quinta-feira, 16 de maio de 2024

O Senhor Gualberto

                                                                                       Por Lulu Alfenas

 

Anoitecia quando os dois cavaleiros chegaram ao destino, fazenda Caravelas. Digar tinha alí um velho amigo. O dono da casa cumprimentou-os com um sorriso maior do que a própria cara e com a alegria de quem realmente sente prazer em ver um amigo:

 — Diacho Digar! Você devia ter chegado mais cedo, é tanto tempo sem prosa, e você me chega a estas horas!

 — Compadre Gualberto, muito boa tarde! Chego tarde e saio cedo, como recomendava Santo Antônio àqueles que queriam um bom casamento. Eu vou te contar um caso, fiz de tudo pra chegar antes do sol despencar no horizonte, mas ele não quis me esperar. Até que a gente saiu cedo de Ouro Preto, mas é muito chão. Pouco descansamos no caminho, parar mesmo, só para necessidades inadiáveis e  para o companheiro de viagem beber água. E por falar no diabo, olha ele aí! — Disse, apontando para um Gildo amuado pelo esforço da viagem, e o apresentou: — Compadre, este é o Gildo, amigo do meu primo Deoclécio e, por regras matemáticas em sinais de multiplicação, o amigo de meu amigo é sempre meu amigo; ele é também  lá da Oliveira.

 — Muito prazer! — Cumprimentou-o o velho, mas, apesar da natural cordialidade, parecia não se preocupar em agradar aquele desconhecido.

Gildo fez um gesto de saudação com a cabeça enquanto pensava: “sei lá, acho que pode ser muito prazer. Do jeito que esse velho fala, nem parece que sente alguma coisa em relação a minha presença, se é que realmente ele a tenha notado”.

E o velho parecia mesmo querer conversar só com o Digar e nisso não era discreto nem sutil:

 — Compadre, vocês de Piraguara resistem mesmo ao novo nome e continuam a chamar a terrinha de Oliveira, por que tanto apego a um nome antigo?

— Ah, compadre, o nome mudou ontem mesmo, em 1923, eu de fato nasci na Oliveira e nela morei até meus treze anos. O nome ainda está impregnado em nosso sangue e em nossa alma. Acho até mais bonito Piraguara, mas o povo de Oliveira é muito devoto e não esquece a Santa, e eu vou na crista  dessa enxurrada.

Gualberto ficou calado alguns minutos, mas não era aquele silêncio que traz à superfície a impressão da quietude da alma, ao contrário: a testa franzida, os olhos marcados por uma sombra de preocupação, tudo a indicar que ele sofria com alguma causa. Porém continha-se para não  introduzir o assunto de maneira atabalhoada, e disse:

 — Pra gente que não sai da terra, as mudanças de nome são até boas, alguma coisa tem de mudar, pelo menos os nomes dos lugares.

 O velho não queria deixar passar a mínima oportunidade para ir direto ao que o afligia, mandou às favas a precaução e, como se fosse um complemento do que vinham conversando , disse:

 — E lhe digo mais, estou em plena véspera de muda e precisado de uns conselhos do compadre Digar. Estou em encruzilhada de muitas vias. Como o compadre sabe, já faz cinco anos que estou viúvo e careço de mulher nesta casa — e concluiu com cara de moleque — ruim com elas, pior sem elas.

 Gildo meteu a colher de pau:

 — Sei lá, é capaz de valer a pena ter a mulher sem os compromissos, mas o mundo está muito atrasado, aqui na Piraguara a gente nem pensa em roer a corda com uma moça de família.

 — Quê! Seu companheiro não é do mesmo naipe que nós? Ele é assim mesmo ou só está querendo impressionar-me?

 — Não sei muito bem, embora sejamos amigos há tempos,  vim a conhecê-lo melhor nesta viagem. de Ouro Preto até sua fazenda, eu já sei um pouco sobre ele, ele é assim mesmo ou pior — disse Digar dando uma grande risada, como era seu costume quando atinava de achar muita graça de alguma piadinha e essa nem parecia merecer tanto, nestas ocasiões aspirava o ar aos arrancos, quase ao ponto de engolir fôlego. Alguns amigos diziam que ele ria-se para dentro, outros, que era tão pão-duro que não desperdiçava nem o ar do suspiro.

 Gildo  ouvira esta última frase e não engoliu fôlego e muito menos essa piadinha que parecia diminui-lo:

 — Pera lá Digar! O que você chama de pior, eu considero melhor, e vice-versa. Ou você acha mesmo que estes rapazes certinhos, aqui de Piraguara, são melhores do que eu ou o Boni Capeta que já teve cinco mulheres sem casar com nenhuma. No meu caso é só papo furado, tenho que admitir, um tanto contrariado, não sei se por religião ou por falta de competência, nem uma tenho.

 Digar retrucou, em tom de mofo, tentando desnortear o amigo:

 — E pra começo de conversa, aqui nem é Piraguara, você está bem longe de casa, se não sabe, fica sabendo, aqui é Mainart, pertence ao Município de Mariana! Ademais, eu sei que em matéria de religião, se toda a fé do mundo se ajuntasse no oceano e fosse devolvida à terra em forma de chuva, você e seus semelhantes seriam uma lagoa seca ou, numa hipótese de maiores dimensões, e mais aplicável aos fins a que se prestam as  religiões, um mar morto.

