quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A Usina e a escuridão





     Por Lulu




    Escrito à luz de lamparina pela minha melhor metade.

Dedicado ao amigo Izaltino Gonçalves Filho.

Uma luz que se apagava.

Há amores que não adormecem em nós, e fatos que não deveriam ser esquecidos, assim me parece a história da usina elétrica que, nos anos 50/60 do século XX, servia à comunidade de Senhora de Oliveira, mas era propriedade de Piranga. A partir de 1953, essa geradora passou a ser a causa de querelas entre os habitantes das duas cidades. Enquanto os políticos e cidadãos mais exaltados brigavam pelo direito de usá-la, a usina definhava, como um doente abandonado que aos poucos vai perdendo a energia e a capacidade de transmiti-la aos outros e, já nos estertores da morte, sua forma visível, um tanto esmaecida, brindava-nos com uma luz apagada, uma vela. Nem os adeptos de São Lázaro tinham esperanças de que aquelas máquinas ressuscitariam. Nós, os oliveirenses, fingíamos ter luz; e a cidade de Piranga, que no-la cedia.

Muitos entreveros aconteceram naqueles anos obscuros, alguns nem sei se fruto de invencionices de nossa gente, que é cismada demais, como a história de que alguns populares de Piranga houvessem saído em passeata em direção a Senhora de Oliveira com a intenção de percorrerem os 22 quilômetros que separam as sedes dos dois municípios e de, ao final do percurso, desligarem uma grande chave que deixava passar a energia que ia para o ex-distrito. Mas, até onde se sabe, prevaleceu o bom senso da turma do deixa disso, e a aventura foi abortada.

Piraguara, a melhor costela de Piranga.

Poucos admitem a importância de Piranga no desenvolvimento de Senhora de Oliveira. Não deveria haver controvérsia sobre isso: uma é filha da outra, mas não se reconheciam como tal. Aliás, não fossem todas as provas históricas escritas e faladas de que Piraguara fora distrito de Piranga, bastaria esse nome para servir de testemunha cabal de que as duas cidades tiveram a mesma origem: Piraguara, se lhe acrescenta uma “nga”, nada mais é que Guarapiranga escrita ao contrário e, por sua vez, Guarapiranga é o antigo nome de Piranga. Que Piranga chamava-se Guarapiranga todo mundo sabe ou deveria saber, o que ninguém sabe é por que, em 1923, tiraram o guará (palavra indígena que significa vermelho) da fachada de uma e botaram como rabicho na outra. Muitas piadas caberiam nesse troca-troca de letras, mas, naquele tempo, uma brincadeira com isso poderia levar a óbito. Era um tempo em que os ânimos exaltados prevaleciam sobre o legado que a cidade menor recebera da maior. Menos ainda reconheceriam, os habitantes de Senhora de Oliveira, que a energia elétrica fora instalada no antigo arraial sob a administração de Piranga.


Nos casos de emancipação municipal, é normal que aconteça um olhar enviesado dos moradores da sede do território desmembrado em direção aos beneficiados com a mudança. Na maioria das vezes, as animosidades começam na campanha para a desvinculação, em que as pessoas que desejam a autonomia de governo têm que contrariar seus habituais parceiros, decepcionar os antigos chefes políticos e negar as vantagens da unidade. Uma não quer mais depender da outra para planejar e executar seu próprio desenvolvimento. Essa liberdade, de andar com as próprias pernas, tem seu preço e assim aconteceu neste caso, depois que Piraguara emancipou-se e saiu para o abraço, viu que Piranga continuava com os braços cruzados, numa atitude em que se fechava a uma solução amigável no caso da energia elétrica. Por outro lado, o povo de Senhora de Oliveira não quis compreender que, sob a ótica da antiga sede, cortar a energia de seu ex-distrito não era uma questão de birra, a luz não dava nem para uma das comunidades, alguém tinha que sofrer, e, em casos assim, sofre mais quem pode menos.

Não cortou por quê?

