sábado, 20 de agosto de 2022

Franklin Fidelis: uma viagem ao início do século XX

 

Por Lulu Alfenas

Franklin Francisco Vieira de Souza
(Franklin Fidelis)

Conto baseado em caso real inicialmente escrito para constar do livro do amigo Liberato de Souza Lana, que me autorizou também a publicá-lo neste Blog.





Hoje amanheci pensativo e puxo pela memória, quero me lembrar dos detalhes. Tudo está pendurado  no meu calejado neurônio que gosta de casos. Parece que foi ontem: acabamos de chegar à casa de Carmitinha (1), onde o Tio Franklin Fidelis (2) está morando agora. Nós viemos para conversar sobre os tempos antigos. Somos três xeretas: Tio Chico (3), Antônio Calazans (4) e eu (5). Estamos ansiosos para bisbilhotar o passado, mas antes temos que pagar o preço da curiosidade e jogar truco com o anfitrião, até que gostamos das cartas, mas hoje era para ver o passado através da memória do Sô Frank. Carmitinha, para não quebrar a generosa tradição da família, empanturra-nos com biscoitos de polvilho guardados em latas grandes com boas tampas. Um dia ensolarada de 1980. Meu neurônio não sabe em que dia nem em que mês estamos. A folhinha está lá, mas o tempo que branqueou os cabelos embaça as letras. Carmitinha não tem mais aquela criação de coelhos que dava vida ao terreiro da cozinha. Mas agora estamos ali jogando baralho, esquecidos do tempo, dos coelhos e da velha UDN. Truco! Vale seis! Vai mais um biscoito esmagado entre os dentes, barulho de crocância a quebrar o silêncio passageiro entre os gritos: vale seis, ladrão de milho!

Agora estamos na sala de visitas, insistimos um pouco, e o tio vai falar.



 “Quando eu voltei de BH, resolvi instalar uma vendinha na encruzilhada da Vargem. Isso foi em 1910, mais ou menos. Voltei da capital cheio de sonhos e alguma experiência de comércio porque lá trabalhei de caixa em bares e restaurantes. Na venda da Vargem o movimento era acanhado, mas naquele tempo tudo era assim, pequeno e calmo. Eu me levantava bem cedo, arreava o cavalo  e nem precisava galopar, em poucos minutos eu já estava abrindo a venda. E ficava ali debruçado no balcão vendo o tempo passar e, raramente, algum cliente. Algumas vezes, minha irmã Deolinda vinha para cumprimentar com uma boa tarde e trazia-me alguma comida: broa, milho verde e bolinho de fubá. Aquela presença amiga quebrava um pouco a monotonia da estrada, mas o mais frequente era o compadre Chico Henriques, sogro da Deolinda que se casara com  o João da Vargem, que iria morrer novo.  O Chico Henriques, este vinha quase todo dia só para jogar conversa fora e contar algumas novidades. Eu também, quando o dia ficava feio, e eu triste, dava minhas voltinhas. Ia até a ponte de madeira sobre o ribeirão da Vargem, onde uma água corre limpa e calma, e que se junta, alguns metros abaixo, com as águas que descem do Pega Bem e do Pires e seguem,  mais encorpadas, em direção ao arraial, uma benção a irrigar hortas e tocar moinhos de fubá por onde escorre. Nessas ocasiões, eu deixava a venda aos cuidados do Lionel, um menino que estava sempre por ali e que costumava me ajudar nas tarefas de varrer o chão e lavar o balcão, o que não faltavam ali poeira e folhas secas.


E num dia desses, em que as nuvens tapam toda a abóboda celeste, e o frio resseca a pele e  racha os lábios, apareceu ali um homem estranho, enrolado em capa grossa e com capuz de lona, barba mal feita e uma cicatriz profunda do lado esquerda da cara. Medonho, no mínimo! Parece que ele desconhecia o sentimento de repulsa que um estranho como ele pode causar, mas mesmo que fosse simpático e de boa presença não podia chegar fazendo tantas perguntas:

-- O senhor conhece, por aqui, um tal de Francisco Henriques de Miranda?

Eu não respondi, ao contrário, o inquiri no bate-pronto:


— Qual é a graça do senhor?


O estranho ficou um pouco perdido, parecia que não sabia o que significava graça. Então refiz a pergunta.

— Como é o seu nome?

Ele me olhou de um jeito que mais parecia de ameaça do que de surpresa pela minha ousadia em questioná-lo, mas acabou respondendo mais do que eu perguntara:

— Zé Gregório, venho dos lados de Capela Nova das Dores.

Nessa altura já começava a escurecer, eu desconfiado, fui lá atrás da venda, pedi ao Lionel para sair pelas fundos e que se escondesse na mata até chegar á casa do compadre Chico, não podia ser visto, e que avisasse ao Chico Henriques (6) que o homem que vinha para matá-lo já tinha chegado. Que ele fugisse rápido! Quando voltei para a venda, trazia um engradado de bebidas fingindo obrigações para que aquele matador de aluguel não desconfiasse de minhas intenções e manobras.

— Seu Zé, o senhor quer tomar alguma coisa?

Perguntei.

— Não, só quero mesmo fazer uma entrega para o senhor Francisco, onde mesmo ele mora?

Eu sabia que a entrega que ela faria era pesada e arderia em quem a recebesse, mas não estava com medo dele, apenas me precavi, pois senti, pelo cheiro que os maus exalam, que aquele era um assassino de aluguel da pior espécie. E havia também o fato de que o amigo já ter me prevenido quanto ao risco da presença de estranhos. Poucos dias antes, o Chico me dissera:

— Amigo Franklin, um homem de Barbacena, que perdeu uma demanda comigo na justiça, me jurou de morte, e dizem que ele é covarde e costuma resolver suas pendências por meio de capangas. Então, amigo, se aparecer algum suspeito por aqui mande me avisar.

E assim fiz, mas o homem estava ali persistindo, queria mais informações que facilitassem sua ida à casa do Chico. Ele era insistente e eu sabia engabelá-lo com desculpas esfarrapadas dizendo que o Francisco de que falava não era muito conhecido, talvez tivesse até se mudado da região. O tempo passava devagar e já escurecia,  mas não me ative a apenas esperar, queria também assustá-lo um pouco: acendi um lampião de querosene e fiz um movimento espalhafatoso ao abrir uma cortina que cobria uma prateleira, e de propósito deixei que ele visse minhas facas de picar mortadela, minha garrucha de dois canos e um revolver novo em folha (as armas eram plástico, só para assustar vagabundos). Mas parece que isso não o abalou. O tempo passava e de repente já era hora de eu fechar a venda quando o inesperado aconteceu: O homem estava entornando um gole de pinga e já se preparava para jogar o do santo no pé do balcão  quando um vulto saiu, de repente, da penumbra e agarrou a gola de sua capa com a mão direita e com a outra encostou  uma navalha em sua garganta e gritou para o Lionel:

— Lionel! Lionel tire as armas dele e vá até ao cavalo dele e olhe se no arreio tem alguma arma. Vasculhe os sacos e embornais. Busque tudo que fura e que cospe fogo! Ajunte tudo e leve para o meio da ponte e jogue tudo no córrego. Capriche para que tudo caia na correnteza e seja arrastado!

Depois de as armas recolhidas e entregues ao ribeirão que nunca regurgita, o facínora parecia até que ficara menor. Seus olhos demonstravam medo do que poderia vir em seguida. Quem tinha a aparência medonha agora era o Chico Henriques, ainda com a navalha na mão, olhos vermelhos de sangue, controlou o facínora e, em movimento de grande destreza, pegou o chicote que trazia preso ao cinto e, incontinente, sem dizer nada, deu-lhe uma sova de deixar saudades.


Depois de corrigir aquele covarde, Chico Henriques disse-lhe calmante:


— Hoje você viveu de novo porque eu estou num dia bom. Mas se você aparecer de novo por estas bandas, a história será outra. E avisa também para seu amigo lá de Barbacena que se cuide, não vou perdoá-lo se houver uma  nova empreitada. Cambaleante, o agora não tão facínora conseguiu montar seu pangaré e sair dali em trote lento porque aquele corpo não suportava mais solavancos.


Depois de ser palco dessa coça histórica, o lugar voltou à calmaria. Os dias corriam lentos como as águas do ribeirão da Vargem em seu leito de pouca descida. Nada acontecia que pudesse ser mote de uma lembrança digna de nota.  Minha vidinha era tão pacata ali e sobrava-me tempo para pensar nas coisas boas que me aconteceram em Belo Horizonte quando lá havia morado: um patrão que me tratava bem e me deixava ficar com 50%  das gorjetas recebidas; uma dona de pensão que a troco de alguns serviços de consertos de portas, janelas e encanamento velhos, quase não me cobrava mensalidade. Assim a minha vida na capital foi muito boa e uma maneira de ser grato a Deus por aquele tempo, é orar por aqueles que me ajudaram e desejar que estejam bem e que sejam felizes.

a vida continuava... E um ano depois da vinda do facínora, em dia de festa no arraial, eu me distraia ao ver uma tropa, que vinha dos lados de Lamim, desfilar com carga pesada em frente à minha venda.  A mula da frente, com guizo de metal, coberta com fitas e espelhos, lembravam  
os sinos da igreja Sagrado Coração de Jesus,  as alegorias , as festas sacras e a alegria do povo a caminhar atrás bandas de congados,  um ponto forte nas festas do arraial.

Muitos que passavam por ali me recriminavam por não me  verem pronto para a festa, esperavam que eu estivesse com roupas de ir a missa e chapéu de feltro. Mas eu me agarrei à intenção de ficar ali e conseguir ganhar algum dinheiro com pequenas vendas aos que iam e voltariam. Para quem não tem muita ganância, o pouco é muito.  Alguns réis viriam, certamente, para minha gavetinha de balcão. E de fato ganhei algum dinheiro naquele dia.

Mas exatamente naquele dia, quis a providência que acontecesse  o que era comum em vendas de beira de estrada, um cachaceiro me prendia ali. Quando eu pensava que ele finalmente iria embora, ele se lembrava que tinha que dar mais uma para o santo. O santo era insaciável e a noite já cobria as montanhas com seu manto escuro e, cá mais perto das baixadas,  uma neblina densa não deixava por menos.


Eu tonto de tanto sono, o freguês de cuca cheia e o santo já soluçava de tanto goles jogados ao chão. De repente meus ouvidos aguçados perceberam um leve ruído vindo da estrada, fui espiar mais de perto e levei um susto danado: era a mesma tropa que passara mais cedo, ainda com as cangalhas carregadas de mercadorias. A mula de guia não trazia mais o guizo, alguém queria silêncio. Tal o cuidado para não chamar a atenção que as patas dos animais estavam cobertas com  almofadas amarradas acima dos cascos. Quatro homens conduziam a tropa, também silenciosos. Todavia imprudentes, pois não me viram ao lado. Dado a que já estivessem a pouco mais de quatro quilômetros do arraial, relaxaram-se ao pensar que não seriam descobertos, pois eram protegidos pela cerração e já haviam vencido o trecho mais movimentado da estrada. Eu logo atinei com tudo e agi rapidamente: joguei o bêbado para fora da venda, fechei a venda, peguei meu cavalo que já estava arreado desde o anoitecer, na expectativa de o cachaceiro ir logo. Quando sai em direção ao arraial, olhei para trás para ver para onde a tropa seguia, a neblina mal deixava ver as sombras que se movimentavam à esquerda rumo a Santana.


Tal a minha pressa que meu cavalo parecia voar no meio daquela neblina fechada enquanto eu imaginava de como tudo aquilo poderia ter acontecido: certamente que os comerciantes e os tropeiros também participavam das festas e tinham deixado para descarregar tudo na manhã seguinte. Não era uma boa prática deixar animais cansados com as cargas no lombo. O que conjecturei de fato acontecera. Alguns disseram que iriam baixar as mercadorias naquela mesma noite, depois da procissão, outros só na manhã seguinte.


Quando eu cheguei  espalhafato, gritando e contando o que tinha acontecido, foi uma correria que jamais acontecera no arraial. Com poucos minutos uns 30 homens armados saiam da cidade. Eu voltei com eles e passei na venda para pegar minha cartucheira, que na pressa deixará em cima do balcão.



A correria era tanta que alguns cavalos chegaram a atropelar os da frente, pois a neblina aumentava a cada minuto. Não demorou muito, encontramos os bandidos na Casinha, num lugar de matas que costeiam a estrada. Houve um tiroteio de início, mas logo o compadre Xandi (7) gritou para que se entregassem, pois éramos muitos e os alertou que eles morreriam na certa se continuassem resistindo. Ninguém ficou ferido. Alguns ameaçaram enforcar os ladrões, ali mesmo, na beira da estrada. Seria fácil, havia muitas árvores e cipós suficientes.. Mas o compadre Xandi havia dado a garantia de que eles não seriam mortos casos se entregassem. E assim foi.


Quando chegamos ao arraial, parecia até que voltávamos de uma guerra: as mulheres abraçaram e beijaram os maridos, os amigos davam viva aos heróis da cidade. E nem precisa dizer onde os ladrões foram parar”. 



E assim termina a fala do Tio Frank, que nos trouxe esse caso que na época tornou-se o assunto mais badalado no arraial , tão lembrado  que eu mesmo já  ouvira, ambos,  contudo em versões menos esmiuçadas. 

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1) Franklin Francisco Vieira de /Souza

2) Carmita de Souza Veloso

3)Francisco Henriques de Miranda Souza

4)Antônio /Calazans de Miranda

5) Luiz Henriques Alfenas

6) Francisco Henriques de \Miranda, filho de Jacob Henriques de Miranda

7) Alexandre Cirilo de Souza



quinta-feira, 30 de junho de 2022

Biografia resumida de Edgard Alfenas (Sodiga)

 

Sodiga em foto dos anos 1950


                                                                     por  Lulu Alfenas

 

Bondade é amar as pessoas mais do que elas merecem. Joseph Joubert

Origem

Edgard Alfenas nasceu no Arraial de Nossa Senhora de Oliveira, distrito de Piranga, Minas Gerais, em 26 de junho de 1909, morreu em Conselheiro Lafaiete, Minas Gerais, em 04 de fevereiro de 1990 e foi sepultamento em Senhora de Oliveira, em 5 de fevereiro de 1990.

Foi pecuarista, agricultor e político. Viveu em uma região de grandes mudanças políticas e socioeconômicas as quais podem ser percebidas até nas variações dos nomes da terra natal durante sua vida: Nossa Senhora de Oliveira (1909 a 1923); Piraguara (1923 a 1953) e Senhora de Oliveira (1953 a 1990).

 De família católica, foi batizado pelo Padre Jose Affonso Painhos, em 31 de julho de 1909, tendo como padrinho Sebastião Rodrigues Pereira e como madrinha Maria da Conceição Milagres Oliveira, esta filha de Alexandre Rodrigues Milagres e Francisca da Silva Araújo, esta filha de um casal pioneiro da região, Furriel José Ignácio da Silva Araújo e de Rita cândida do Sacramento.

Sodiga veio da genética Rodrigues Pereira, por parte da mãe, filha de João Bonifácio Rodrigues Pereira.  Por parte de Pai, sua origem mais remota no tempo, examinada apenas nos limites da região de Guarapiranga, aponta para o casal Alferes Francisco de Paula Alfena e Umbelina Roza de Jesus, que viveu na Graminha, às margens do Rio Xopotó, do lado de Brás Pires, na divisa entre os dois distritos. Segundo o censo de 1830, o Alferes tinha seis filhos. Eliziário Glória Alfena, o avô de Sodiga, nasceu nessa família depois do censo e, em 1848,  casou-se com Tereza Tranquilina do Amor Divino  com quem teve sete filhos, dentre eles Garcez Glória Alfenas, que se casou com Adelina Maria da Encarnação e com ela teve, de 1892 a 1912, nove filhos. Garcez casou-se pela segunda vez com Ana Marques Faria, com quem teve mais um filho, em 1939.

Vida privada

Em 25 de maio de 1929, Sodiga casou-se com Rita Henriques de Miranda (Sadita), filha de João Henriques de Miranda, o João da Vargem, e de Deolinda Maria da Encarnação. João da Vargem é trineto do Alferes Cláudio Joze de Miranda; e Deolinda, da linhagem de Antônio Vieira de Souza. Este é filho de Fidelis Vieira de Souza e de Maria Rita de Jesus, a velha do Fundão, cuja alcunha tem fundamento em sua longevidade, viveu 115 anos.

De 1930 a 1950, Sodiga e Sadita tiveram 11 filhos dos quais oito sobreviveram à primeira infância. Nos primeiros anos de casados, viveram em uma pequena cabana no Córrego da Graminha e, posteriormente, no  lugar denominado Vargem, onde moraram por alguns anos numa casinha da encosta leste de sua propriedade.  Neste local, ao pé de um morro, Sodiga construiu uma casa grande com quartos e dimensões suficientes para a família e, por volta de 1939, para ela se mudou. Em 1955, por força de demandas políticas/administrativas, que exigiam maior presença na cidade, mudou-se para sede do município e passou a morar numa casa na Praça São Sebastião. Ali morou por vários anos e, finalmente, mudou-se para a Praça Monsenhor José Justiniano Teixeira, 64, onde viveu até sua morte, em 1990

Antes do casamento, Sodiga tinha sido tropeiro, em atividade casual, e peão, de amansar cavalos e burros. Viajou com companheiros como Zé do Alcibíades, seu primo e amigo; Deoclécio Rodrigues Pereira, outro primo; e com o irmão mais velho, Otorgamim Gloria Alfenas, este tropeiro de verdade.  Passado o período dos eflúvios da juventude e dos prazeres das viagens em lombo de burro, em que conduzia tropas de mulas carregadas com toucinho e fumo de rolo, que levava para Ouro Preto e de lá voltava trazendo cargas de sal, querosene e todo tipo de encomenda. 

E logo veio o casamento e com ele as responsabilidades, então se ateve na formação de uma família e passou a viver como pequeno agricultor plantando milho, cana de açúcar, feijão, arroz de brejo, para o comércio; e frutas de pomar e hortaliças, para o consumo da família. Na busca da sobrevivência e de alguma economia, produziu rapadura e cachaça, inicialmente em engenho puxado por cavalo, mais tarde por um tocado por roda d’água. Em paralelo a essas atividades, sua fazenda produzia também leite e creme entregues, diariamente, ao comércio do arraial.  Como a maioria dos habitantes da região, Sodiga tinha uma pequena criação de galinhas e de suínos em quantidades suficientes para sustentar a casa com carnes, gordura e ovos.  E, para contrabalançar o excesso de proteínas e da gordura suína em sua mesa, contava com horta e um pomar com goiabas, fruta de conde, jambo, laranjas e mexericas.  

Para os trabalhos na pequena fazenda de 64 alqueires e nas terras que possuía no lugar chamado buraco, na estrada de Brás Pires, contava com a ajuda de chefes de duas famílias agregadas, principalmente a do Atílio e a do Pedro Grosso. Nenhum contrato era escrito, era tudo no fio do bigode. Para completar a necessidade de força de trabalho na roça, havia sempre diaristas ou contratados por tarefas negociadas por eitos. Na maioria das vezes, o trabalho era a molhado, ou seja, o contratante tinha que fornecer almoço e café da tarde com algum complemento: broa de fubá, angu doce, cuscuz de fubá. Não havia boas alternativas: muitos afazeres para a dona da casa, pouca sustança na comida dos trabalhadores.

Vocação e vontade de poder

                        O prazer dos grandes homens consiste em poder tornar outros felizes. Blaise Pascal

O fato de ser um homem de bom humor, de bem com a vida e amigo de brincadeiras, às vezes até um pouco brutas, o tornava popular e de fácil convivência. Gostava de estar perto das pessoas, talvez por isso o destino o tenha jogado para um lado extraordinário: a aventura perigosa de tratar e cuidar de doentes das redondezas. Com o passar dos anos, a cura, de quem precisava de ajuda e tinha poucos recursos, passou a ser, para ele, uma obrigação. Mantinha em casa um enorme estoque de amostra grátis que conseguia com representantes de laboratórios. Costumava indicar este ou aquele remédio para seus amigos, com comportamento no limiar da profissão médica.  Mas não se pode dizer que essa vida, fora do senso comum, tenha começado assim sem mais nem menos. De fato trata-se de uma extravagância que não surgiu de um passe de mágica, ocorreu aos poucos em doses homeopáticas. Parece que sua alma regozijava-se com a vocação, e a prática aprimorava o dom, algo que ocorreu em um processo lento, não em um episódio: isso tomou curso quando ele era chamado para aplicar uma injeção, realizar um parto, curar uma dor de barriga, espremer um berne e até desencravar uma unha.  Em paralelo às suas primeiras experiências no tratar doenças, houve um aprendizado com médicos formados, cujo processo se desenvolveu mais ou menos assim: a população confiava nele, porque ele já trazia algum conhecimento do berço embalado por sua mãe que sabia curar com chás e raízes. O fato é que Sodiga era chamado para qualquer episódio de doença, mas muitas vezes acontecia de o caso ser mais grave e superior às suas possibilidades, nestas ocasiões, ele mandava chamar o médico ou ia pessoalmente buscá-lo — chegar nele para pedir um favor não causava nenhum constrangimento —.  Criou-se o hábito de ele ser intermediário entre o doente e o doutor. Aos poucos, fez amizade com os médicos e os acompanhava, seja porque não conhecessem as estradas de Piraguara, seja porque tivessem medo das noites escuras e assombrações, em que ele próprio acreditava e as via. Os médicos tornaram-se companheiros de viagens e de noites varadas em estradas esburacadas e poeirentas e, na invernada, cobertas de lama.  Entre obstáculos e enfrentado a friagem das madrugadas, Sodiga observava a atuação dos médicos e adquiria conhecimento prático para o atendimento profilático (tratamento preventivo, sendo utilizado para designar algo capaz de prevenir ou atenuar determinada doença) sendo que assim agia sempre que não houvesse a possibilidade da presença de um médico. Dr. Liberato Miranda, de Rio Espera, foi sua grande amizade e inspiração. Já em 1945 se tornaria seu compadre ao fazê-lo padrinho de um dos filhos. Nesta época, em que a medicina era um bem escasso na região, o médico mais próxima vivia a mais de 20 quilômetros do arraial de Piraguara, e nem sempre estava em casa ou disponível.  A vida estava sempre por um fio, caso a doença chegasse com força. Era comum encontrar-se com essas duas figuras pelas estradas: Dr. Liberato montado em mula boa de sela, e Sodiga, em de burro, ou no seu alazão, no caso de viagens curtas. Percorriam léguas para socorrer os que não podiam ser levados ao médico. Mais tarde, com Sodiga já na política, Dr. Liberato mudou-se para Saúde–MG e depois para Divinópolis-MG, deixando um grande vazio no atendimento médico da região, mas a lacuna foi logo preenchida por Dr. Solom Ildefonso, um excepcional clínico morador de Piranga.   Com este, Sodiga compartilhava mais do que curar, a caridade silenciosa e a franqueza com os mais necessitados.  Quantas vezes não se ouviam Dr. Solom bronqueando com o paciente: — Você não tem nem como comprar comida, como quer me pagar! — Dr. Solom foi uma grande influência em sua vida, e ambos pendiam para a empatia com os mais pobres. A presença de Dr. Solom em Senhora de Oliveira aumentou depois que Sodiga assumiu a Prefeitura Municipal.

Vida política

Em 12 de dezembro de 1953, o arraial foi emancipado e, no ano seguinte, haveria eleições.  Em 1954 enquanto o município era governado por intendentes nomeados por JK (foram dois), Sodiga era jogado no meio do burburinho, desta vez o da política, em que entrou de corpo e alma. A decisão foi incentivada e depois apoiada por João Camilo Milagres, seu amigo e cunhado, casado com sua irmã Zelina Alfenas Milagres.  Para se tornar candidato, teve que sair de seu partido de origem, O PTB – Partido Trabalhista Brasileiro, de Getúlio Vargas, e ingressar no PR – Partido Republicano. de Clóvis Salgado que apoiava JK em nível estadual.  Rompia-se assim, em nível nacional, com Getúlio Vargas (o que significava pouco, pois aquele, provavelmente, nem sabia se Sodiga e Senhora de Oliveira existiam quando deu um tiro no peito, em agosto de 1954) e, localmente, afastava-se de grandes amigos como Francisco Inácio Milagres de Araújo, o Chico Inácio; Temístocles Milagres da Silva, Dodô; e Franklin Francisco Vieira de Souza, Franklin Fidelis, (o que significava muito, por causa de amizades e laços de família). O que mais lhe doeu foi não ficar do lado político do grande amigo de infância, primo e compadre José Rodrigues Lana, popularmente conhecido como Zé do Alcebíades. Muitas foram as perdas neste sentido.  Sodiga aprendeu logo que marcar posição política exige estômago forte e vontade de poder, pois costuma atrapalhar as relações com pessoas amigas, mas teve que enfrentar este amargo afastamento de muitos da UDN – União Democrática Nacional, de tendência conservadora, e do PSD – Partido Social Democrata, da direita moderada, que numa coligação estranha, aqui se beijavam enquanto no resto do país digladiavam-se.  Contudo, nenhuma dessas perdas teve a dimensão da morte, em 13 de junho de 1954, de seu amigo, cunhado e companheiro de partido, Joaquim Inácio da Silva Araújo Sobrinho, o Quinzinho Inácio.

Mas a jornada política tinha que continuar, e abraçado a João Camilo Milagres, que, naqueles dias de campanha, saboreava a recente vitória de seu filho, José Milagres Araújo, que se elegera no ano anterior prefeito de Piranga para mandato (1954 a 1958); a Tomé da Silva Araújo, José Rocha da Silva, o Duca Rocha; a José Pedro da Silva Araújo; a Sotero de Souza; e entre tantos outros. Externamente o PR tinha boa estrutura com Ciro Maciel, deputado estadual, natural de Piranga, e João Nogueira de Resende, deputado federa. Assim com bons alicerces, Sodiga estreou bem e foi eleito prefeito de Senhora de Oliveira tendo como vice Francisco Condé. Resultado: a chapa venceu o excelente candidato da coligação adversária, o farmacêutico Wolney Carlos Marcenes, por minguados 64 votos de vantagem, contudo, suficientes para levá-lo ao mandado tampão de três anos, de 1955 a 1958.

Sua posse, em 1955, teve festa para a qual contratou os serviços da pensão da competente Maria Gomes, que preparou tudo para impressionar as autoridades e o povo: comida típica das festas da região: leitoa assada com direito a maçã na boca; tutu de feijão preto; carne de frango, macarronada coberta com queijo ralado e ovos cozidos; e para beber, muita cerveja e alguma cachaça. As pompas da comemoração carregavam muitos significados e emoções: o orgulho da autonomia alcançada, agora cristalizada com a autoridade local consagrada pelo voto popular; o efeito afrodisíaco da vitória que derrubava as forças, que segundo a visão dos vencedores, eram muito conservadoras e que haviam dominado a região durante anos.   O Certo é que além do sabor da vitória para o mandato de 1955 a 1958, havia a alegria de escrever, no rodapé da história do município, os feitos do PR na primeira eleição para prefeito municipal.     

A experiência dessa primeira vitória, somada às qualidades das lideranças do partido, responsáveis pela manutenção do espírito de grupo até a próxima eleição, que se realizaria em 1957, foram os principais ingredientes que elegeram Tomé da Silva Araujo para o mandato de 1958 a 1962. Tomé, por sua vez, fez um excelente governo e tornou ainda mais fácil a volta de Sodiga para um segundo mandato, de 1962 a 1966. A partir de 1964, já instalada a ditadura militar no Brasil, Sodiga foi para a ARENA, mas o espírito de união do antigo PR sobreviveu a essas mudanças e contribuiu para a eleição de José Luís de Senna Pereira (1966 a 1970) e, no curso da história local, Sodiga teve papel fundamental na eleição de seu filho, José Geraldo Alfenas, o Zé de Sodiga, para o mandato tampão de 1971 a 1972.

A hegemonia política de Sodiga, como puxador de votos de prestígio popular, tornara-se visível naquelas primeiras décadas após a emancipação do município. Mas o diferencial político evaporou-se quando surgiu, como adversário, José Maria da Silva, um candidato que reunia muitas qualidades e que tinha o mesmo estilo e ferramentas: o atendimento à saúde e a farmácia. Zé Maria tinha sido um companheiro político dos tempos do PR e abriu seu próprio caminho na busca de realizações e liderança. Sodiga, com 64 anos, já não exibia a mesma energia e destreza política que o projetara. Ao sair do grupo que formara o PR, ele próprio determinou seu declínio político. Daí para frente foi eleito vice de Vavá uma vez, mas já não havia o romantismo e a alegria da trajetória iniciada nos anos 50 e encerrada nos anos 70, passou a ser coadjuvante, e outros agora teriam o protagonismo.

Legado

            Morrer rico é muita falta de imaginação. (José Carvalho, da  FERBASA)

Sodiga teve seu patrimônio tangível reduzido por causa da política. Suas perdas financeiras mais significativas aconteceram porque ele decidiu avalizar pessoas “amigas”, numa época em que alguns deles se aventuravam em negócios sustentados por empréstimos com juros altos. Em política isso costuma virar uma bola de neve incontrolável. O resultado dessas estripulias financeiras apareceu em 1970 quando teve que vender a fazenda da Vargem para saldar valores de sua hipoteca, sobraram-lhe alguns minguados valores a receber em suaves prestações pagas pelos compradores da fazenda da Vargem.  Nessa altura de sua vida pública, a fazenda já lhe rendia pouco e as dívidas tinham que ser saldadas. Essa perda não o abalou muito, o importante é que a família já estava criada, e ele tinha condições para viver com simplicidade e dignidade.  A riqueza, que nunca teve, ao que parece, não fazia parte de seu critério de sucesso. Sua felicidade nunca esteve ligada a contar dinheiro; talvez, sim, em contar curas e; depois que se apaixonou pela política, amigos e votos.


Legado ao município.


Fique satisfeito em fazer o bem e deixe que os outros digam o que quiserem

Pitágoras 

Um prefeito deixa sua marca segundo suas prioridades e limitações financeiras dos cofres da prefeitura que reduzem muito o foco das escolhas Em 1955 o cenário não era dos mais favoráveis: ruas precisavam ser calçadas, água potável devia chegar às casas das praças e ruas abertas na lateral da cidade (a cidade alargava-se para os lados do Ribeirão da Oliveira) e às ruas mais altas do povoado. Sem transportes adequados, as regiões mais distantes necessitavam de escolas mais perto das crianças. Não se pode dizer que a antiga sede, Piranga, tenha abandonado os seus distritos, mas arraial é sempre arraial, e seu peso político é sempre menor do que o da sede; destarte, tudo estava por fazer. Em suma: pouco dinheiro para muita obra é o que o prefeito da cidade recém-emancipada tinha que enfrentar.  Então restava muito cuidado nas escolhas de prioridades, e elas ocorreram no governo de Sodiga em escopo reduzido: Saúde, Saneamento básico e educação.

Sua eleição consagrou a saúde como o bem maior a ser buscado pelo poder publico do município. Todos o conheciam por levar os doentes mais graves para serem tratados nos hospitais de BH, o que acontecia muito antes de 1953, e logo que assumiu “poder”, colocou a prefeitura dentro dessa filosofia. Naquela época, a prefeitura não tinha sede própria nem carro, só uma carroça e o um burro, e pouquíssimos empregados. Mas como o prefeito colocava a vida em primeiro plano, alugava um jipe e levava os doentes mais graves para BH, e, muitas das vezes, eles tinham que ficar em pensões do Bairro Santa Efigênia, ou na casa de sua irmã Presciliana Alfenas, Peixe, e depois da morte desta, foi substituída pela sua filha, Celi Magalhães Fidelis que juntamente com a irmã Glória tinham a mesma paciência e bondade da mãe.  Além disto, essa casa em Santa Tereza foi, durante décadas, o porto seguro para muitos parentes que chegavam a BH de mudança.  Se todos que por ali passaram como estudantes, visitantes ou hóspedes temporários, somassem suas gratidões num espaço físico, se poderia lotar o Mineirão de beijos e abraços. Peixe e suas filhas são partes fundamentais da vida de Edgard Alfenas, assim como de muitos outros parentes e amigos delas.

Com tantas vindas a BH para implorar internações, com pouco tempo Sodiga passou a ser reconhecido e favorecido por enfermeiras, médicos e diretores de hospitais da região hospitalar de BH, que perceberam seu desapego e ajudavam-no.

Em seu segundo mandato, conseguiu que Dr. Moacir Salim se mudasse para Senhora de Oliveira, e a população finalmente pode contar com um médico mais próximo de casa.

As intervenções urbanas contemplaram só o essencial: no primeiro mandato, a prefeitura trocou a tubulação , ampliou a rede de distribuição da água captada nos montes ao sudeste da cidade para uma pequeno depósito  próximo ao  Morro Cavado; comprou um imóvel onde instalou a sede da prefeitura. Construiu duas pontes, uma de concreto para a saída de Piranga, outra de madeira para a saída de Brás Pires. 

No segundo mandato, construiu uma nova caixa d’água na limeira. Quase todas as ruas do centro receberam novas tubulações e estabeleceu-se um limite de gasto e forma de cobrança baseado no critério de através da chamada pena d’água.  Em Santana de Piraguara foi construído um grupo  escolar.

As causas do rompimento com o grupo PR

Surgiu um problema político durante o mandato de José Luiz de Senna. Nem tudo que ocorreu naquela época chegou a ser revelado e, com a morte dos protagonistas, pouco se sabe a respeito. Os bastidores da política, por menor que seja o município, jamais chegam com clareza aos eleitores, e aqui cabe o ditado popular, “lugar pequeno inferno grande”.  Alguns acontecimentos, daquela época, nem os cabos eleitorais entenderam com clareza. O certo é que José Luiz de Senna e Sodiga se desentenderam. Não se sabe se a morte de João Camilo Milagres, em 1968, o grude que unia o partido, teria sido o que faltou para que não houvesse essa distensão. O que parece mais visível, é que a polêmica em torno da luz elétrica teria dado origem à pendenga.  A cidade vinha de um apagão. Ruas e casas escuras. Mas havia uma decisão a ser tomada. Sodiga defendia a manutenção da Usina (que fora de Piranga), mas o novo prefeito, e o grupo que o acompanhava queriam abandonar a ideia de manter a usina velha, só a CEMIG resolveria. Ao usar um argumento verdadeiro, de que o preço da eletricidade iria subir e a tornaria inacessível para a população mais pobre, Sodiga encontrou uma forte oposição interna em “seu” grupo que, com sobra de razões, achava que o progresso da cidade não ocorreria sem eletricidade mais potente. Não houve interesse em conciliar as duas correntes, e Sodiga rompeu com o grupo, ou vice-versa.  A posição de José de Senna, com bastante apoio popular, foi vitoriosa e a Luz de CEMIG foi inaugurada durante seu governo, com pompas e fogos. Na cerimônia não havia a presença de Sodiga.  Destarte José de Senna teve que marchar sozinho na eleição seguinte ao seu mandato, e então apoiou Sebastião Veloso Primo, um homem de bem e bastante popular, mas que não tinha estrutura partidária para a campanha, o que deu a vitória a um filho de Sodiga, José Geraldo Alfenas que teve  como vice Tonico Bernardes, num mandato tampão de dois anos, os quais nem cumpriu na totalidade, devido a um acidente automobilístico que o afastou do trabalho por quatro meses. O esfacelamento do grupo que havia sustentado a política e elegera prefeitos por quinze anos consecutivos, de 1954 a 1972 levou a vitória de José Maria da Silva, um homem também dedicado à saúde,  que fez prevalecer o sucesso daqueles que atrelaram, até então, saúde com votos. E assim, as mesmas condições que haviam elegido Sodiga tiraram-lhe o poder na política. 

Morte

                       A questão não é se existe vida depois da morte. A questão é se você viveu antes da morte. Osho                                 

A partir da metade dos anos 1980, Sodiga viu-se às voltas com problemas de saúde: a pressão sanguínea alta e as dificuldades de controlá-la.  Entre derrames e isquemias, sua vida se esvaia aos poucos, e a doença o tirou das ruas e do convívio social. Já em 1988, tinha dificuldades para andar. Permaneceu na cama por meses até que, em fevereiro de 1990, foi hospitalizado em Conselheiro Lafaiete, onde faleceu com septicemia devido a complicações urológicas.

— Sodiga praticou uma humildade incrível, com uma entrega total no servir o próximo — foi o que disse Monsenhor José Justiniano Teixeira, em 5 de fevereiro de 1990,  na homilia durante a missa de corpo presente. O então prefeito municipal, Osvaldo Heleno, subiu ao altar para anunciar que havia decretado  três dias de luto municipal.