 O velho sentiu-se de lado e, pressuroso, não podia ficar ali o resto da noite a ouvir aquelas discussões enfadonhas de suas visitas. “Será que teriam vindo de tão longe só para brigar no meu terreiro”, pensou, e ainda com o calor desse pequeno incômodo a arranhar sua sensibilidade, interveio para reclamar mais atenção:

 —  Então, o que acha de eu me casar novamente?

 — Aí depende da idade, se é moiçola ainda não está no ponto, se é muito velha, o senhor não há de querer, Como dizem: “cavalo velho gosta de capim novo” — Respondeu Digar.

 — Pois, pois. esta é a minha preocupação. A moça é nova demais da conta! Eu nos meus sessenta e ela nos vinte.

 — Compadre, quarenta anos de diferença de idade é muita lua nova pra pouca lua de mel. Essa escada não é muito alta pro senhor?

 — Alta essa escada pode até ser, mas eu tenho fôlego e nem preciso trepar todo dia. No começo, um degrau por dia, depois, um por semana, e quem sabe o que virá para frente! Mas, compadre, eu preciso de um conselheiro, não de um bobo da corte — disse com um gesto tão finamente cordial que minimizava a agressividade das palavras.

 Gildo não percebeu o gesto de empatia e deu uma risadinha que o companheiro entendeu como “Tomou capeta”!

 Sodiga recolheu as armas da troça e empunhou o bastão da seriedade:

 — Compadre, desculpe-me, é que brincar é mais  fácil do que dar conselhos. Conselho implica responsabilidade, tem que ser bem pensado, bem falado, é preciso baixar as regalias e fazer subir o bom senso. 

 — Regalias, compadre? Como assim?

 — Regalias sim. Um amigo brincalhão tem imunidade, um conselheiro não. O homem nestas horas tem que sair da raseira e adentrar no fundão. O ditado que diz que se conselho fosse bom seria vendido e não dado, certamente se refere a pessoas intrometidas que dão pareceres sem o consentimento de quem os recebe, estes que se ofereceriam para empreitadas para as quais não estão preparados, seja por falta de senso, seja por excesso de confiança em suas próprias possibilidades.

 Os dois caminharam um pouco, o velho puxava o amigo pelo braço e o distanciava  daquele a quem não conhecia bem, o Gildo. Quando se afastaram o suficiente para não serem ouvidos, mesmo que lhes escapasse algum som mais alto, abriram-se à sessão de cochichos.

 — Compadre, o senhor de fato quer meu conselho com toda franqueza?

 — É claro que quero! Pois, pois, se não quisesse não pediria! Eu preciso dele, estou um pouco atordoado. Pode falar com franqueza, perguntar qualquer coisa. Mas o importante é que o senhor me ajude nesta hora.

 — Tá certo. O senhor sabe que não tenho nem a metade de vivência do senhor, mas se me pede, vou atender. E, em primeiro lugar, pergunto: por que ela quer se casar com o senhor? Ela não encontrou pessoa mais jovem ou mais afeiçoado?

 — Ah, compadre eu sei que sou feio! Mas ela parece gostar de mim, e o pior, ela é bonita.

 — Compadre, esta vendo aquela montanha ali, deve ter uns oitocentos metros acima do nível do mar, ela é coberta por árvores de porte, daqui o senhor pode ver que ali há muitas braúnas, é só reparar na flor amarela escura encorpada que é diferente da flor do pau-mulato, que por aqui chama de ipê amarelo,  que tem uma coloração mais clara. Aquelas árvores devem ter uns 500 anos, estavam aqui quando descobriram o Brasil e vão estar depois que nossos tataranetos estiverem mortos.

 Esses preâmbulos, sem sentido aparente, só faziam o velho mais ansioso, e ele interpôs:

 — Isso tem a ver com o quê? Estamos falando de casamento, não vejo encontramento deste assunto com aquelas árvores por mais bonitas que sejam.

 Digar continuou, como se não tivesse ouvido a reclamação do amigo:

 — Aquelas árvores estão ali, indiferentes às famílias que viveram, vivem e viverão aqui em baixo, neste bonito e largo vale. Elas não se importaram quando seu avô se casou, quando seu pai nasceu, cresceu, conheceu sua mãe e quando o senhor veio ao mundo. Elas têm um ciclo que deve brotar de algum tipo de consciência diferente da nossa, embora estejam no mesmo compasso da existência, suas raízes são mais rígidas que as nossas que são mais volúveis, como o é também a nossa fidelidade. O senhor vive a vida inteira neste vale porque está preso aqui por motivos econômicos, afetivos ou seja lá o que for, elas, as árvores, estão presas aqui porque o solo as prende.

 — mas...

 Antes que o velho o interrompesse de novo, Digar procurou arrematar:

 — Pois é, o que tem em comum entre nós humanos e aquelas árvores: as árvores precisam do solo e de nutrientes, da chuva e do ar, e nós do amor, o amor é o que irriga a vida, é o oxigênio que resfria o nosso peito quando nos sentimos queimados pela dureza da existência, é o alimento que torna a triste rotina em alegria pura, o amor é a resposta, o amor está por traz do conselho, da decisão; sem ele o nada, com ele o tudo. Mais objetivamente, o senhor tem experiência em matéria de amor?

 — Olha amigo Digar, gostar é o suficiente, amor é apenas uma palavra!

 — Amor não passa de uma palavra para quem nunca amou, para quem nunca sentiu o que é uma bambeza na perna, uma comichão dos pés à cabeça, um entorpecimento da alma quando o relacionamento é ameaçado. Amor e paixão, por mais que os poetas queiram separados, caminham de braços dados. Porque embora o primeiro possa existir sem o segundo, o segundo é que dá sabor ao primeiro, é que torna essa coisa de homem e mulher em coisa humana e carnal.

 — Compadre, quem sabe é melhor eu mandar o crioulinho ir até Mainart para chamar a Sandrinha!

 Disse o pobre homem que já deixara de ouvir, pois estava, com certeza, no lance da paixão.

.— Então esse é o nome dela, Sandra. Nome bonito.

 —É, mas espera pra você vê só, ela é mais bonita do que o nome.

 Dito e feito, o rapaz foi buscar a Sandrinha.

 Enquanto isso, a conversa continuava:

 — Compadre Gualberto, as matérias de casamento são feitas mais de paixão do que de razão, então qual conselho lhe posso dar, difícil, mas gostaria de perguntar, o senhor foi casado e pode dizer que tem experiência, não pode?

 — Posso: eu sei fazer cafuné numa mulher, sei roncar no ombro dela a noite inteira, sei dar uma flor quando a situação pede, e dar uma patada quando estou nervoso; sei fazer o café quando ela levanta mais tarde, porque está naqueles dias ou por outro motivo qualquer; sei botar valor nas pequenas coisas que ela faz, sei chamar a atenção quando precisa, sei varrer o terreiro quando a o cisco está mais alto e o peso da vassoura é muito para a delicadeza de mãos dela. Sei pedir desculpa quando à noite, debaixo dos cobertores, peido alto ou fedendo; sei ajudar a trocar fraldas, quando os bebês precisam; sei me virar na cozinha quando é preciso, não é só coisa de fritar um ovo ou esquentar um feijão; faço mais: feijão tropeiro, pela-égua, canjiquinha, macarronada, couve picada, omelete temperado com cebolinha, e ademais, sei botar comida na mesa com a minha esperteza e o suor do trabalho dos meus empregados; sei economizar tostões e tostões pra comprar um vestido de chita, roupa de domingo ou pra romaria em Bacalhau ou Congonhas, ou mesmo semana santa em Mariana. Sei dar presentes, quando é preciso e, exigir quando sinto que isto é necessário. Sei carregar meu peso das responsabilidades na cacunda sem reclamar o tempo todo, não sou muito chato, sei sungar a minha cruz e, se preciso, a arrasto morro acima.

 Digar  ficou surpreso: — Uai compadre! O senhor sabe argumentar com muita clareza. Isso é muito bom. Acho que o senhor quer mais um cúmplice, em decisão já firmemente tomada, do que de um conselho para formar juízo. A sua noiva sabe que o senhor pensa assim?

 — Ela sabe, mas não falo com ela com esta franqueza, tenho medo de assustá-la, de perdê-la por uma bobagem, uma palavra mal posta.  Ademais, preciso mesmo de conselhos, pois com a idade que tenho, uma saia pode estar tirando meu juízo e, nisso, preciso por os pés no chão.

Digar pensou “eu agora é que sou o lastro para puxar este homem para o chão, Deus me livre!”. Mas deixou continuar para ver aonde aquilo o levaria, disse:

— Tá certo, tá certo compadre! Ninguém é autossuficiente; reconhecer o valor da palavra de um amigo é sempre um gesto bom. De minha parte, só posso dizer que estou muito feliz de tamanha confiança em minha opinião e em minha amizade.  É uma honra ter um homem de bem que nos dá mais valor que de fato temos.

 Iam conversando, cada vez mais longe da casa e do Gildo quando Sandra chegou e os cumprimentou com um largo sorriso:

 — E então amor, você quer falar comigo?

 — Quero mais é apresentar o meu grande amigo lá de Piraguara, o Edgard Alfenas. É um menino ainda, mas tem inteligência e cabeça no lugar, Ele poderia dar aula pra muito marmanjo aqui de Mainart.

 — Muito prazer! Sandra Lopes ao seu dispor.

 — O Prazer é todo meu! — disse Digar, e completou — estava aqui conversando com o Gualberto, e ele me falava da afeição que tem por sua pessoa.

 Ela corou-se, a menção, por um desconhecido, de sentimentos íntimos lhe despertava certo recato, um pudor discreto. “O que será que este homem irá pensar de mim?” Um rubor passageiro, logo sobreposto pelo clarão de seus olhos grandes, cor de mel, que combinavam bem com a boca larga,  dentes brancos e bonitos que se mostravam num sorriso permanente, como se tivesse sido gravado ali, num momento inesquecível, por um artesão chamado felicidade. Devia ter um metro e setenta, um pouco alta para os padrões de mulheres do local, mas que combinava bem com a altura de Gualberto que tinha seus um e oitenta. Sandra, uma mulher difícil de ser esquecida; simpatia e beleza ali moravam juntas e brigavam entre si pela supremacia. “Avaliar uma mulher assim? Será mesmo isso que o compadre quer?”, pensava Sodiga. “Por que será que essa mulher se interessaria por um homem de meia-idade e lhe entregaria sua vida e seu futuro”, essas questões martelavam a cabeça do jovem, quando foi interrompido pela causa, que disse:

 — Vou preparar um jantar para o senhor e seu companheiro, ou aquele lá na varanda não está com o senhor?

 — Está sim, mas não merecemos tais preocupações, nós somos gente simples, acostumados com qualquer comida de estrada, não carece preocupação, qualquer requentado serve.

 Gualberto interveio:

 — Que isso compadre! E o senhor é lá gente de comer requentado em minha casa! Eu faço questão e ajudo a Sandrinha a preparar o jantar, enquanto isso nós vamos conversando, vamos entrar. 

Enquanto entrava, Digar reparava: a casa era funcional, mas depois que provara a hospitalidade da mansão do seu Salim qualquer moradia pareceria simples. O sobrado na frente e a cozinha nos fundos faziam lembrar a sede da Fazenda da Vargem, construída nos velhos tempos por João Henriques Miranda, o João da Vargem. Aquela e esta tinham a cozinha ao nível um pouco acima do solo; em ambas, para ir da cozinha para as demais dependências do convívio social era necessário subir uma escada. Para entrar na casa, a partir do terreiro de frente, passava-se por um corredor estreito e baixo, com todo cuidado, pois uma viga baixa podia fazer um belo galo em quem ali se distraísse, elevava-se menos de um metro e quarenta do chão. Seguindo a moça de perto, Gildo, que já havia descido da varanda no andar superior e agora vinha atrás dos três, reparava nas belas ancas da moça e pensava com seus botões: “que desperdício, isso é pote muito grande para um homem de pouco sede”. Mas ao entrar na cozinha o pensamento lascivo foi substituído pelo da arquitetura: a cozinha tinha o telhado exageradamente alto para alinhar sua cumeeira ao do resto da casa, o que tornava o seu pé-direito mais alto do que de costume. Havia um cheiro de fumaça e ranço impregnado nos flocos de picumã que se alastravam parede afora nos pontos mais altos e pendiam qual lã negra e adiposa. Misturava-se a esse cheiro crônico, pois aquelas picumãs não eram retiradas há muito tempo, outro, mais atual e que ofendia menos o olfato, que era exalado dos rolos de linguiças pendurados em três varais de cordas de bacalhau esticadas sobre o fogão. Um braseiro quase morto que deveria estar ali desde o almoço ainda tinha calor suficiente para crepitar na esperança de que uma alma delicada, como a da Sandrinha, o reativasse ao efeito de um sopro de hálito perfumado. Do lado do fogão, havia um grande banco de braúna de tábua larga e grossa, mas lisa pelo secular uso, pois se banco era para bundas, em cama se transformava para colunas sofridas quando em noites mais frias o fogão fazia-se lareira. A noite que chegava rápido fez com que o crepitar do fogão tornasse-se insuficiente para clarear toda a cozinha, então o dono da casa acendeu um lampião de querosene e pendurou-o num prego do esteio central da cozinha e Olhou para alguns pratos sujos que se debruçavam ao lado as trempes e se desculpou:

 — Não reparem, eu sou meio desajeitado com a cozinha, e a Sandrinha não pode vir aqui toda hora, ela tem lá seus afazeres; e eu, os meus.

Digar  respondeu por ele e pelo Gildo:

 — Reparar o quê! Isso aqui está uma maravilha. A gente só tem que agradecer tal conforto. A gente que é de dormir em beira de estrada, algumas vezes até sem lona para fazer uma barraca improvisada, só com uma capa de gabardine a gente se organiza e sobrevive.

 Sandrinha, que ia se postar ao lado do noivo, sentiu-se sozinha quando este despercebido subiu a escada que levava ao andar mais íntimo, e, um pouco sem assunto, então, concordou com o visitante e quis agradar:

— Pois é, meu pai está sempre me dizendo para prestar atenção a essas atitudes de agradecer a Deus pelo teto, pela comida, pela vida, e dar algo em troca...

 A moça mal havia pronunciado a última sílaba e teve que entalar-se com “do bem que recebemos”,  que diria em seguida, pois caíra em si e enrubesceu-se pela possibilidade de inferências maldosas enquanto, instintivamente,  puxava o decote para tampar os seios. Era casta; mas não, inocente. 

 Digar fingiu não perceber o descuido que poderia inferir ideias  gozosas e o gesto de pureza que o redimia. Dirigiu-se a moça com alguma curiosidade, deu ênfase a um assunto que a faria esquecer-se do pequeno contratempo:

 — Então, seus pais estão bem? A família é grande?

 — Estão. E tenho ainda mais três irmãos e uma irmã. Ela, coitada, tem sofrido muito com o câncer de papai.

 — Sinto muito! Então, seu pai tem câncer, mas onde, digo, em que lugar do corpo?

 — Olha, não sei bem, deve ser na garganta, ele tem dificuldades para engolir.

 Digar conjecturou:

 — Pode ser no esôfago, ele fumava muito?

 — Demais da conta! e continua fumando, e quem não fuma por aqui! Ele gosta de fumo de rolo enrolado lá pelos seus lados, num lugar chamado  São Bento.

 Digar fez mais algumas perguntas. E depois de Sandra responder a todas com boas explicações, ele arriscou um palpite:

— Ora, ele provavelmente gosta muito de broto de samambaia.  Essa doença ataca também a quem toma café muito quente ou come verduras e legumes sem as lavar direito, os fungos são perigosos para a garganta e esôfago.

— Ora, ora! O menino entende mesmo, Geraldo- Briga-de-Galo me falou de sua magia com a medicina, seu entendimento preciso sobre doenças e de como tratá-las, mas eu precisava presenciar esse dom — disse Gualberto, que descia as escadas e, pelo jeito, viera pela sombra, pois só foi notado quando falou.

 A moça continuou a conversa sem se importar com a chegada do noivo:

 — Pois é, o senhor tem razão, ele e a mamãe não passam uma semana sem comer broto de samambaia, eu não gosto, mas será que faz mal mesmo?

 — É o que dizem os antigos — disse e completou — se a voz do povo é a voz de Deus, é melhor tomar cuidado.

 Gualberto hesitava, aquela conversa fugia de sua urgência, será que devia interrompê-la para assuntos de menor importância, será que era cedo demais para o amigo ter um juízo de valor. Na dúvida, deixou os dois conversando e foi cuidar de sua cozinha.

 Ficaram cada um no seu canto, Gildo encostado na janela, Digar e Sandra na porta que vinha do corredor baixo, e Gualberto se entretinha com suas enormes panelas de pedra. Em cozinha grande de roça, pode-se discursar num canto sem incomodar as pessoas do outro e isso permitiu que o dialogo entre os Digar e Sandra tivesse ocorrido em espaço reservado. A noite já não era mais uma criança quando eles achegaram-se ao fogo. A conversa estava encerrada, e ela parecia desconfiar que aquele papo fosse parte de algum tipo de avaliação, coisa de intento, como uma prova de admissão. Caprichara em mostrar simpatia, mas não fingiu ser o que não era. Digar não tinha como se afastar daquele cálice, era chegada a hora de dar seu veredito. Mas era preciso apaziguar as tripas, primeiro a janta, “barriga cheia atiça a capacidade de ponderar e é amiga do bom senso”, pensou o jovem que ali era tratado como se fosse um experimentado ancião.

 Comida boa: arroz branco, torresmo, ora-pro-nóbis, angu. Como disse Gualberto quando sentava no banco da cozinha: — A melhor comida acaba sendo a que melhor se ajusta à panela e ao cozinheiro. Fazer esta comida foi um prazer, não sei se é saudável, mas despejei gordura para torná-la saborosa. 

Finalmente a cozinha cumprira seu papel que nas fazendas não é um simples local de comer, mas de socializar-se e aquecer as amizades e naquele dia, o amor.

 — Vamos apreciar o caminho de Santiago, compadre?

 Era muito cedo para verem a beleza da via láctea, mas Digar entendeu a ansiedade do compadre e o convidou parar descer por aquele trecho que passa pelo corredor que levava à porta de  baixo. Saíram e caminharam em silencio, atravessaram o curral e subiram na cerca de réguas, ao lado da porteira que se abria para a estrada que levava às ruas da pequena Mainart. Ao longe podia-se ver lampiões a bruxulear nas casas das encostas como que encobrissem histórias e dramas da existência humana que se desenrola atrás de suas cortinas.   Cá no terreiro, as réguas arquearam-se sob o peso daqueles marmanjos num ranger quase imperceptível, resistiram. Os amigos permaneceram ali bastante tempo, a noite esfriava e  serenava sobre  conversas mais amenas e corriqueiras.  Finalmente Digar mexeu no assunto principal:

 — Pois é compadre, conversei com a menina, pareceu-me muito boa, pessoa com qualidades, difícil encontrar tantas numa só moça. Ela pareceu-me ter sentimentos delicados, disposição para o trabalho e, tudo indica que  é dessas que sentem verdadeiro amor ao próximo.

 — Como o compadre viu tudo isso em tão pouco tempo? Perguntou desconfiado.

 Digar não se surpreendeu com a dúvida, já a esperava, pois sentira a mesma hesitação sobre si mesmo, ter assim uma convicção tão apressada a respeitos dos tão intrincados aspectos do caráter e personalidade de uma pessoa. Será que a vida é assim: amor à primeira vista, confiança de cara, percepção rápida de que se está frente a alguém do bem? Respondeu o que havia já pensado durante o jantar:

 

— Meu muito prezado amigo Gualberto, alguns acreditam em amor à primeira vista, outros sentem desprezo imediato por alguém que nunca vira antes, e, para ser mais direto, no caso presente, eu senti confiança na Sandra, foi uma coisa de imediato, de sentimento, difícil de explicar com palavras, mas vou tentar: as falas dela parecem transitar pelo coração antes de brotarem nos lábios. Soam tranquilidade que só vi em pessoas que não mentem, e em tudo que falamos, não restou nenhuma dúvida de que ela de fato ama o amigo. Não é apenas uma questão de respeito, vi nela, através do olhar, da respiração e do tom de voz, que a ligação à sua pessoa é maior que a afinidade poderia fazer emergir, é mais sublime que a confiança, é mais profunda que a amizade: é o amor.

Digar fez uma pausa, ele precisava falar o que sentia. Lidava com um sentimento quase inefável. Mas o compadre poderia pensar que um juízo tal favorável, na qualificação de sua futura mulher, fosse sintoma de sentimentos que estavam a ultrapassar os limites que a tarefa exigia, e que a amizade admitia. Há empreitadas que exigem que se caminhe no fio da navalha, as pessoas delegam responsabilidades, mas não abandonam o ciúme, a desconfiança e muito menos a honra. Digar avaliou as feições do amigo perscrutando o insondável, o cintilar das estrelas trazia luz insuficiente para uma percepção tão sutil, o mínimo de ranhura, numa face tão queimada pelo sol, poderia gravar um mundo de sentimentos, um universo desconhecido, mas tinha que arriscar, e arriscou:

 — Compadre, acho que o senhor tem que viajar por essa estrada perigosa chamada casamento, e o mais rápido que puder, já que, como diziam os espartanos, “se tens que comer do mel, coma-o antes que ele seque ou que as próprias abelhas o consumam”. E foi assim, com essas palavras antigas e cheias de doçura, quase femininas, que Digar selou a sorte daqueles dois  que se tornariam, em alguns meses, marido e mulher, e ele em padrinho..

 

 (vai continuar que quiser que espere)

 


A Jardineira

                                                                                                                                                                                                                                               Por Lulu Alfenas


Vieram a Ouro Preto para o 7 de setembro de 1928, entre outras coisas, queriam conhecer uma jardineira que fora importada da Inglaterra como o principal  atrativo dos festejos tradicionais nesta data. As festas de longe seriam como as de 1922 quando se comemorara o centenário da independência do Brasil. Mas aquele misto de carroça e automóvel era uma boa atração para dois jovens do interior, que só conheciam carros de passeio, mesmo estes raros nas estradas de Piraguara. 

 

Deoclécio comentou:

 

— Só mesmo como novidade eu engulo isso, não estou achando muita graça nesta jardineira, pensei que fosse bem acabada. Repare, é quase madeira pura, eu diria que não passa de uma carroça puxada a motor.

 

Edgard, que havia entrado na grande-perua e se assentado em seus bancos, discordou sem muita convicção:

 

— Não é tão ruim, isso é apenas o início, acho que em breve vão fazer coisa melhor. Pra nós da roça, aqueles caminhões que estão lá embaixo poderiam ser mais úteis. — Disse apontado para a exposição de caminhões da Ford que estavam estacionados um pouco abaixo do palco, numa rua lateral à praça Tiradentes,  onde estava, e concluiu — Aqueles vão substituir o carro de boi e não demora muito.

 

Um lambe-lambe, que tinha uma barraca instalada quase rente ao palco, insistia para que se deixassem fotografar:

 

— Leva uma lembrança, guarde o momento que fica pra toda a vida, e lhes digo com honestidade que meu trabalho é de qualidade — disse fazendo charme de com rima e quase cantarolando para chamar a atenção dos transeuntes — qualidade é o meu nome, fotografia não faço, faço retratos, olha o retrato!

 

Cederam, foram retratados. Como não tivessem roupas apropriadas, o lambe-lambe emprestou-lhes as que tinha para tais ocasiões. As roupas não lhes cabiam bem: ambos vestiram ternos completos, botinas surradas e empoeirados, como convinham a dois tropeiros que se prezassem: cadarços bem amarrados sobre meias compridas em  preto e branco.  Edgard usou paletó e calças de mesmo tecido, textura em preto em branco com listas verticais. A roupa cedida a Deoclécio se ajustou melhor ao modelo. Parecia um traje de ir à missa, brincaram: paletó claro e calças com listas largas e escuras contrapondo-se a um fundo branco. Edgard estranhava a própria vestimenta, em especial a gravata de fundo branco e listas vermelhas largas, e a de Deoclécio, escura com pequenos motivos entrelaçados e mais claros. Era moda cobrir a cabeça em ocasiões solenes, e Deoclécio o fazia com estilo, um chapéu Borsalino escuro, de abas largas e faixa da mesma cor.  Edgard, que sempre gostou de boina, nesse dia usou uma escura enfeitada com botões de prata.  As Feições tranquilas escondiam as emoções daquela viagem e a inesperada noite na casa do Turco. Ambos sérios, compenetrados no foco da máquina e olhares fixos na expectativa do passarinho. Deoclécio, que achava graça no estilo do companheiro, guardou a brincadeira para depois do clique:

 

 

— Edgard, você ficou muito parecido com o Didinho da Casinha, aquele adora uma calça pega-frango.

 

Edgard não reagiu, apenas fez um – Hum... — e virou-se com desdém como quem diz: que importância tem essas bagatelas!

 

Deoclécio mudou de assunto, parecia insinuar alguma coisa, mas optou-se por fazer mais uma daquelas perguntas fora de hora:

 

— Seu Diga, diga-me, quantos irmãos você tem ao todo?

 

Ele também sem buscar motivos, simplesmente respondeu:

 

Entre irmãs e irmãos são oito: a Zelina, a mais velha, que você muito bem sabe é casada com o João Camilo; a Maria que mora em Piranga, mulher do Péricles, a Isabel que se casou com o Zé Badaró e mora em Barbacena, o Torgo que acho que não vai se casar tão cedo, aquele é namorador e já ficou noivo umas duas vezes; o Antônio, que agora  namora uma menina lá de Alto Rio Doce; a Peixe que se casou com  o Aristides  de Piranga e foram morar em Santana do Piraguara,  o Duca que você muito bem conhece, e a  Francisca que é a caçula..

— Mas e você Seu Digar, quando pensa em se casar?

Ele parecia distante, talvez nem tivesse escutado o que o companheiro perguntara. Deoclécio notou o pouco caso e pensou: “acho que não estou agradando muito; é, com efeito a morena que ainda ronda a cabeça do Edgard”. E na falta de incentivo para voltar à carga, pensou ainda com humor: “Morena, qual delas? Uma ou outra, a de lá mais pra índia que pra negra”.

 

Edgar voltou à terra, agora com outro assunto:

 

— Não se esqueça Deoclécio, ao meio dia temos que fazer chão – disse e completou — Pretendo dormir esta noite numa fazenda, na estrada nova que liga Mariana a Piranga, hoje ainda vamos comer muita poeira.

— Nisso você se engana, resolvi ficar por convite de um grande amigo daqui, mas em meu lugar vai o Hemenegildo, que você conhece como Gildo, encontrei-me com ele por aí, e ele me disse que queria voltar hoje, mas não queria ir sozinho, combinamos  a fome com a vontade de comer e propus que ele fosse em meu lugar, no que aceitou de bom grado. Eu fico com o meu cavalo e vou quando Deus quiser.

 

Digar estranhou tal mudança, mas conhecendo o primo e suas venetas, logo aceitou o novo companheiro o qual já conhecia de longa data e de muitas brincadeiras também, era como se ele fosse um primo.  Ao meio dia ele e Gildo  desceram as encostas de Mariana, passando ao lado do Pico do Itacolomi e rumaram para a Fazendo Caravelas, onde Digar tinha costume de pernoitar. Não há como chegar aos Arantes sem margear por algumas léguas no córrego papa-cobra. Na margem norte cresce a montanha que forma a Serra de Mariana, dando-se a impressão que o rio é cercado por uma grande muralha. Mais de cem metros de altura da Margem até o topo da montanha. A trilha que leva do sopé até a base da elevação é irregular e íngreme o bastante para rolarem cavalo e cavaleiro em caso de um passo em falso. Edgar pagava o preço da fama de peão e bancava os riscos sempre que o terreno oferecesse perigo e ia à frente, e por este motivo chegava aos arraiais e fazendas alguns passos na frente do companheiro de viagem, fossem eles Deoclécio ou Gildo.   

Dessa vez, margearam o rio por alguns quilômetros até encontrar uma raseira por onde atravessaram. Edgard comentou para o companheiro de viagem:

 

— Não estamos indo por um atalho, este trajeto aumenta a viagem em dez quilômetros, mas vale a pena passar por aqui, principalmente para você, que nunca viu este ribeirão e não conhece a beleza de suas margens.

— De fato não conheço. Mas me diga, por que sendo todo mundo o chama de rio? Deve haver algum motivo, seja por ignorância do significado dos nomes ou por lhe prestar alguma homenagem. — disse Gildo.

Edgard voltou-se para a história do lugar:

— Água em movimento é igual às pessoas: são todas semelhantes, mas quem as vê lhes dá valores diferenciados, muitas vezes mais pelas aparências. Tem riacho com a panca de ribeirão e ribeirão com jeito de rio. O Gualaxo é rio por merecimento e ribeirão pela quantidade de água. Água assim tão especial, se estancada, podia ser oceano sem ofender os mares.

Caminhavam ao lado do curso d’água da região que havia sido descoberto por Bartolomeu Bueno, no século XVII. Ali os primeiros bandeirantes encontraram pepitas que podiam ser vistas sem apear, assim como agora, quando os cavaleiros podiam ver aquelas pedras roliças lá em baixo. A água é pura, pois desce de pedreiras e montes e é depurada pelas gretas e poros das pedras, um filtro natural. O ouro aqui fora tão abundante que teria sido a  causa  de a região atrair tantos aventureiros.  

Gildo ouvia e reparava atento, mas sem o entusiasmo do amigo, era indiferente às categorias que diferenciam as coisas, mas não à beleza do lugar, talvez por isso tenha dito:

—É... E eu que pensava que o Ribeirão Podre fosse de águas claras, esta daqui é transparente, quase invisível, eu não sabia que isso era possível.

— Pois não é! — Respondeu Edgard e enquanto falava curvou-se do lado esquerdo da sela, jogou o peso do corpo no estribo do mesmo lado e esticou o braço até alcançar a água, pegou um gole na palma da mão e o solveu sôfrego antes que as gotas se lhe esvaíssem pelos dedos, e, por fim, comentou — e é gelada.  Experimente, vale a pena, beleza também mata a cede.

 

Gildo aceitou a sugestão, mas teve que descer do cavalo para alcançar a água, era mais alto e menos flexível que o companheiro de viagem. Postou-se na beira de um lugar raso, ajoelhou e curvou-se colocando todo o peso no braço direito e, com a mão esquerda, molhou a cabeça na água. Edgard achou aquilo engraçado e caçoou:

—É seu Gildo, tá lavando a consciência; será que não carece de sabão de barrela e caco de telha pra tirar tanto pensamento sujo?

— Não, Digar, você é que  precisa de sabão de decoada e creolina, pois  ficou todo arrepiado só de ver o gingado da baiana, como me disse o Deoclácio hoje mais cedo.

— Aquele é um bom amigo e primo, mas um grande mentiroso, depois de darem boas gargalhadas, como é comum nestas viagens demoradas e cansativas, passaram, em questões de segundos, da euforia total para a um estado de letargia. Estavam num daqueles lugares em que a natureza emite intermitentes convites à reflexão e à pachorra, um mundo para se maravilhar, e a viagem tornava-se lenta, e os viajantes quietos. Os animais aproveitaram a quietude dos que os montavam para diminuírem o ritmo, iam a passos. Digar apreciava as montanhas e a vegetação exuberante que os cercavam, mas não era dado a caracterizar tais belezas, faltavam-lhe palavras adequadas e públicas interessados. Sem o saber, o jovem peão adotava uma velha filosofia oriental que preconiza, com muita propriedade, que conceituar é reduzir os significados e afastar-se da compreensão, o melhor é admirar sem tentar classificar; filosofia essa em total oposição à cultura vigente que a tudo quer explicar e que gosta de dar nome aos bois, mas logo os manda para o açougue, ou seja, para cumprirem o destino de serem, como todo ser vivo, comidos por outros. Mas, mesmo sem se ater a essa necessidade de aprender nomes das coisas, desde a primeira infância, Digar os conhecia, sem nenhum esforço, pois vivia no meio do mato. Assim, não lhe escapava o nome de cada uma das árvores mais comuns: do Mulungu, com o tronco rodeado por nódulos enrugados, por aqui mais conhecido como Bico-De-Papagaio, devido à  flor que muito se assemelha ao bico do tucano; do Monjolo, que o povo chama também de Jacaré; da Braúna, árvore de tronco forte e entranhas negras, dura e impenetrável — muito usada para esteios das principais benfeitorias das grandes casas de fazenda. Tudo naquelas montanhas empurrava o homem para a meditação e um mergulho em si mesmo. Sodiga ia pensando em sua vida: dezoito anos bem vividos, bons tempos, mas era muito novo ainda para enfrentar casamento no próximo ano. Com seria aquela nova vida? Ele e Rita já tinham terras herdadas por ela desde a morte do pai, faltava-lhes, apenas, uma casa boa para morada. Razão não havia para maior preocupava. Lembrava-se do que sua mãe costumava dizer: meu filho, não se inquiete por ninharia, Deus há de prover. Vinha em seu auxílio, o que confirmava a palavras da mãe, o exemplo de sua futura sogra, Deolinda que, nas vésperas de seu primeiro casamento com João da Vargem, havia ganhado uma fazenda de terras com mais 400 hectares, tudo com benfeitorias, um patrimônio que incluía uma casa velha. 

À monotonia do lombo de cavalo e o horizonte alto, quando viajavam pelos os vales, contrastavam-se com a beleza de um chão desenhado por gramas rasteiras e de variadas tonalidades e formatos, tapete vivo sob as sombras de árvores copadas, esparramadas, fungiformes ou esguias, demonstrando a diversidade como indício de que a natureza não perde nenhuma oportunidade de vida: qualquer nesga de terra ou rachaduras entre pedras onde se possa encontrar a mínima condição de vida, aí certamente uma semente germinará, e o espetáculo da criação se repetirá. A vontade de criação ali é Deus; e para o cavalo, o peso no lombo, o diabo.

Seria uma viagem inesquecível como veremos quando os cavaleiros chegaram ao destino, fazenda Caravelas.

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