Pergunta quem lê este apanhado, por que Piranga, sendo a dona da usina, simplesmente não desligou a luz de Senhora de Oliveira, e ponto final. Acontece, caro amigo, caso você ainda não saiba, a usina era fincada, em maciço de pedra, dentro do Município de Senhora de Oliveira e a poucos quilômetros do casario. Essa usina ostentava sua bela figura ali onde hoje, outubro de 2012, está a destilaria de álcool Junivan. Vê-se que evitar uma briga desse tamanho não era só uma questão de bom senso, a dona da usina temia represálias. Não houvesse uma solução amigável, o patrimônio, objeto da disputa, ficaria à mercê do povo prejudicado que, com certeza, não seria um depositário fiel confiável. Questões de ordem prática completavam esse quadro: para desligarem a luz de Senhora de Oliveira, mesmo que atalhassem por Guiné, uma pequena comunidade quase nas divisas entre as duas litigantes, ainda tinham que passar por uma grande faixa de terras que, na nova ordem, pertenciam ao município recém-nascido. Na época, Alcides Fidelis, teria resumido o impasse com a frase: "quem bebe a água que nasce em terras do vizinho de cima só pode brigar com o de baixo".

Um paraíso para as crianças.

Para as crianças daquele tempo, do que sou testemunha ocular, a usina era um local mágico aonde iam com as professoras que as ensinavam um pouco de como se dá a luz — não confundir com como se dá à luz, pois naquela época esse assunto era tabu, e as meninas, pelo recato com que eram educadas, jamais poderiam ouvir sobre essas coisas de uma professora, pois esta correria o risco perder o emprego, no mínimo —. Mas vamos deixar de lado esses detalhes, voltemos ao tema central: pensar na usina é pensar em sô Lauro (que Deus o tenha em sua luz), um gênio que sabia consertar aquelas parafernálias que rodavam a grande velocidade, produzindo correntes misteriosamente elétricas, coisas invisíveis e sem peso, que escapuliam por aqueles fios finos e levavam aquela brasa para as lâmpadas das ruas e das casas. Para as crianças, essa magia tornava-se mais uma atração, pois o local, onde ficava a usina, era também excepcional, mesmo para quem não apreciava adjetivos fortes era: estupendo, maravilhoso, encantador e o escambau. A água do Ribeirão dos Peixes era aprisionada, alguns metros antes de chegar à usina, por um canal cimentado e assim,  escrava do trajeto, como um boi entra no matadouro, ia cair num tubo enorme que se afunilava até chegar à roda dentada, parecida com essas de moinho de fubá, só que em posição vertical. Tanta água espremida pela gravidade só podia descer com força e, assim, chegar à roda, senhora da mágica maior, com enorme pressão, e aquilo zunia, como dissera Chico Filó quando ali excursionara, "Zune em cima e ferve embaixo", e os colegas pensaram que ele se referisse à alguma colega de sala mais falante e assanhada, mas não, filó havia sido literal.

O sucateamento

Mas nós, as crianças, perderíamos aquele paraíso. Dizia-se que o processo de sucateamento da usina começara quando ela servia a outras comunidades. O certo é que, depois de 1953, com a emancipação do distrito de Piraguara, que passou a chamar-se Senhora de Oliveira, as trevas se aproximavam e causavam terror, maior, obviamente, entre as mães de família, principalmente as que tinham meninas moças; estas, as donzelas, nem se importavam, pois a juventude sempre percebe quando um novo tempo de mais liberdade, responsabilidade e amor se aproxima, mas as matriarcas, agarradas nas tábuas do passado, tremiam enquanto pensavam em suas filhas naquela escuridão, naquele apagão intermitente e ao alcance de marmanjos aproveitadores. Enquanto as mães invocavam seus santos em extensas ladainhas cantadas na penumbra da Igreja Sagrado Coração de Jesus, os anos iam passando, e a picuinha entre as duas cidades crescendo: ninguém queria ficar sem luz, então, elas brigavam pelo restinho que ainda podiam ter. Cortar a luz da nova e orgulhosa cidade, como solução paliativa, ocorria com frequência. Às vezes Piranga justificava a cada vez menos esporádica interrupção do fornecimento com argumentos técnicos, mas, com os ânimos acirrados, o povo de Senhora de Oliveira não mais confiava em desculpas. As brigas miúdas eram de conhecimento do povo, mas as mais importantes ocorriam nos bastidores da política, principalmente em Piranga, onde havia gente graúda que não queria uma solução enquanto os adversários estivessem no poder. Nesse tocante, o que ocorria em Senhora de Oliveira era bem diferente.

