como relatado. Adotamos essa linguagem para não tirar a beleza e graça do modo como nossa gente fallava. Sendo nossa geração muito próxima daquele tempo e daquele dialeto, podemos ainda compreender o que dizem — caso você, leitor, não entenda alguma palavra, pode inserir seu comentário no rodapé da postagem que responderemos. Aliás, os comentários prestam-se a qualquer impressão ou discordância, somos democráticos e sabemos levar desaforos pra casa (desde que não sejam muitos e impessoais) e estamos sempre aprendendo com os etc. —.

 Assim nivelados, vamos ao causo: 

— Sai da jinela minino, cê vai constipá! Sai já daí!

Disse uma preocupada  mãe  ao seu caçula, que não ligou para a censura e continuou na janela  a olhar na direção da várgea. Mas ao contrário de outras roças, o silêncio ali durava pouco.

— Mãe, óia lá, parece que vem vino uma mué lá na varge, ela já passou pela porteira e entrou na nossa estradinha. Qué vê? — disse o caçulinha apontando o dedo sujo de carvão para a várzea em frente.  

A virtuosa mãe hesitou antes de abrir mão do calor do fogão e arredar-se da chaleira onde fervia água para o  café, mas finalmente cedeu ao apelo do menino.  Abandonou seu céu de picumã, atravessou a cozinha, chegou até o filho encostado na janela,  debruçou-se sobre  o peitoril de madeira e pode, finalmente,  ver que ao longe um borrão contaminava o verde daquele paraíso, então, disse: 

— Fio, num é que parece mêmo uma mué! A esta hora do dia, quem há de sê? É cedo para visita, mas tarde pra arguma neguinha vim pedí leite. Nove hora da manhã; nesta tardura, todo mundo sabe que nóis já tirou leite das vaca e éas já  tão no bem bão do capim gordura.

E completou:

— Quédi a Filó? Êta minina artiosa,  não  para, nem dentro, nem fora de casa.

Uma risadinha estridente, marca de inocência, bondade e da alegria de viver, vinha se avivando dos lados do terreiro da cozinha e, como sempre, anunciava a chegada da menina Filó.

A educadora dona da casa, que já havia colocado o coador no mancebo enquanto se preparava para passar o café,  repreendeu a menina: 

— Buraca! Sempre que preciso de ocê, ocê demora a aparêcê; onde cê tava?

— Uai! A Sinhora num sabe. Eu fisse o qui a Sinhora pidiu. Fui lá na casa do seu Ôrico —  respondeu a humildade em pessoa.

— Quê cê foi cheirá lá? Disse a gloriosa  senhora e esboçou um sorriso sinalizando que estava brincando, mas a menina levou a sério:

— Ué! Banzerando é que eu num tava, fui buscá os ovo que a sinhora emprestou pra mué dele, a Sinhaninha. Fisse como a sinhora mandou.

— Mandei í e vortá, não era pra arranchá lá!

Com essas palavras, que expressavam mais aflição do que  vontade de corrigir a pobre criada, a dona de casa deu por encerrada a   admoestação, pois  agora tinha tarefa importante para ela.

Precavida, como devem ser as criaturas que vivem em locais ermos sob a guarda de Deus, que nem sempre intervém, e onde o vizinho mais próximo fica a mais de légua, a jovem dona de casa mandou a menina investigar: 

—  Filó, ocê dá um pulinho lá na estrada. Vai num pé e vorta noutro. Num fica remanchando. Vê que arma deste fim de mundo vem lá. Não se achegue muito perto dela, nóis num deve de dá confiança nem trela pra vadios de estrada. 

A diligente e gloriosa ajudante, ligeira no passo e esperta no tino, atravessou a cozinha, desceu o terreiro lateral, passou entre o paiol de milho e o esteio de braúna do sobrado e saiu no curral de leite, na frente da casa — um atoleiro de bosta e urina de vaca —, e de lá ganhou a estradinha para a indagação do quem-vem-lá. Nesse entrementes, a mulher que lá vinha ganhara meio caminho, da porteira que fecha as terra da fazenda para a estrada larga até a entrada do curral de leite, e, em passos largos e decididos, chegaria depressa à casa, mas quando viu a menina indo ao seu encontro agarrou de dar umas paradinhas e como uma mula circense bem ensinada dava três pulinhos seguidos por um movimento de jogar alguma coisa para trás. Filó a reconheceu sem precisar se achegar muito; fez meia volta e logo estava, quase sem fôlego, ao lado da patroa. 

— É a Maria Doida, sem tirá nem pô — disse convencida e completou, — Ocês pode esperá que vem encrenca!

— Filó, ocê tem certeza que é ela? — perguntou a patroa. 

— Mais qui certo — respondeu a menina e completou — arguém mais, pressas bandas, anda torcida que nem taboa em tempo de enchente e com os braço tão balançantes? Ela sacode qui nem  um carro de boi com caruncho no cocão.

 Um dos meninos cochichou alguma  maledicência, cuspindo uma gosma preta no ouvido de outro, mas o apurado ouvido da gloriosa serviçal pode escutar, do miúdo ao graúdo, o que o moleque dizia: 

— Será a tar que mija em pé sem arriá a carcinha? 

Perguntara o maldoso Antônio Timódeo, mesmo antes de a menina informar tudo,  ele mesmo  respondeu sem esperar que ela o fizesse:  

— Não arria nem sunga porque não arriou; só pode sê ela. Acho que por debaixo da saia não tem pano argum. 

O sorriso encalistrado da bondosa Filó confirmou a maneira de vestir daquela mulher e, consequentemente, a identificou. A dona da casa, então, preparou-se para o pior e, na dúvida, foi dar uma boa espiada na janela da sala, de onde se podia avistar com largueza e longe, e arredar todo engano na conhecença de quem vinha; e tomou fé: era mesmo a tal, a maluca vezeira em frequentar sua casa e em lhe trazer todo tipo de aborrecimento.  Só de ajuizar a amolação, amuou-se e foi novamente para a cozinha.  Sabia que aquela entraria por lá, nunca viera pela frente da casa. “ Seja tudo pelo amor de Deus!”, pensou.

A amolação entrou pela porta em que era esperada, a da cozinha, e já vinha ensaiando as lamentações de sempre que, contudo, agora pareciam motivadas por justas razões: 

— Acode eu cumadi! Pelo amor do Eterno!

A dona da casa não deixou o que ainda era sereno virar chuva grossa e, antes que começasse a precipitação de lamúrias,  perguntou: 

— Me adesculpe a má prigunta, por que a senhora vem dano umas paradinhas e uns pulinhos, uns aqui outros acolá?  A senhora tá cumprino promessa pra São Longuinho ou tá só jogano  argum trem para trás?

 Maria doida respondeu rapidamente:

 — Nunca aliguei pra São Longuinho, não tenho nada pra perdê e qui dirá pra achá; tava é jogano pra tráis de minha cacunda umas fôia de couve que peguei na horta do cumpadi Zé do Quiabo. A senhora sabe, jogá fôia de couve pra tráis faz caí as berruga, num sabe?

A dona da casa não quis comprometer-se:

 — Sei dessas coisa não senhora. A senhora devia sabê que praticá essas crendice e simpatia é contra a lei da Santa Madre Igreja. Isso é pecado, não passa de babosice.
 Mas a doida, que não o era apenas no apelido ou pra fazer tipo, ao invés de responder, deu mais sustança ao falatório das crianças que tagarelavam ao seu lado do que àquelas admoestações da dona da casa e disse:

— Vamo falano comadi enquanto ês tão latino!

Isso dizia enquanto apontava um dedo ameaçador para as crianças que cochichavam e riam e, logo em seguida, já esquecida da repentina cólera, voltou ao assunto das folhas jogadas ao vento: 

—  antonse, comadi, se as fôia faz caí as berruga, deve de fazê tumbém caí estas feridinha,  que me alastra pelo corpo todo, nas perna, nos meio delas, nas parte, na barriga, no mama e nos braço, cara e pescoço.

Enquanto falava ia mostrando o corpo.  As crianças riam daquela nudez morena enfeitada com pintas vermelhas, ela os recriminava: 

— Deixe ês mostrá as canjica e nóis vai mostrano nosso má, não aliga não cumadi!

A dona de casa, Sá Miritita, criada e forjada no sopro dos foles da idade média, na fé e na moral cristã, aborrecida com a falta de compostura da Maria Doida, deu dois passos para trás; recatada, temia que as crianças pecassem pela visão da nudez, e havia também o risco de que pegassem a doença das pintinhas. Aquilo podia ser mais do que uma simples sarna ou alergia,  e era, como constatou o dono da casa, um sabido das coisas de medicina, que afirmou tão logo deitou os olhos na seminua doida: 

— A senhora, Dona Doida, está com varicela, e isso pega mais que visgo de gameleira-branca. 

E logo se cogitou que ela deveria permanecer em cômodo separado, bem longe dos da casa, no catre que foi colocado às  pressas no sobrado debaixo da salinha de jantar. Quando a levava para seus aposentos, Filó perguntou-lhe: 

— A senhora trouxe arguma coisa limpa pra vestí? 

E ela respondeu comovida: 

— Truxe não, num aliga não, boa minina Filó, pru meu uso me abasta uma camisola branca e um trabisseiro de paina, eu posso drumi até no chão duro.

Filó fofou as palhas do colchão, estendeu os lençóis, pôs fronha num surrado travesseiro de paina. E deixou do lado, sobre um banquinho de madeira, um baixeiro e duas mantas de arreio para o caso de alguma eventualidade.  E nesse improviso, nada faltava para a higiene pessoal que negasse à paciente o sagrado direito de lavar as mãos, a cara e os pés. Nesse fim de mundo, mais do que isso era luxo só para médicos e padres.

E assim, já acomodada, a impaciente paciente logo quis tomar as rédeas do próprio trato e ampliou as lamúrias, que se tornariam rotina. Enquanto ali arranchava, dia e noite, a doida gritava: 

— Cumadi dona da casa! Sá Miritita!  Acode que tou nas garra da tinhosa, morro e não vorto! Boa Filó, acode que morro à mingua! 

Por mais que lhe servissem boa comida, roupas limpas, cobertores, água potável e um penico esmaltado — esvaziado, areado e enxaguado todo santo dia — a doida continuava a pedir cada vez mais: 

— Ah cumadi! Tou sentido farta de um pedaço de frango, uma moela, um asa magra, um osso pra roer ou um pescoço pra chupá. Ah cumadi! Pode sê o sobre... Que vontade de comê um sobre! 

E, no delongar daquela estada, o galinheiro caminhava para o esvaziamento, pois a dona da casa temia o remorso e o falatório do arraial caso a doida morresse à míngua — certo é que poucos ajudam, mas todos metem a colher da pau quando a piedade alheia falha —; e assim: dá-lhe caldo de galinha, que não faz mal a  ninguém; sopa de inhame, que é bom pra pele; cuscuz de fubá, que revigora os tutanos; e angu bem cozido para dar liga em tudo que é líquido e tem que ser comido com as mãos, como a doida fazia. 
Depois de alguns dias nesse lesco-lesco e sobe-e-desce no terreiro da cozinha, que era o caminho para o quarto improvisado, Filó gemeu mais que perguntou: 

— Êta carvário sem fim. Nossa despensa há de aguentá essa mué se entrouxando desse jeito? 

E, quando tudo parecia muito ruim, ainda coube um tiquinho de piora: enquanto as pintas secavam na doida, elas iam aparecendo nos três menores da casa.

Filó achou que era hora de atitude e sugeriu:

— Sá Miritita, não é mió a gente fazê um mingau prus meninos? É modi apazigua as lumbriga e deixá saí tudo quanto é pinta, pra não eternizá essa saideira. 

Emanuel, o caçulinha, logo  opinou:

—Eu mais Lordino queremu mingau de zé gome, serve também o de maisena; Antônio Timóteo não qué nada,  perdeu a fome depois que botaru uma camisola branca nele. 

E como Filó não obteve resposta da dona da casa, nem mesmo um muxoxo de discordância, e foi acolhida por duas das crianças, fez o mingau de legumes, pois entendera que o zé gome não passava de legumes,  e empanturrou os meninos.
A comida, se não fez bem, matar não matou. As camisolas, essas sim, não desceram bem em nenhum deles; é que os mais velhos da casa começaram a caçoar dos pequenos e chamá-los de mulherzinhas. A bem da verdade, diziam: 

— home de camisola, que vergonha danada, home sem carça é  mué de sordado.

Lordino, o bom de briga, retrucou renitente e já armando pescoção: 

— Bobo é o que ocês é! Mué de sordado é aquele que chega derradeiro numa corrida de estrada ou de rua. Nóis tá de camisola é modi as pinta num agarrá nas camisa e carça. Mamãe qué nóis são depressa e sem pereba no corpo. 

E nesse contrassenso e desgarramento de tudo quanto é piedoso, os maiores abusavam do perrengue dos três pequenos:

— mué é mué, homi é homi e chulé é chule; quem tem pinta não tem pinto. Todas essas chacotas tiveram fim quando Antônio Timóteo, o quebra  ossos,  jogou praga nos marmanjos: 

— Deus tá veno ocês; com a fé de Deus, do Pai, do Filho e do Divino Isprito Santo, essas pintinhas vai secá ni nóis e  vai nascê nas bunda de ocês. 

Foi como se um balde de água esparramasse sua umidade fria sobre um fogo de palha, nem cinza restou. Se por medo da praga ou se porque o dono da casa podia castigá-los com umas boas palmadas pelas bundas brancas — quem há de saber! — os marmanjos enfiaram a viola no saco e foram cantar na freguesia do: — Ó mãe, óia o que os minino tão dizendo. A sinhora não disse pra gente não rogá praga. Manda papai passá umas boas combreadas nês, manda! 

E assim, acabadas as galinhas e no frigir dos ovos, a doida aprumou-se em poucos dias e já almoçava na cozinha junto aos de casa. 

— Não aliga não cumadi. Vamo puxá cumadi!  Enquanto ês tão latino nóis vamo cumeno. Não aliga não!

 E, nesse lenga-lenga de doida, a esbaforida maluca dos cabelos crespos pegava pelo braço a franzina dona da casa e a arrastava para a beirada fogão e enchia uma cuia com angu, feijão, arroz e carne de lata. Depois de servir-se sem os limites da boa educação, acocorava-se no canto mais escuro possível e refestelava-se comendo com as próprias mãos, usava os dedos em vez do garfo, e os dentes no lugar da faca.

Os meninos, agora já contaminados e ainda doentes, não tinham mais o que temer e, à moda da roça, empuleiravam-se no descanso do fogão enquanto apreciavam aquele palavreado bizarro e engraçado. Nem conversando estavam e a doida os denunciava com aquela repetição, agora sem ênfase: 

— enquanto ês tão latino, nóis vamo cumeno.

Sã que nem coco, depois de alguns dias daquela hospitalidade de luxo, mesmo assim, Maria doida, caso não fosse pressionada, não arredaria mais o pé daquele conforto. Mas a inteligente Filó deu seu jeitinho ao dizer-lhe:

— Pru que a sinhora não aproveita que melhorou e vai simbora daqui? Ou será que a sinhora num sabe que essa doença pode inté  matá, isso se pegá de novo em quem está saino da perenguice.

A doida logo pegou sua trouxa, engordada com as roupas presenteadas pela dona de casa, e ganhou chão. Mas, numa repetição que não conseguia controlar, propagava, agora, aos quatro ventos: 

— Ô povo ruim que qué me matá a mingua e ainda inventa doença que repega. Ô povo ruim, povo ruim, povo ruim! Povo ruim mesmo!...

E assim termina a história dessa pobre louca... Quem quiser que conte outra.


sábado, 29 de outubro de 2016

Muito além do horizonte.


A nave desceu suave, silenciosa. Ajustou-se  e acoplou-se
 à estrutura da torre sineira, tornou-se transparente e quase 
invisível.






















Escrito por Lulu
Revisão: ET-vino


— Gaia, estou indo, como te disse ontem. 
Esperou uma resposta, não houve, insistiu:
— Gaia, estou saindo, tu vens?
— Homem!  De novo me amolas com essa bobagem. Já não te disse que não gosto que me metas nisso.
A voz grave e rouca insistiu: 
— Essas coisas não acontecem todo dia, se perdes uma, talvez estejas perdendo a única oportunidade de toda a vida. Eu fico triste de ver uma irmã tão querida ficar fora dum evento que não se repetirá tão cedo. Deixes dessa rabugice, vamos! Tu entras se quiser, ninguém é obrigado a embarcar contra a vontade. 
— De novo tu repetes essa ladainha. Não me faças passar por boba, nós já não estamos em boa conta na Rua, ainda mais agora que o vigário passou a implicar comigo, e eu nem posso tocar mais no coro. Já perdi meu piano e agora queres que eu perca o respeito dessa gente. 
Fez-se silêncio, mas Gaia ainda tinha o que dizer:                                       
— E tu continuas a acreditar  nessas besteiras, em coisas que não existem. Acho que a mulher do Adão Lino está fazendo sua cabeça. Aquela age na surdina, mas é uma praga em sua vida. Finge que acredita, instiga-o e ri por trás.
Novo intervalo, um galo cantou no terreiro, a voz grossa ainda inistiu com uma metáfora antiga e com despedidas que soavam como uma ameaça de quem dá uma última oportunidade a uma criança:
— Lavo minhas mãos! Até logo, ouviu Gaia! Estou indo!
— Vá com Deus! Eu quero dormir um pouco mais, mereço paz. Não te esqueças de taramelar a porta e de verificar se ficou bem fechada. 
Passo curto e lento, saiu para a Praça São Sebastião, atravessou a calçada, encostou-se na mureta ao lado de onde haviam colado uma foto grande de Ciro Maciel sob a sigla PR escrita em letras garrafais. Pousou seu olhar na torre da Igreja. "Devia haver um relógio encravado na torre sineira no lugar onde colocaram aquele vitral redondo", pensou. Relógio... falta não fazia agora, não havia dúvidas de que eram cinco e dez.  A pontualidade era o forte daquele relacionamento intergaláctico, e a telepatia,  mãos invisíveis a dedilharem, em código binário e preciso, as horas, minutos, segundos e nanossegundos em seu cérebro.
O homem voltou-se para a encosta a procura de sinais da nave. Passou as mãos sobre os cabelos ligeiramente crespos, cara bexiguenta, pele frisada como a face da lua cobrindo um rosto sério, a confiança mora ali; mas não, a paciência. Sorriu complacente com os incrédulos da terra que não acreditavam que ele pudesse ter um pacto com as estrelas. Ensaiou um pensamento de “bem feito pra eles!”, o pensamento escapou. Esperou alguns segundos, espantou o frio com um esfregar de mãos e puxou a gola da blusa de lã até o queixo. Cuspiu de lado, gosma grudenta, nojo escorrido pelas folhas da grama que vicejava estreita entre as pedras daquela saída de rua; tudo com cuidado, sem barulho, sem movimentos bruscos. O momento era sagrado; e o silêncio, um arauto. 
Nenhuma dúvida quanto à pontualidade, eles nunca falhavam. A certeza de que estariam ali dentro de segundos era a mesma de que o penico estaria debaixo da cama quando levasse a mão para pegá-lo nas madrugadas das frequentes insônias, em que os pensamentos repletos de viagens espaciais nunca o deixavam descansar como devia; um pensamento leva a outro: pensou na distância entre a latrina e a casa, pensamento desconexo, nada a ver com a grandeza do momento, descarte imediato. Girou o pescoço e ombros, em movimentos bruscos, como se fosse um robô, até perscrutar toda a Praça, ninguém. Tudo pronto, a Praça preenchida pela solidão era necessária.
A nave desceu suave, silenciosa, iluminada. Ajustou-se e acoplou-se à estrutura da torre sineira, tornou-se transparente e quase invisível, é-lhes proibido perturbar a beleza ou a feiura dos lugares. Luzes inteligentes flutuaram em direção ao homem da Praça, exemplar único naquele espaço. Adentraram em seu cérebro, aderiram, incrustaram-se, fecharam-se circuitos; e voltaram para nave e ela, para as estrelas. 
Um pedaço de gente com um sorriso de confiança congelado e com o mesmo semblante de calma permaneceu ali na Praça. Passaram-se alguns nanossegundos, tempo que não se mede pelos parâmetros da terra, e, novamente, a nave pousou na Praça, no mesmo silêncio, na mesma solidão necessária, com a mesma transparência, com a mesma acoplagem. As luzes agora adentram no cérebro para reverterem o processo: desincrustam-se, desfizeram-se elos, rearranjo geral, e voltaram para a nave, que parte definitivamente. 
Na Praça, o mesmo homem, o mesmo sorriso de robô, mas agora um ser inteiro e viajado. Tem casos para contar: viagens interplanetárias irão povoar as cabeças das crianças e de, alguns poucos, adultos.
Quando voltou para casa, entrou direto. Mal havia taramelado a porta, a irmã perguntou: 
— Uai! Não vais?

Ele deu um sorriso de “coitada, não sabe de nada!” e, vingativo, não respondeu.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A Usina e a escuridão





     Por Lulu




    Escrito à luz de lamparina pela minha melhor metade.

Dedicado ao amigo Izaltino Gonçalves Filho.

Uma luz que se apagava.

Há amores que não adormecem em nós, e fatos que não deveriam ser esquecidos, assim me parece a história da usina elétrica que, nos anos 50/60 do século XX, servia à comunidade de Senhora de Oliveira, mas era propriedade de Piranga. A partir de 1953, essa geradora passou a ser a causa de querelas entre os habitantes das duas cidades. Enquanto os políticos e cidadãos mais exaltados brigavam pelo direito de usá-la, a usina definhava, como um doente abandonado que aos poucos vai perdendo a energia e a capacidade de transmiti-la aos outros e, já nos estertores da morte, sua forma visível, um tanto esmaecida, brindava-nos com uma luz apagada, uma vela. Nem os adeptos de São Lázaro tinham esperanças de que aquelas máquinas ressuscitariam. Nós, os oliveirenses, fingíamos ter luz; e a cidade de Piranga, que no-la cedia.

Muitos entreveros aconteceram naqueles anos obscuros, alguns nem sei se fruto de invencionices de nossa gente, que é cismada demais, como a história de que alguns populares de Piranga houvessem saído em passeata em direção a Senhora de Oliveira com a intenção de percorrerem os 22 quilômetros que separam as sedes dos dois municípios e de, ao final do percurso, desligarem uma grande chave que deixava passar a energia que ia para o ex-distrito. Mas, até onde se sabe, prevaleceu o bom senso da turma do deixa disso, e a aventura foi abortada.

Piraguara, a melhor costela de Piranga.

Poucos admitem a importância de Piranga no desenvolvimento de Senhora de Oliveira. Não deveria haver controvérsia sobre isso: uma é filha da outra, mas não se reconheciam como tal. Aliás, não fossem todas as provas históricas escritas e faladas de que Piraguara fora distrito de Piranga, bastaria esse nome para servir de testemunha cabal de que as duas cidades tiveram a mesma origem: Piraguara, se lhe acrescenta uma “nga”, nada mais é que Guarapiranga escrita ao contrário e, por sua vez, Guarapiranga é o antigo nome de Piranga. Que Piranga chamava-se Guarapiranga todo mundo sabe ou deveria saber, o que ninguém sabe é por que, em 1923, tiraram o guará (palavra indígena que significa vermelho) da fachada de uma e botaram como rabicho na outra. Muitas piadas caberiam nesse troca-troca de letras, mas, naquele tempo, uma brincadeira com isso poderia levar a óbito. Era um tempo em que os ânimos exaltados prevaleciam sobre o legado que a cidade menor recebera da maior. Menos ainda reconheceriam, os habitantes de Senhora de Oliveira, que a energia elétrica fora instalada no antigo arraial sob a administração de Piranga.


Nos casos de emancipação municipal, é normal que aconteça um olhar enviesado dos moradores da sede do território desmembrado em direção aos beneficiados com a mudança. Na maioria das vezes, as animosidades começam na campanha para a desvinculação, em que as pessoas que desejam a autonomia de governo têm que contrariar seus habituais parceiros, decepcionar os antigos chefes políticos e negar as vantagens da unidade. Uma não quer mais depender da outra para planejar e executar seu próprio desenvolvimento. Essa liberdade, de andar com as próprias pernas, tem seu preço e assim aconteceu neste caso, depois que Piraguara emancipou-se e saiu para o abraço, viu que Piranga continuava com os braços cruzados, numa atitude em que se fechava a uma solução amigável no caso da energia elétrica. Por outro lado, o povo de Senhora de Oliveira não quis compreender que, sob a ótica da antiga sede, cortar a energia de seu ex-distrito não era uma questão de birra, a luz não dava nem para uma das comunidades, alguém tinha que sofrer, e, em casos assim, sofre mais quem pode menos.

Não cortou por quê?

Pergunta quem lê este apanhado, por que Piranga, sendo a dona da usina, simplesmente não desligou a luz de Senhora de Oliveira, e ponto final. Acontece, caro amigo, caso você ainda não saiba, a usina era fincada, em maciço de pedra, dentro do Município de Senhora de Oliveira e a poucos quilômetros do casario. Essa usina ostentava sua bela figura ali onde hoje, outubro de 2012, está a destilaria de álcool Junivan. Vê-se que evitar uma briga desse tamanho não era só uma questão de bom senso, a dona da usina temia represálias. Não houvesse uma solução amigável, o patrimônio, objeto da disputa, ficaria à mercê do povo prejudicado que, com certeza, não seria um depositário fiel confiável. Questões de ordem prática completavam esse quadro: para desligarem a luz de Senhora de Oliveira, mesmo que atalhassem por Guiné, uma pequena comunidade quase nas divisas entre as duas litigantes, ainda tinham que passar por uma grande faixa de terras que, na nova ordem, pertenciam ao município recém-nascido. Na época, Alcides Fidelis, teria resumido o impasse com a frase: "quem bebe a água que nasce em terras do vizinho de cima só pode brigar com o de baixo".

Um paraíso para as crianças.

Para as crianças daquele tempo, do que sou testemunha ocular, a usina era um local mágico aonde iam com as professoras que as ensinavam um pouco de como se dá a luz — não confundir com como se dá à luz, pois naquela época esse assunto era tabu, e as meninas, pelo recato com que eram educadas, jamais poderiam ouvir sobre essas coisas de uma professora, pois esta correria o risco perder o emprego, no mínimo —. Mas vamos deixar de lado esses detalhes, voltemos ao tema central: pensar na usina é pensar em sô Lauro (que Deus o tenha em sua luz), um gênio que sabia consertar aquelas parafernálias que rodavam a grande velocidade, produzindo correntes misteriosamente elétricas, coisas invisíveis e sem peso, que escapuliam por aqueles fios finos e levavam aquela brasa para as lâmpadas das ruas e das casas. Para as crianças, essa magia tornava-se mais uma atração, pois o local, onde ficava a usina, era também excepcional, mesmo para quem não apreciava adjetivos fortes era: estupendo, maravilhoso, encantador e o escambau. A água do Ribeirão dos Peixes era aprisionada, alguns metros antes de chegar à usina, por um canal cimentado e assim,  escrava do trajeto, como um boi entra no matadouro, ia cair num tubo enorme que se afunilava até chegar à roda dentada, parecida com essas de moinho de fubá, só que em posição vertical. Tanta água espremida pela gravidade só podia descer com força e, assim, chegar à roda, senhora da mágica maior, com enorme pressão, e aquilo zunia, como dissera Chico Filó quando ali excursionara, "Zune em cima e ferve embaixo", e os colegas pensaram que ele se referisse à alguma colega de sala mais falante e assanhada, mas não, filó havia sido literal.

O sucateamento

Mas nós, as crianças, perderíamos aquele paraíso. Dizia-se que o processo de sucateamento da usina começara quando ela servia a outras comunidades. O certo é que, depois de 1953, com a emancipação do distrito de Piraguara, que passou a chamar-se Senhora de Oliveira, as trevas se aproximavam e causavam terror, maior, obviamente, entre as mães de família, principalmente as que tinham meninas moças; estas, as donzelas, nem se importavam, pois a juventude sempre percebe quando um novo tempo de mais liberdade, responsabilidade e amor se aproxima, mas as matriarcas, agarradas nas tábuas do passado, tremiam enquanto pensavam em suas filhas naquela escuridão, naquele apagão intermitente e ao alcance de marmanjos aproveitadores. Enquanto as mães invocavam seus santos em extensas ladainhas cantadas na penumbra da Igreja Sagrado Coração de Jesus, os anos iam passando, e a picuinha entre as duas cidades crescendo: ninguém queria ficar sem luz, então, elas brigavam pelo restinho que ainda podiam ter. Cortar a luz da nova e orgulhosa cidade, como solução paliativa, ocorria com frequência. Às vezes Piranga justificava a cada vez menos esporádica interrupção do fornecimento com argumentos técnicos, mas, com os ânimos acirrados, o povo de Senhora de Oliveira não mais confiava em desculpas. As brigas miúdas eram de conhecimento do povo, mas as mais importantes ocorriam nos bastidores da política, principalmente em Piranga, onde havia gente graúda que não queria uma solução enquanto os adversários estivessem no poder. Nesse tocante, o que ocorria em Senhora de Oliveira era bem diferente.

Era ruim e piorou.



Enquanto os mandachuvas brigavam, e os anos passavam, uma depreciação maquinal e maquiavélica, porque tramada, grassava à velocidade da luz, pondo oxidação e trincas naquelas engrenagens, causando um travamento progressivo e contínuo, e a usina gemia, não mais zunia. E as lâmpadas pisca-piscavam a noite inteira e algumas fagulhavam e nem se sabia ao certo se estavam acesas ou apagadas. Para quem gosta do ditado de que é na escuridão que se vê melhor, vivesse na região, nos anos 60 do século XX, e seria um sábio de grande visão e muito tropicão; iluminado à noite, naquela época, só mesmo o céu, é claro. Mas assim como não serve ao progresso a filosofia da escuridão e nem ao sábio "o vamos esperar para ver", alguém ou alguns teriam que vir em socorro à população e vieram: na beira do rio Piranga, uma cabeça mais pensante do que as outras teve uma ideia que um dia Geraldo Vandré imortalizaria com o refrão: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".


A criação ao contrário: faça-se a escuridão, e a escuridão se fez.


Izaltino Gonçalves Filho,
o Titino, foi testemunha
ocular da histórica queda
de postes. Na foto ele
aparece de calça preta,
camisa branca e óculos
escuros. (Clique para
ampliar esta foto)
O fim desta história de usina acabou, para Piranga, da seguinte forma: algumas lideranças, dessa histórica, bonita e importante cidade, cansadas de esperarem por uma solução política, já que as forças da oposição amarravam a entrada de Cemig, isso porque não queriam entregar os louros desse feito ao Prefeito da situação, resolveram agir. Convencidos de que é melhor uma escuridão passageira que um lusco-fusco pelo resto da vida, cerca de cem homens rumaram decididos até as divisas de Senhora de Oliveira e de lá voltaram derrubando postes, enrolando fios, e assim passaram o dia inteiro. À noite entraram em Piranga com caminhões carregados de fios de cobre, transformadores e outros equipamentos menores usados como isolantes, jogaram tudo na frente da Prefeitura e na Praça. Conseguiram a mudança na marra. A partir de então, nenhuma força política teria como atrasar a entrada da luz na cidade.

Em Senhora de Oliveira, algum tempo depois, aconteceria algo também um tanto fora do comum, a usina seria levada água abaixo. Pode parecer até uma piada, mas é a mais pura verdade: sem mais nem menos tudo ruiu: tubos pesados, paredes de concretos, máquinas, tudo perdido de um minuto para outro. Suspeitas de sabotagem? É claro, mas o líquido e certo é que aquelas águas não mais tocariam rodas e nunca mais zuniriam em cima e ferveriam embaixo. A perda da usina representou um prejuízo incalculável para Senhora de Oliveira, caso tivesse sido mantida, o município, a exemplo de outros que assim fizeram, poderia vender sua energia para a Cemig e assim reduzir seus custos com economia substantiva para toda a população da cidade e da zona rural. 

E antes que a escuridão do tempo assoreie as nossas mentes e encubra de vez nossa história e nos afaste de qualquer vestígio de verdade, escreveu-se essa versão dos fatos, outros que abram as comportas de suas versões. Lembrem-se de Carlos Drummond de Andrade a sussurrar em nossos ouvidos "A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade".



quarta-feira, 27 de junho de 2012

Bichoca-de-cana-caiana.




Gentil e Neném, gêmeos idênticos.



Dedicado àqueles que têm certas 
incertezas quanto a estarem vivos.



Por Lulu


Esta é a história dos gêmeos idênticos, Gentil e Neném, que trabalhavam num engenho puxado a cavalo. Ali eles operavam os equipamentos de extração da garapa de cana-de-açúcar e cuidavam do cavalo durante a jornada diária. Pequenos, mas exímios em tarefas que exigissem força física, só tinham dificuldades para alcançar objetos altos.
Dois moleques que faziam uma dupla respeitada pelos adultos, pois viviam em perfeita harmonia, sem discussões e mamparras, o que favorecia o trabalho. Além de serem iguais na aparência, tinham os mesmos traços psicológicos: dóceis; bom caráter, embora em formação; alegres desde o berço de taquara, onde a mãe os embalara ao ritmo da mão de pilão — recurso de mãe pobre, uma mão para o carinho, outra para o pão.
Precoces em força e agilidade, cedo foram colocados sob o peso das ordens de um patrão que expressava seu motivo econômico, repetido diariamente, no início de cada jornada de trabalho, com palavras espalhafatosas que eles não entendiam: "A limpeza e a organização no ambiente da obrigação é o melhor meio para se produzir cada vez mais com cada vez menos". Talvez até sem o perceber, o patrão dava sempre um acento mais forte ao falar “cada vez mais com cada vez menos”.
Eram de uma família humilde que morava numa casinha de sapé, com piso de chão batido e paredes de pau a pique rebocadas com barro cru.  Nas noites frias, adultos e crianças embolavam-se ao redor de um fogo no centro da cozinha. Enquanto as chamas crepitavam, os marmanjos contavam casos de assombração que as crianças ouviam aterrorizadas, mas logo esqueciam essas histórias e, entre risos e deboches, brincavam com  aquele lema do engenho e cantarolavam-no como se fosse um refrão de carnaval: "Cada vez mais com cada vez menos... Cada vez mais com cada vez menos... Cada vez mais com cada vez menos...”. O eco do engenho invadia a vida privada com novos significados, mas ninguém via mal nisso. 
Os cavalos do engenho eram domados para charrete, portanto, aceitavam viseiras. O proprietário, JB, usava a  viseira como trampolim para criar uma linguagem de comunicação com os garotos, dizia-lhes: "animais e crianças, quando em serviço, não podem ficar olhando para os lados; meninos precisam se concentrar e cavalos não podem se assustar". E, para fechar com chave de ouro, completava solene: "Mantenham um olho no cavalo e outro nas moendas", instrução que as crianças entendiam num sentido muito literal e, por isso, não tinham como praticá-la, não sendo zarolhos não podiam olhar para lados opostos ao mesmo tempo.

Acostumados a essa lida e sem noção de outras possibilidades, nem os meninos, nem seus pais tinham motivos para reclamações, não conheciam livros nem notícias de um mundo melhor. Para os meninos, tudo que cabia em seus sonhos estava à mão: um bom engenho, um raro patrão que xingava pouco,   um alazão forte e preparado para a moagem de canas encorpadas, e equipamentos bem lubrificados.
Mas chegou o dia em que a natureza fez o bagaço liberar um cheiro, curiosamente agradável, de garapa em fermentação. Um mundo ideal despertara, havia um brilho especial no canavial. A cerração se dissipava. O sol esparramava sua luz sobre a beleza do lugar e fazia a vida mais alegre e, pelo contraste, a morte mais triste pelo que com ela se poderia perder. Deus estava presente no vento, nas últimas gotículas de neblina, na vegetação e na claridade alaranjada que tomava conta das grotas mais próximas; e o diabo espreitava pelo buraco da bichoca-da-cana-caiana.
Um pouco mais tarde, o lugar esquentou e a vida latejava forte. O engenho entrou no seu normal: o cavalo no caminhar em círculo; a moenda a engolir as canas; o bagaço caindo seco num balaio; a garapa escorrendo para a grande tacha de rapadura. O sol atingia o ponto mais alto do céu quando o menino que alimentava a moenda distraiu-se do trabalho porque chupava, com fome e gulodice, um pedaço de cana caiana que descascara com seu canivete de bolso . Lambuzava-se como se fosse a última doçura que a vida lhe daria. Com a mão direita, segurava o gomo que chupava e; com a esquerda, a cana que depositaria na moedora. Essa falha foi o primeiro elo da corrente de acontecimentos que levaria ao acidente; mas não, à causa única. O menino da moenda não estava, naquele momento, trabalhando corretamente, pois engenhos que se prezam gostam de duas canas de cada vez porque não se desperdiça a capacidade do equipamento e nem se nega o objetivo econômico "cada vez mais com cada vez menos".
Quando o irmão observou aquilo, gritou:

— Manoooo, não é hora de merenda, põe mais cana!


Sempre literal e obediente, mal ouvira a reclamação, jogou longe o gomo que chupava, abraçou um feixe de cana e o soltou de supetão na moenda. E, faceiro, gritou para o irmão:
— Simbora! Cada vez mais! Cada vez mais!
E o cavalo que roda o dia inteiro na trilha do próprio rabo e em cima do que debaixo dele pode cair — coitado, será sempre o primeiro a cheirar as próprias necessidades fisiológicas — agora sentiu o impacto da moenda travando. Empacou. E aí veio o "acaso" a atrapalhar aquele dia maravilhoso e  o ambiente de trabalho em que nada se perdia nem o bagaço. Essa era uma fazenda, como tantas, onde os ganhos eram sacralizados sem preocupação com os riscos.   E isso trouxe à luz uma tragédia  e deu à escuridão uma criança, triste inversão.

—Manoooo dê uma olhada para ver se algum trem está prendendo a manjarra no telhado ou na viga?
Disse o guia do cavalo ao que cuidava da moenda.
O da moenda, confiante em sua destreza, subiu sobre a anca do cavalo, enfiou a cabeça entre uma viga e a manjarra. A cabeça entrou, mas não podia ser virada para a outra direção, tal era o estreitamento daquela vão e, como dizem por aí, aonde entra a cabeça entra o resto, então, ele enfiou também o braço direito para apalpar onde não podia ver. Esperava achar ali alguma saliência, algum parafuso que pudesse ter se desatarraxado e prendido a manjarra na viga ou nas ripas do telhado. Nessa tentativa de entrar aonde não cabia, chegou a uma posição de impasse e de pouco equilíbrio ficando preso entre a viga, que sustenta o telhado do engenho, e a manjarra, que liga as engrenagens à força do cavalo.  Bastou um  impulso para mais uma apalpadela, e o "acaso" se revelou por inteiro: perdeu o apoio do pé esquerdo, que estava sobre o traseiro do animal, que entrou debaixo do rabicho e na culatra. O cavalo  assustou-se ao sentir a repentina invasão de sua região mais sensível, e, num impulso vigoroso, venceu as forças que faziam o travamento. A manjarra subiu um pouco e avançou rapidamente não dando tempo para o menino tirar a cabeça daquele vão. Tudo que ligava a cabeça ao tronco rompeu-se enquanto o cavalo desenfreado arremetia-se. Em segundos tudo estava consumado.

Um derradeiro grito abafado
; o barulho da arrancada do cavalo; o estalo da manjarra; toda essa algazarra fez surgir, como por um encanto, variega gente que não parecia estar tão perto. As marcas da tragédia não se faziam tanto pelo sangue, mas pelo cenário assustador que não merece descrição porque impróprio.
O patrão chegou assustado e, sem saber qual dos iguais havia morrido,  perguntou para o menino que segurava o cavalo.

- Gentil, pelo amor de Deus! Qual de vocês morreu?

Estaria o patrão rebatizando aquele menino?  Para uma pergunta desastrosa, a resposta tinha que ser imediata, irrefletida, ilógica e apatetada:

— Meu patrão, pela Virgem Nossa Senhora! Eu acho que não foi o Neném quem morreu.

E assim, aquele que o povo passou a tratar por Gentil, talvez fosse o irmão, pois ele mesmo nunca soube esclarecer. E a partir daquele dia, quando lhe perguntavam:

— Gentil, foi você ou seu irmão quem morreu?

A resposta era invariavelmente educada:

— Meu senhor, até hoje não sei bem, tem hora que acho que foi o Gentil.

Assim, negava-se Descartes, "Penso, logo existo", mas confirmava-se Shakespeare, "Ser ou não ser, eis a questão".

É quem quiser aprenda a lição: o diabo mora no detalhe, como diz o provérbio alemão, mas costuma esconder na bichoca-da-cana-caiana e fingir de "acaso,", como aconteceu no engenho JB.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os bailes de Senhora de Oliveira

Por Caieira
Se baile é uma reunião cujo fim principal seja a dança, então, os nossos não eram bailes, mas poderiam ser intitulados de patuscadas, embora esse não seja um nome corriqueiro por aqui, mas exprime a ideia. Em nossas reuniões para dançar, a dança era a desculpa mais esfarrapada. A bem da verdade, os meninos estavam atrás de rabo de saia e as meninas, não sei de quê. Aliás, elas que falem por elas e não me venham com subterfúgios, pois, destas coisas que ocorreram na juventude quanto mais idade temos mais nos lembramos dos detalhes e melhor os sabemos interpretar, mas acontece que muitas vezes queremos esquecer e riscar o passado como se fôssemos outros. A vida brota de safra única e é linear, quem quer esquecer uma parte dela, não a viveu na íntegra, deles sinto pena. O melhor é lembrar-se de tudo, cuspir no que não prestou e entronizar, na aba esquerda do peito, o bom. Não é preciso ser poeta nem escritor para enaltecer o que é bom.

A nossa turma era assim: ninguém sabia cantar, ninguém sabia tocar; dançar, quase nada, só queríamos ficar juntos a elas ou, no mínimo, com elas por perto. Reunir a turma, chamar as moçoilas, correr os riscos, enormes para a nossa idade: ser recusado; levar um fora é duro, mas, mesmo assim, valia a pena. E não podíamos dar o troco, por aqui não havia o baile da cebola, em que se invertem os papéis, os homens são tirados para dançar pelas mulheres, e podem então aplicar o famoso chá de cadeira nelas. Nossa realidade era diferente, nós, os homens é que, às vezes, tomávamos o famoso chá de cadeira. Mas, a vontade de atravessar a pinguela era mais forte que o medo da água fria, mesmo os mais feiinhos, os tímidos, os filhos de pai mancueba e os caolhos compareciam. Sempre aparecia algum garoto com uma radiola e alguns discos de vinil; na modernidade de nosso tempo, os discos de latão, já aposentados, haviam virado peças raras de museu.

O salão da prefeitura, onde os vereadores se reuniam semanalmente, para nossa alegria, nunca aos sábados e domingos, era, na ausência de colisão de agenda e de interesses, um bom local. O difícil era encontrar o "Escurinho", o funcionário mais popular da prefeitura e mais importante, pois guardava a chave do lugar. Alias, esse era o único problema capaz de adiar, mas nunca de impedir os nossos "bailes". Percalços ocorriam porque decidíamos tudo na última hora despreocupados com os roteiros, éramos improvisadores. O Prefeito jamais negava o espaço para a juventude bailar, talvez pensando que aqueles pés irrequietos, aqueles badalos incontidos e aquelas coxas macias um dia votariam.

Quanto mais se vive mais se tem a certeza de que ter vivido a infância e a juventude nas ruas de Senhora de Oliveira foi um privilégio. Numa frase a altura de Zé Candin, nós poderíamos dizer: das ruas e bulevares do mundo inteiro, nós preferimos a Praça São Sebastião. E quem era jovem, em nosso tempo, teve a sorte de experimentar, numa só existência, o sabor da evolução em progressão geométrica. Um dia estávamos na idade média --- latrina longe de casa, casa sem luz elétrica, ruas sem calçamento, cidade sem salões de baile, bicas sem água encanado --- e, no outro (maneira de falar encurtando a escala do tempo), já tínhamos televisão parabólica, internet, TV a cabo, estrada asfaltada, ruas calçadas. O bom disso é que a gente não se assusta com o engavetamento das mudanças; acostuma-se, adapta-se, participa, usufrui, mesmo falando mal delas. A igreja local que, naquela época, perseguia nossos "bailes" e botava caraminhola na cabeça das mães de nossas senhoritas, modificou-se, modernizou-se, aceitou o inevitável, dobrou-se frente ao nosso santo calvário de "bailes" e serenatas. Éramos simples, bastavam-nos uma vitrola e algumas pernas de gêneros diferentes.

Para os cosmopolitas excludentes, que acham que apenas as grandes cidades são maravilhosas, digo com certeza absoluta e contida brabeza, ser feliz tem tudo a ver com o estado de espírito e muito pouco com os meios. Ser feliz, principalmente em grupo, depende de um estado de euforia contagiante que não se explica na solidão. Por outro lado, ser feliz na solidão, mais ainda independe dos meios, é uma questão de bastar-se, deixar que multidões de sentimentos, de sensações e de lembranças venham povoar a mente. A solidão, assim, não é absoluta e nem estar só, é estar com multidões de outros sem a presença física de ninguém.

E os nossos insubstituíveis bailes, nisso a evolução fez pouco: a felicidade, a alegria, o prazer da conversa ao pé do ouvido, nada disso mudou com todas essas evoluções. Os bailes com orquestras a acompanhar Frank Sinatras não nos impressionavam. Resolvidos, adaptados, reais, pé no chão, tudo somado é o que sentimos quando pensamos aquele tempo.

O que mais um adolescente pode fazer nessa terra? Perguntávamos só por perguntar, pois a resposta não era importante. Lembro-me de que chegamos a nos reunir, quando o piso do segundo andar da prefeitura ameaçava ruir, até na oficina de carpintaria do Izaltino Trindade. Não sei quem conseguiu a autorização, mas aconteceu, na Rua Nova, a segunda ou terceira casa da direita da primeira esquina de quem sobe, sem contar o beco do Palmital.

E assim, encharcado de modernidade e gostando de tudo de bom que há hoje, não desprezo o meu passado, não nego as minhas memórias e não deixo sobejos. Quem me provocar, verá!

O dono da bola

por Caieira

Chega com ela debaixo do braço, alisando-a só por alisar, sem segundas intenções, ou teria? Oito anos bem vividos; peito estufado; cabeça e olhos grandes; quase dentuço com direito à falha do meio; "filho de peixe peixinho é", seu pai joga muito; sorriso de vencedor; é o dono da pelota e ainda por cima é bom de bola. Mas ninguém diz: "Oh!"

Ali perto, pedras esperam para serem quebradas no martelo e medidas em latas de banha ou querosene. A base da nova Igreja Matriz precisa de muitas latas de brita. Ganha-se um cruzeiro por lata cheia, não há criança da cidade que não queira quebrar pedras, a meninada vai ficar bem de bolso, o bar dos Lanas vai ficar cheio, vai sair menino pelo ladrão; a geladeira a querosene foi acesa, muitos picolés serão vendidos. Por enquanto nada de Igreja, parece que a comissão da construção foi desfeita, alguém cavaqueou, e o Padre pôs o pé no freio. A esplanada e o campo de Futebol, onde os meninos jogam bola, foram doados para a construção da Igreja, o benfeitor chama-se João Camilo Milagres. Todos na Cidade sabem disso, mas ninguém diz: "Oh!"

Mas agora é hora de a pelada começar, logo se estabelecem as regras do jogo, como normalmente ocorre, dois jogadores, tipo cabeça de grupo, irão escolher, em sucessivas intercalações, os jogares que irão compor os dois times. O dono da redonda se define como um dos melhores, e nisso não há injustiça alguma, mas ele não se contenta com sua metade do espetáculo, define também o cabeça de grupo do time rival, e nisso já não é tão justo; mas ninguém diz: "Oh!"

A praxe, um sorteio na porrinha ou no par ou ímpar define, entre os dois cabeças de grupo, qual escolhe primeiro; mas hoje não será assim, o dono da bola quer escolher primeiro e já disse: "meu time é o de camisa". E assim, esses cabeças de grupo vão formando os times. Quem é escolhido pelo adversário do dono da bola tira a camisa e a joga no monte de pedras mais perto. Os últimos a serem escolhidos são os pernas-de-pau, ninguém se sente humilhado, ser ruim de bola não é tão ruim assim. Algazarra e camisas jogadas nas pedras, lagartixas correm assustadas e procuram novos montes de pedras; mas ninguém diz: "Oh!"

Começa o jogo, foi ou não foi falta: há uma pequena discussão, o dono da bola se acha justo o suficiente e obedecido mais que suficiente para afirmar: “foi”; e para o lado de lá. Todos agora sabem que o dono da bola, além de ser jogador do time de camisa, é o juiz da partida. Vamos à peleja: uma bola espirrada escapa pela lateral, "bola nossa.", apressa-se em dizer o dono da bola; mas ninguém diz: "Oh!"
E assim, a partida segue normal, até que o dono da bola diz que sofreu uma falta, quem a teria cometido não concorda com o julgamento, não aceita. Um rápido bate-boca. Alguém diz: "Oh!" O dono da bola bota a bola debaixo do braço e diz, Uai! O que teria cometido a falta, ofendido e chorando, sete anos, sai do jogo e vai embora, tão pequeno e tão renitente; e nem bola tem. Mais ninguém diz: "Oh!"

O Dono da bola bate a falta. Duas pedras delimitam a meta, não há balizas, a bola passou alta, mas ninguém contesta, o juiz diz: "foi dentro". O Jogo continua, os adversários do dono da bola estão perdendo, mas querem jogar, agora eles estão em minoria, perderam o jogador renitente, nem tanta falta faz, será que é por isso que ninguém disse: "Oh!"?

Uma senhora bonita, alegre e jovial debruça-se no parapeito da pequena varanda a poucos metros dali. O dono da bola tem mãe? Tem e ela diz, "Uai!" Todos dizem: "Oh!".

O jogo acabou.

Ele sai com ela debaixo do braço alisando-a só por alisar, é o dono da bola.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Eu, Camponês

por Caieira
Eu, Camponês.


Meu primeiro momento ocorreu quando eu ainda não tinha consciência de mim mesmo e abri os olhos. Vi, sem emoção, que eu era um corpo cercado de espaço e contido por outros corpos que se engalfinhavam na disputa pelo mesmo alimento. Embora o mundo fosse um grande peito leiteiro, e houvesse tetas para todos, nós deslembrados de que éramos farinha do mesmo saco, às vezes queríamos a teta em que outro já se abotoara.


Meu segundo momento ocorreu quando minha mãe negou-me a teta e me agarrou pelo pescoço, como se eu fosse um saco de estopas, e levou-me para um lugar seguro. Choraminguei porque o peso de meu corpo fez minha pele esticar, e minhas pernas balançarem no espaço escuro, até que fui suavemente depositado num ninho macio e seguro contra as intempéries e as ameaças que rondam os recém-nascidos. Notei, então, que o mundo era perigoso para os de minha raça e que eu tinha uma mãe para proteger-me, sem ela não sobreviveria.



Meu terceiro momento foi de decepção, percebi que minha mãe era submissa, puxava o saco do dono da casa e da família toda, até do menino que ainda engatinhava e mal dizia "mamã". Foi aí que meus olhos se abriram pela segunda vez, vi que havia um mundo em que uns têm prevalência sobre os outros, um mundo em que nascemos diferentes e com papéis bem definidos. Minha mãe, a troco do alimento e carinho do patrão, tinha que mostrar serviço: agradar a todos e ainda assim só pegar migalhas.



Meu quarto momento foi quando comi de um angu que o patrão havia guardado na despensa. Não sei de que era feito esse angu, nem porque não podia ser comido, mas minha mãe avisara-me: " Filho querido, do angu da despensa não se pode comer. Você pode comer qualquer coisa, tudo que achar no mato, nas árvores, todo tipo de carne, mas não pode, nem que a vaca tussa, comer o angu da despensa, pois aquele é o teste da subserviência". Naquele tempo eu não conhecia o ditado "neste angu tem caroço", se conhecesse não me atreveria à primeira mordida, que é a mãe de todas as mordidas, mas o certo é que mordi aquela água fervida com um fubá grosso e que cheirava a gorgulho, o fato estava consumado. Mal acabara de engolir aquelas pelotas mal assadas, apareceu o patrão, não sei de onde, já com uma vassoura na mão, a gritar: "Cão do diabo!, daqui para frente, eu não o quero mais em minha casa e rogo-lhe uma praga: você terá que procurar sua comida nos matos, viver às custas de sua própria caça"



O patrão nem precisava ter dito tanto, um clarão vindo de não sei onde, veio ao meu encontro e, de repente, tive consciência de minha nudez e destino: eu era um cachorro fadado a andar por aí cheirando o chão poeirento das encruzilhadas; o fiofó dos colegas; os postes para ver se há marcas de xixi de outros cães para em seguida eu mesmo fazer a minha marca. E, triste sina, minhas noitadas de amor não seriam simples como a dos outros animais, um nó necessário me amarraria, por algum tempo, à amada amante, seria bom, mas doloroso, fazer o quê! Minha liberdade pós farra seria limitada e com risco de sermos, eu e ela, apedrejados pelos garotos endiabrados do arraial. Traçado estava meu destino de andar por esses brejos, caçar preá, frango-d 'água, e, se tivesse sorte, conseguiria caça maior, raras na região, mas quem sabe um dia eu podia esbarrar com uma nessas grotas ou nesses vales, talvez um veado, um tamanduá-bandeira, um porco-do-mato e, num dia de loteria, com uma capivara bem gorda. Só não queria topar com o lobo guará, porco-espinho e ouriço-cacheiro que por aqui são comuns; o primeiro, que gosta de inverter o papel de caça para caçador; os dois outros, que são indigestos já na boca.



Tornei-me andarilho por uns tempos, mas minha vida de amaldiçoado começou a melhorar no dia em que esbarrei com um senhor de uns quarenta anos que montava um cavalo preto, ele gritou para meu lado: "Camponês, vem cá! Vem cá camponês!". A minha primeira reação foi: "Camponês! Quem?" A segunda, como não havia outras almas por ali, foi: "Camponês, eu? Bom, tudo bem". Naquele dia ganhei um nome e um salvador que iria ajudar-me a carregar minha cruz. Levou-me para sua casa e fê-la minha. Deu-me angu misturado com carne de boa qualidade, comi à vontade. Pulei pelo terreiro; deitei-me de costas para que me fizesse cafuné na barriga; babei nos panos de chão e pela casa. Esbaldei-me. Nunca entendi bem o nome dele nem de ninguém da família. Estranho, eu podia pensar, entender o meu nome, as conversas que se referiam a assuntos daquela casa, mas o nome das pessoas, nunca entendi bem, devia ser parte de meu castigo. Contentei-me com um ditado que grassa nos meios caninos: os homens reconhecem os outros pelo nome; os cães, pelo cheiro. Sei que aquele homem viajava muito, sempre num cavalo preto, vestindo uma capa de gabardine que quase se arrastava no chão. Em sua casa, criança era mato. Era uma sede de fazenda grande, sem luxo, mas de muitos quartos despensa com latas de gordura, cozinha espaçosa,  fogão grande com descanso de mais de metro.



Foi preciso um salvador para me redimir e, agora, eu tinha uma vida normal de cachorro.



Daquela casa guardo segredos, pois sou um cão de guarda no sentido lato e medo tenho de poucas coisas: de inconfidência, porque traição; de chuva, porque trovão; de festa, porque foguete; e de cachorras assanhadas porque carregam matilhas.



A minha estória podia acabar aqui, e já era muito para um cão tão infeliz na partida e tão feliz no meio, mas nem lhe conto o final, ou conto?



Conto:



O chefe daquela família meteu-se em política, disso sei porque não sou burro, apesar de ter a orelha grande, mas meu focinho é comprido e tenho um faro de primeiríssima, cheiro os acontecimentos. Tanto ele fez que foi eleito prefeito, em 1953, tomou posse no ano seguinte. Eu poderia esquecer aquelas datas, pois cachorro não se comove com eleições, mandatos e poderes humanos. Mas não as esqueço, porque houve muita festa, a cidade ficou nublada com tantos foguetes e de todos os tipos: o de rabo, que é o maior inferno para um cão, pois já na subida cria uma expectativa de estrondo que nos angustia por longos segundos até que haja o estampido, o ecoante ruído fenomenal, o terrível tãummmm..., durma-se com um barulho desses!; o tiro canhão, Deus me livre! Faz abalar os alicerces das melhores casas e quase perfura nossos tímpanos delicados por natureza e capazes de ouvir sons que os humanos não ouvem: um grilo distante, uma pulga sob o pelo do gato que nos tira o apetite, um mosquito voando baixo; somos diabólicas para ouvir sussurros. Como o centro da festa foi numa pensão de uma senhora que tinha uma casa na esquina da rua Nova, eu não tinha outro recurso, corria para o quarto alugado pelo patrão e escondia debaixo da cama. O tumulto foi tanto que escapei para um beco ali perto e acabei entrando numa briga de cachorro grande e, o pior, um dentre eles estava zangado, mordeu-me de leve, arranhou-me, foi o suficiente. Eu, camponês - dá pra acreditar? - não era vacinado e peguei a maldita raiva. O destino do ex-vira-lata estava traçado. O patrão, meu salvador, olhou-me com compaixão, mas dessa não me podia livrar. Poucos dias depois, o meu queixo endureceu e a saliva escorreu cascateando em cima de minha dor. Tinha sede, mas, só de pensar em água, sentia uma dor terrível em minhas mandíbulas. Sem beber água, com o corpo ardendo em febre, e doido por morder alguém e molhá-lo com minha perigosa babugem, era natural que eu fosse isolado, foi o que fizeram. Morri em prisão domiciliar, sou uma assombração de cachorro que acaba de lhe contar a sua estória, triste no início, boa no meio e ruim no fim, como são todas as vidas dos cachorros que conheci.