Era ruim e piorou.



Enquanto os mandachuvas brigavam, e os anos passavam, uma depreciação maquinal e maquiavélica, porque tramada, grassava à velocidade da luz, pondo oxidação e trincas naquelas engrenagens, causando um travamento progressivo e contínuo, e a usina gemia, não mais zunia. E as lâmpadas pisca-piscavam a noite inteira e algumas fagulhavam e nem se sabia ao certo se estavam acesas ou apagadas. Para quem gosta do ditado de que é na escuridão que se vê melhor, vivesse na região, nos anos 60 do século XX, e seria um sábio de grande visão e muito tropicão; iluminado à noite, naquela época, só mesmo o céu, é claro. Mas assim como não serve ao progresso a filosofia da escuridão e nem ao sábio "o vamos esperar para ver", alguém ou alguns teriam que vir em socorro à população e vieram: na beira do rio Piranga, uma cabeça mais pensante do que as outras teve uma ideia que um dia Geraldo Vandré imortalizaria com o refrão: "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".


A criação ao contrário: faça-se a escuridão, e a escuridão se fez.


Izaltino Gonçalves Filho,
o Titino, foi testemunha
ocular da histórica queda
de postes. Na foto ele
aparece de calça preta,
camisa branca e óculos
escuros. (Clique para
ampliar esta foto)
O fim desta história de usina acabou, para Piranga, da seguinte forma: algumas lideranças, dessa histórica, bonita e importante cidade, cansadas de esperarem por uma solução política, já que as forças da oposição amarravam a entrada de Cemig, isso porque não queriam entregar os louros desse feito ao Prefeito da situação, resolveram agir. Convencidos de que é melhor uma escuridão passageira que um lusco-fusco pelo resto da vida, cerca de cem homens rumaram decididos até as divisas de Senhora de Oliveira e de lá voltaram derrubando postes, enrolando fios, e assim passaram o dia inteiro. À noite entraram em Piranga com caminhões carregados de fios de cobre, transformadores e outros equipamentos menores usados como isolantes, jogaram tudo na frente da Prefeitura e na Praça. Conseguiram a mudança na marra. A partir de então, nenhuma força política teria como atrasar a entrada da luz na cidade.

Em Senhora de Oliveira, algum tempo depois, aconteceria algo também um tanto fora do comum, a usina seria levada água abaixo. Pode parecer até uma piada, mas é a mais pura verdade: sem mais nem menos tudo ruiu: tubos pesados, paredes de concretos, máquinas, tudo perdido de um minuto para outro. Suspeitas de sabotagem? É claro, mas o líquido e certo é que aquelas águas não mais tocariam rodas e nunca mais zuniriam em cima e ferveriam embaixo. A perda da usina representou um prejuízo incalculável para Senhora de Oliveira, caso tivesse sido mantida, o município, a exemplo de outros que assim fizeram, poderia vender sua energia para a Cemig e assim reduzir seus custos com economia substantiva para toda a população da cidade e da zona rural. 

E antes que a escuridão do tempo assoreie as nossas mentes e encubra de vez nossa história e nos afaste de qualquer vestígio de verdade, escreveu-se essa versão dos fatos, outros que abram as comportas de suas versões. Lembrem-se de Carlos Drummond de Andrade a sussurrar em nossos ouvidos "A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Assim não era possível atingir toda a verdade, porque a pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade".